Atlas de hidrogênio verde transforma matriz limpa em estratégia industrial no Rio Grande do Norte

Por Luciana Leão

Com uma das matrizes energéticas mais limpas do Brasil, o Rio Grande do Norte começa a transformar sua vocação energética em planejamento industrial. O Atlas de Hidrogênio Verde lançado pelo governo estadual identifica áreas aptas à instalação de novas plantas produtivas e posiciona o estado como um dos territórios mais preparados para receber investimentos na economia de baixo carbono.

Mais do que um levantamento técnico, o documento funciona como instrumento de organização territorial para uma nova etapa de desenvolvimento econômico. Ao indicar onde a produção será mais eficiente e sustentável, o Atlas reduz riscos, orienta decisões e cria condições para a formação de cadeias produtivas ligadas ao hidrogênio verde.

Hoje, o Rio Grande do Norte opera com uma matriz elétrica composta por cerca de 98% de fontes renováveis, resultado de investimentos acumulados principalmente em energia eólica e solar ao longo das últimas duas décadas. Esse histórico abriu caminho para um novo ciclo de industrialização baseado em energia limpa.

Projetos em implantação mostram que a transição já começou

O avanço do setor no Rio Grande do Norte já ultrapassou a fase de planejamento e entrou na etapa de implantação de projetos experimentais e industriais, que funcionam como demonstração tecnológica e sinalização para investidores.

Um dos principais projetos em andamento é a planta piloto de hidrogênio renovável instalada na Usina Termelétrica do Vale do Açu, no município de Alto do Rodrigues, iniciativa que utiliza eletrólise da água alimentada por energia solar e tem previsão de operação a partir deste ano. A unidade representa um marco para o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio no estado e integra a estratégia nacional de descarbonização industrial.

Outra iniciativa experimental envolve o uso do hidrogênio em processos produtivos industriais, especialmente na fabricação de cimento, setor considerado estratégico para a redução de emissões de carbono. Esses projetos funcionam como laboratórios tecnológicos e demonstram que o estado já iniciou a transição do potencial energético para a aplicação industrial , etapa considerada decisiva para atrair investimentos de maior escala.

Porto-Indústria Verde

O principal vetor de consolidação dessa nova economia energética está localizado no litoral norte do estado. O Porto-Indústria Verde, planejado para o município de Caiçara do Norte, foi concebido como um complexo logístico, industrial e energético voltado à produção e exportação de hidrogênio e seus derivados.

O empreendimento integra a agenda nacional de infraestrutura e transição energética e prevê a instalação de um terminal moderno capaz de apoiar a produção de energia eólica offshore, hidrogênio verde e operações industriais associadas.

Mais do que uma estrutura portuária convencional, o projeto foi desenhado para funcionar como um polo industrial completo, reunindo geração de energia, processamento industrial e logística de exportação em uma mesma área.

Localizado entre os municípios de Caiçara do Norte e Galinhos, a cerca de 160 quilômetros de Natal, o complexo deverá ocupar uma área superior a 13 mil hectares e está projetado para atender à demanda global por produtos de baixo carbono, como hidrogênio verde, amônia verde e fertilizantes sustentáveis.

O investimento estimado ultrapassa R$ 5,6 bilhões, com potencial de geração de dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos, consolidando o empreendimento como uma das principais apostas econômicas do estado para as próximas décadas.

Planejamento territorial

O Atlas de Hidrogênio Verde surge como ferramenta central para dar previsibilidade ao crescimento desse novo setor. O documento identifica áreas com maior eficiência energética, disponibilidade de infraestrutura e viabilidade ambiental, elementos considerados decisivos para a instalação de plantas industriais.

Na avaliação do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Hugo Fonseca, o estudo está diretamente conectado à estratégia de implantação do porto e de formação de um polo industrial de energia limpa.

“Ao lado disso, avançamos na estruturação de projetos estratégicos, como o desenvolvimento do Porto-indústria Verde, concebido para atuar como hub logístico e industrial voltado à produção, ao processamento e à exportação de hidrogênio e seus derivados”, afirma.

Esse tipo de planejamento é característico de regiões que se preparam para competir em mercados internacionais de energia e tecnologia, nos quais infraestrutura logística e segurança regulatória são fatores decisivos para a atração de capital produtivo.

Segurança jurídica e ambiente regulatório

A consolidação dessa nova fronteira energética também depende da criação de regras claras e previsíveis para investidores. Em agosto de 2025, o governo estadual foi pioneiro e sancionou o Marco Regulatório do Hidrogênio e da Indústria Verde, legislação que estabelece diretrizes para o desenvolvimento da atividade e oferece segurança jurídica para empresas interessadas em investir no setor.

Para a governadora Fátima Bezerra, a iniciativa representa um passo estratégico para o desenvolvimento econômico de longo prazo. “Estamos deixando para as gerações presentes e futuras um marco legal, adequado, potente, que vai servir para orientar o desenvolvimento do Rio Grande do Norte, levando em consideração o potencial que o estado tem nessa área”, afirma.

Ela destaca que o ambiente regulatório já começa a produzir resultados concretos, como a concessão da primeira licença ambiental para a instalação de uma planta de produção de hidrogênio verde e amônia verde no estado.

Para o setor produtivo, o Atlas representa um marco institucional porque transforma potencial energético em estratégia econômica estruturada. Ao reunir informações técnicas, dados geográficos e diretrizes regulatórias, o documento cria um ambiente mais previsível para investidores e estabelece as bases para o desenvolvimento de uma nova indústria baseada em energia limpa.

Na avaliação do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN), Roberto Serquiz, o estudo inaugura uma nova etapa no planejamento econômico do estado.“É muito importante dizer que esse atlas não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. O Rio Grande do Norte tem potencial, naturalmente, para uma das maiores riquezas estratégicas do mundo contemporâneo”, avalia.

 

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Luciana Leão

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