A série americana “House of cards”, criada pelo cineasta Beau Willimon, e lançada pela Netflix em fevereiro de 2013, (no ar até 2018), durante esses seis longos anos nos obrigou, (ou convidou) a ir dormir mais tarde. De olho na TV e nas peripécias e artimanhas ardilosas do personagem Francis Underwood, (Kevin Spacey), um político sem escrúpulos da Carolina do Sul, que manipulava a todos e nunca saia de cena sem deixar no ar um cheiro de corrupção.
A todos nós causava espanto devido a tanta competência a serviço do crime. Guardadas as devidas comparações, mudança de cenários e diferenciando o talento dos atores da tela, e os de agora da vida real, o caso Master-BRB, com Daniel Vorcaro no papel principal, a cada dia que passa chega ao público esbanjando cenas ricas de intensidade e revelações a cada capítulo.
De fato, quase uma série de TV.
A exemplo do que relata a Netflix, baseada no livro do roteirista inglês Michael Dobbs, o caso Vorcaro já se alastra País afora, desde o dia 4 de março passado, quando o banqueiro foi preso tentando fugir do País.
De lá para cá, como se fosse uma novela sem intervalo comercial, os episódios que envolvem o vilão (ou mais de um) são ricos e robustos no desempenho polêmico dos personagens. Atenta, e preocupada, a sociedade já viu e ouviu de tudo sobre esse caso, menos o que de fato interessa; quem será punido, como, quando e porque.
Rebobinando a fita, como se fazia antigamente, lá estão citados nomes ilustres para todos os cardápios, desde a Suprema Corte, passando pelo meio empresarial, Congresso Nacional, Palácios, Tribunais e Governos estaduais. Como os capítulos empolgantes de “House of cards”, que terminavam sempre projetando novas investidas de Underwood citando poderosos da Casa Branca, no caso Master-BRB os nomes dos envolvidos brotam a cada semana, com robusta intensidade, surpresas e quase sempre ocupando cargos de comando e liderança.
A rede de intrigas formada em torno do caso Master-BRB, segundo o próprio Ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, lembra situações criadas pela antiga Máfia. Para o relator um episódio lamentável, talvez o mais grave até hoje registrado no País, com repercussão internacional.
Seus colegas da Corte Suprema abordam casos com a mesma interpretação. Ainda em curso, pendurado em uma série de investigações conduzidas pela Polícia Federal, o caso invade o período eleitoral, arrasta com ele nomes de partidos políticos, entidades outrora respeitadas e de repente envolvidas em citações nada republicanas.
Um agente de segurança, ligado a Vorcaro cometeu suicidio na prisão, caso segundo a PF, já elucidado. Um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, custeado pelo dinheiro do banqueiro, via Flávio Bolsonaro e o irmão Eduardo, que mora fora do País, causou estragos na pré- campanha eleitoral do filho do ex-presidente, até hoje se explicando e mal convencendo a ele mesmo.
Vorcaro, driblando com habilidade a Polícia Federal, e ainda fugindo de uma provável delação premiada que parece nunca sair, segue como atração principal dessa trama, que para alguns apaixonados por cinema, desde já fornece imenso conteúdo para a sétima arte.
“House of Cards” perdeu a intensidade, e caiu no desinteresse do público após a denúncia de assédio sexual contra o ator Kevin Space, que deixou a série e foi se entender com a justiça. Por aqui, mesmo que ainda preso, e resistente às investigações policiais, o banqueiro sinaliza longa batalha em defesa de milhões ainda espalhados sabe-se lá por onde. Quem sabe, personagem de um longa metragem que dará origem a uma série.
José Natal
Jornalista

