Como o mercado havia mencionado desde a divulgação do Boletim Focus na última segunda-feira, 16, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir em 0,25 ponto percentual (p.p.) a taxa de juros básica no país. A Selic passa de 15% ao ano para 14,75%.
No início de março, analistas do mercado financeiro chegaram a prever um corte maior de 0,50 p.p. Mas, os últimos acontecimentos envolvendo a Guerra no Oriente Médio e a volatilidade do preço do petróleo reposicionaram a decisão do órgão monetário. Esta foi a segunda Superquarta do ano – em 2026, estão previstas seis ocasiões desse tipo no calendário.
Análises
Para Guilherme Fiore, head de Renda Variável da Pequod Investimentos, o Banco Central segue com margem limitada para acelerar a queda dos juros. “A inflação continua sendo a principal preocupação do Copom. O IPCA de fevereiro surpreendeu, com alta de 0,70%, acima do esperado, e isso levou à piora nas projeções para o fim do ano. Esse cenário exige um ciclo de cortes mais gradual e cauteloso”, afirma.
O ambiente externo também ganhou protagonismo na decisão. A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o preço do petróleo e trouxe mais incerteza para a inflação global. “O petróleo subiu de forma expressiva em pouco tempo, o que pressiona os custos de combustíveis e outros produtos. Além disso, com o dólar elevado, itens importados ficam mais caros, como o trigo, o que impacta diretamente o consumo”, explica Fiore.
No Brasil, a inflação de serviços continua resistente, sustentada por um mercado de trabalho aquecido e renda em alta, fatores que mantêm a demanda forte e dificultam uma desaceleração mais rápida dos preços.
Outro ponto de atenção é o cenário das contas públicas. Segundo Fiore, o Banco Central acompanha de perto a trajetória da dívida e os riscos fiscais. “A dívida pública deve seguir em alta e pode chegar a 83,6% do PIB em 2026. Além disso, há pressões por aumento de gastos, o que reduz a confiança e limita o espaço para cortes mais intensos na Selic”, diz.
Cautela
Para a economista-chefe da da B.Side Investimentos, Helena Veronese, o Copom adotou uma postura equilibrada ao cumprir o guidance da reunião anterior e iniciar o ciclo de cortes, sem perder de vista o ambiente significativamente mais adverso. “O comunicado reforça, ao longo de todo o texto, os riscos associados ao cenário externo — especialmente via preços de commodities e possíveis disrupções nas cadeias globais — e seus impactos potenciais sobre a inflação doméstica”.
Em síntese, segundo Veronese, o comunicado reconhece os avanços decorrentes do período prolongado de juros elevados, mas enfatiza que o cenário atual — marcado pela guerra e pela volatilidade nos preços do petróleo — exige prudência.

