Na abordagem “Porque hoje é sábado!”, a crônica sobre a força da cana-de-açúcar na história do Brasil, por Carlos Vieira

A cana-de-açúcar está na origem da formação econômica do Brasil. Assim afirmava Celso Furtado ao sustentar que o Brasil nasceu como um projeto econômico. Quando li essa afirmação, fiquei intrigado. Voltei aos livros, pesquisei e passei a revisitar episódios que ajudam a compreender o alcance dessa ideia.

Imagino as antigas estradas de terra por onde seguia a produção da cana. Os engenhos deram lugar às modernas usinas; as técnicas rudimentares foram substituídas por tecnologias sofisticadas; novas variedades, mecanização e pesquisa transformaram a produtividade. A cultura da cana evoluiu, mas permaneceu como um dos pilares da economia nacional.

Quando era Menor Aprendiz, em 1976, presenciei intensa movimentação na agência do Banco do Brasil da Praça 1817. Para lá acorriam grandes e pequenos produtores da Zona da Várzea e de outras regiões canavieiras para assinar os contratos de financiamento do Proálcool.

Criado em 1975, durante o governo Ernesto Geisel, o Programa Nacional do Álcool surgiu como resposta à crise mundial do petróleo. Seu propósito era reduzir a dependência brasileira do petróleo importado por meio da produção de etanol derivado da cana-de-açúcar. Foi um dos mais ambiciosos projetos de política energética já concebidos no país.

Com a redução das tensões no mercado internacional de petróleo e a queda de seus preços, o programa perdeu parte de sua razão econômica. Aos poucos, os incentivos diminuíram e muitas das expectativas criadas se dissiparam.

Na década de 1980, assisti a esse processo por outro ângulo. Já como gerente da Caixa, acompanhei a corrida de produtores rurais em busca do refinanciamento de suas dívidas. Vi usinas reduzirem sua produção, enfrentarem dificuldades e, em alguns casos, encerrarem suas atividades. Ao mesmo tempo, testemunhei o fortalecimento dos movimentos dos trabalhadores rurais, que reivindicavam melhores condições de trabalho e maior reconhecimento social.

Cinquenta anos depois, o mundo volta a discutir a transição energética. O velho ouro negro continua perdendo espaço para novas alternativas de energia renovável.
No transporte urbano, a eletrificação avança impulsionada por baterias baseadas em minerais estratégicos. A busca por fontes renováveis permanece atual, embora os caminhos tecnológicos sejam outros.

Enquanto isso, a cana continua reinventando seu destino. Além do açúcar e do etanol, prospera a produção de cachaças artesanais e industriais de elevada qualidade, algumas reconhecidas internacionalmente.

E é impossível concluir essa lembrança sem recordar a expressão atribuída aos escravizados que trabalhavam nas antigas fazendas produtoras de cana de açúcar: A tradição popular atribui aos escravizados a expressão “pinga em mim”. Uma frase curta, mas carregada de dor e simbolismo, que nos lembra que, por trás da riqueza produzida pela cana, havia o sofrimento de homens e mulheres cuja história jamais pode ser esquecida quando se avalia exclusivamente a questão econômica.

 

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Walter Santos

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