Crise no Estreito de Ormuz ameaça abastecimento global de alimentos e eleva risco de inflação, alerta ONU

O agravamento das tensões no Oriente Médio e possíveis interrupções na navegação no Estreito de Ormuz acendem um sinal de alerta para a segurança alimentar mundial. O bloqueio ou a redução do tráfego na rota marítima, localizada no Irã, pode pressionar os preços dos alimentos e desencadear uma nova onda inflacionária ainda em 2026.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) adverte que o fluxo de combustíveis e fertilizantes — insumos essenciais para a próxima safra agrícola — já começa a ser afetado. Caso os navios não retomem a circulação em curto prazo, os impactos podem se espalhar rapidamente pelos mercados globais.

Risco de efeitos em cadeia, como após a pandemia Covid-19

A agência das Nações Unidas avalia que a atual situação pode gerar efeitos semelhantes aos observados no período posterior à pandemia de Covid-19, quando gargalos logísticos e aumento de custos pressionaram os preços de alimentos em diversos países.

O economista-chefe da FAO, Máximo Torero, destacou que os riscos são concretos e podem se intensificar em pouco tempo. Segundo ele, entre 30% e 35% do petróleo bruto, cerca de 20% do gás natural e de 20% a 30% dos fertilizantes estão sendo afetados por restrições logísticas associadas ao conflito.

Apesar do cenário de incerteza, o especialista ressalta que, por ora, existem estoques suficientes para sustentar o funcionamento do sistema agroalimentar global, o que confere alguma resiliência no curto prazo.

Pressão sobre a próxima safra

Esse equilíbrio, no entanto, pode ser temporário. A FAO alerta que as próximas semanas serão decisivas, especialmente com o início das decisões de plantio em diferentes regiões do mundo.

Com fertilizantes mais caros e de acesso limitado, agricultores podem reduzir o uso desses insumos ou alterar o tipo de cultivo, o que tende a comprometer a produtividade e reduzir a oferta de alimentos nos próximos meses.

O Índice de Preços dos Alimentos da FAO referente a março permaneceu relativamente estável, sustentado pela boa oferta de commodities, sobretudo cereais. Ainda assim, a organização indica que a pressão inflacionária começou a aumentar em abril e pode se intensificar ao longo de maio, caso o impasse persista.

Negociações sem avanço e tráfego ainda restrito

A normalização do fluxo marítimo depende diretamente da evolução das negociações diplomáticas. Embora um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã tenha elevado temporariamente as expectativas de retomada das operações, as conversas mediadas pelo Paquistão no último fim de semana não produziram avanços significativos.

Enquanto isso, diversas embarcações permanecem retidas no Golfo, e novos carregamentos aguardam autorização para atravessar o estreito. Mesmo em um cenário de redução das tensões, especialistas avaliam que a regularização completa do tráfego marítimo pode levar dias ou até semanas.

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Luciana Leão

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