Atrasos nos jogos da Seleção? Especialista explica como as condições climáticas podem afetar a fase de grupos do Brasil; entenda

Restando apenas oito dias para a Copa do Mundo 2026, os efeitos das mudanças climáticas já entram no radar das 48 seleções participantes.

O clima de festa que tomou conta da torcida brasileira após a goleada sobre o Panamá, dá lugar ao clima seco e às altas temperaturas dos Estados Unidos, onde os termômetros alcançam até 35°C durante o rigoroso verão do Hemisfério Norte.

Para a Seleção Brasileira, comandada pelo técnico Carlo Ancelotti, a adaptação às condições climáticas será mais um desafio na busca pelo hexa, afetando no preparo físico, recuperação e hidratação dos atletas.

Embora alguns estádios em Atlanta e Houston já possuam teto retrátil, como o Mercedes-Benz Stadium e NRG Stadium, outras arenas não contam com o suporte e podem refletir em atrasos, inclusive nos jogos do Brasil.

Isso porque as disputas da ‘fase de grupos’ contra o Marrocos (13 de junho), Haiti (19 de junho) e Escócia (24 de junho) serão todos em estádios ao ar livre. Os jogos acontecem, respectivamente, nos estádios MetLife, Lincoln Financial Field e Hard Rock.

Hidratação e estratégia

Com a parada obrigatória para hidratação aos 22’ minutos, divulgada pela FIFA em dezembro do ano passado, um protocolo inédito vai ganhando forma durante a nova edição da Copa do Mundo.

Para Liu Berman, líder do Movimento Reinventando Futuros e da LB Cultura Circular, as temperaturas recordes acendem um alerta climático entre autoridades, que já se provou preocupante em outras modalidades esportivas como o Torneio de Roland Garros.

“Um mapeamento histórico da NOAA/NCEI mostrou que as temperaturas anuais de Paris, por exemplo, cresceram de maneira substancial nos últimos anos, afetando modalidades esportivas como a famosa disputa de tênis do Roland Garros. Em uma diferença de quase vinte anos, é possível ver um acréscimo de 13,6ºC nas temperaturas que os tenistas enfrentaram. Um fenômeno semelhante acontece em meio à Copa do Mundo 2026. Os jogadores serão submetidos a uma verdadeira prova de resistência, aliviada pelo protocolo da FIFA de resfriamento, mas o calor e a ‘umidade do ar’ podem provocar danos à saúde dos jogadores, devido à exposição intensa”, explica Liu.

O alerta às autoridades, porém, não é um fenômeno isolado. Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que os anos entre 2015 e 2025 reuniram os onze anos mais quentes já registrados globalmente. Para se ter uma noção, em 2025, a temperatura média do planeta ficou aproximadamente 1,43°C acima dos níveis pré-industriais. “Estamos falando de uma disputa em níveis de calor excepcionalmente mais altos do que nos torneios anteriores”, comenta Liu.

Em um cenário de retrocesso global, o alerta também chegou ao território brasileiro, que já foi país-sede da Copa do Mundo em 2014. Segundo dados do Escavador, o Brasil enfrentou quase 500 mil denúncias ambientais para além dos biomas degradados, como licenças ambientais, minerações, agrotóxicos, poluição, saneamento, reservas legais, gestão de florestas, cadastro ambiental rural e áreas de preservação, fatores ligados diretamente às mudanças climáticas e ao avanço do aquecimento global.

“O crescimento das denúncias ambientais e a degradação de áreas estratégicas para a regulação climática evidenciam as mudanças no cenário global de 2026, principalmente no Brasil, que abriga um dos principais ‘reguladores climáticos’ do mundo: a Amazônia. O aumento da frequência de eventos extremos, das ondas de calor e dos períodos de seca afeta diretamente a qualidade de vida da população e também a realização de megaeventos, como o caso da Copa do Mundo. Nesse sentido, o esporte acaba se tornando mais um termômetro dos impactos que a crise climática já provoca em escala global”, afirma Liu.

A preparação para a Copa, sediada nos EUA, México e Canadá, será marcada por protocolos de adaptação climática sem precedentes. Segundo Liu, esse cenário reflete uma mudança estrutural já em curso, na qual o futebol passa a operar sob efeitos diretos da crise climática.

“Será cada vez mais comum vermos medidas excepcionais para garantir a segurança dos atletas, como pausas para hidratação, ajustes de horários e até atrasos pontuais em partidas. A Copa de 2026 está a caminho de se tornar um marco nesse processo de adaptação do esporte às novas condições climáticas globais. Nesse sentido, grande parte dessa primeira etapa dos jogos da Seleção pode sofrer com influências externas”, conclui.

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Luciana Leão

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