Entrevista: O Turismo no Brasil depende da malha aérea

Presidente da ABIH Nacional, Manoel Linhares, aponta desafios do setor, avalia dificuldades a merecer superação e diz que Turismo precisa de trato profissional e estratégico

 

Por Walter Santos

 

Há tempos, o Brasil conta com a uma quantidade de turistas no País 1/8 percentual menor do que diversos países europeus de tamanho pequeno. Um dos problemas a gerar essa realidade é o déficit da malha aérea disponível, que precisa de ajustes e mudanças, segundo o presidente nacional da ABIH, Manoel Linhares, em Entrevista Exclusiva. Confira:

Revista NORDESTE – Presidente, estamos iniciando o mês de junho com registro comprovado de que o Brasil registra pouco mais de 4 milhões de turistas no País. Por exemplo, Portugal tem mais de 34 milhões de turistas. Por que estamos defasados e o que fazer para superarmos esses números?

Manoel Linhares – Umas das primeiras coisas que pensamos quando falamos em turismo é em como vamos chegar ao destino escolhido. O transporte aéreo e sem dúvida um dos pilares do turismo e, por isso, nosso país precisa melhorar a capilaridade da malha aérea, dando possibilidade, seja para o turista internacional, e facilidade dele se locomover dentro do país. Sem dúvida, se resolvermos essa questão, podemos otimizar nossos destinos e avançar nesses índices.

NORDESTE – Como a Embratur e organismos na órbita da APEX poderiam melhorar a performance de atratividade de turistas externos?

Manoel Linhares -Acho que a Embratur está trabalhando mas o papel dela dela é limitado. internamentetemos que fazer nosso dever de casa. Como ampliar nossa malha aérea e criar políticas públicas e tributárias específicas para quem investe no setor e nos múltiplos seguimentos que o turismo impacta.

NORDESTE – O Sr. representa um dos mais importantes segmentos da economia sem chaminé do Brasil. Qual a realidade desse setor na atualidade sem tirar nem por?

Manoel Linhares -O turismo está passando por um momento de transição e começando a ser encarado no país como uma verdadeira indústria. Nós sempre ouvirmos falar do turismo no país como um promessa, mas para ele deixar de ser promessa, temos que ter legislação e incentivos, a exemplo do que é feito em outros setores fundamentais para o desenvolvimento do país.

O turismo é considerado por muitos como uma commodities que precisa de incentivo para crescer. Temos que ter uma legislação apropriada que nos coloque em nível de competitividade com o resto do mundo. Um ponto fundamental é a regulamentação das plataformas de vendas de hospedagem, como o Airbnb, entre outros, que representa uma concorrência desleal

NORDESTE – Da COVID para cá um dos mais importantes segmentos afetados pela pandemia foi o turismo, os equipamentos turísticos. Como definir a situação desse setor na conjuntura?

Manoel Linhares -A pandemia parou o mundo e naquele momento o turismo e a hotelaria nacional conseguiram mostrar que são uma indústria, grande geradora de empregos. Pela primeira vez na história, o turismo teve um benefício direto que foi o Perse que deu a oportunidade do setor se reerguer depois de cerca de dois anos parado, com a ocupação próxima de zero.

O programa deu a possibilidade não só de manter a hotelaria, evitando que milhares de empresas fechassem suas portas, mas também permitiu realizar investimentos que foram fundamentais no retorno das atividades. Nosso equipamento turístico precisa estar em nível de igualdade com os principais destinos do mundo. A hotelaria e o turismo precisam, portanto, de investimentos constantes. Por isso, precisamos do Perse e dacriação de outras ações direcionadas e efetivas que amparem e estimulem essa indústria.

NORDESTE – A ABIH representa a estrutura física, mas também digital, da rede hoteleira nacional. Como é conviver com a concorrência sem estrutura, mas causando desfalques aos hotéis?

Manoel Linhares – A indústria, em qualquer segmento, se modifica o tempo todo. A hotelaria e o turismo são sempre os primeiros a acompanhar essa lógica, pois são setores em constantes transformações.

Na pandemia, a hotelaria foi a primeira a entrar em crise e a última a sair. Nas mudanças tecnológicas, também são os primeiros a aderirem por força do mercado. Não há esse tipo de competição, o que vem acontecendo no momento é uma mudança na ordem econômica do mundo, principalmente pelo uso de novas tecnologias, como a inteligência artificial, que devem ser vistas como aliadas e não como concorrentes.

NORDESTE – Quais os maiores desafios do setor da ABIH de agora em diante?

Manoel Linhares , presidente da ABIH Nacional, defende a continuidade da Perse e efetivação de políticas públicas para enfrentar os desafios do turismo no Brasil. Foto: ABIH

Manoel LinharesComo sempre, eu volto a insistir na questão da malha aérea que é um desafio não só da hotelaria e do turismo, mas do país todo. A continuidade do Perse, a regulamentação das plataformas e a efetivação políticas públicas de incentivos fiscais voltadas exclusivamente para esses setores são outros pontos que destaco.

Incentivar a parceria entre a iniciativa privada e o setor público é também fundamental, porque o turismo é grande gerador de empregos, como pudemos ver na pesquisa que mostrou que, no mês de abril, as atividades no segmento geraram 25.962 vagas formais de emprego no país, representando um aumento de 32% em comparação com o mesmo período no ano passado. De acordo com dados do Ministério do Turismo, com base nas estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), nos quatro primeiros meses de 2025, o setor já registrou mais de 88 mil contratações com carteira assinada.

NORDESTE – Como encarar a concorrência silenciosa do universo digital do turismo?

Manoel Linhares – Precisamos de regulamentação, só assim não haverá a concorrência desleal. No mais, o que está acontecendo é uma mudança econômica que todos os segmentos, no mundo inteiro, estão vivendo e terão que se adaptar a essas transformações. E o turismo, como sempre, é o primeiro setor a ser impactado. Na pandemia, fomos o primeiro a entrar em crise e último a sair.

Por outro lado, o turismo acompanha as mudanças mundiais e o que precisamos fazer é nos adaptarmos e tirarmos vantagem dessa tecnologia. Mas é sempre bom lembrar que o turismo é um serviço que, paraproporcionar experiências, dependefundamentalmente dos diferenciais que só o ser humano tem.

NORDESTE – Na sua opinião, por que os preços das passagens são tão caros no Brasil?

Manoel Linhares – Essa pergunta tem que ser feita às empresas aéreas que têm diversos subsídios, como por exemplo, benefícios de renúncia fiscal, onde o governo abre mão de receber parte dos impostos que essas empresas devem pagar para apoiar o setor.

Em todo o Brasil, uma das empresas que mais se beneficiaram com essa política é uma aérea: a Latam. Em 2024, o governo deixou de receber ao menos R$ 2,6 bilhões da empresa. Os últimos dados da Controladoria-Geral da União são de junho de 2024, ou seja, a renúncia pode ser ainda maior.

Desde o ano passado, o setor de aviação conta com o Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC) que disponibiliza crédito a empresas aéreas. É importante lembrar também que a hotelaria é um bem imóvel, não posso mudar minha rota, como aviões e navios, então não tenho como nos adaptar às sazonalidades, ao contrário desses outros setores.

NORDESTE – O que o Sr projeta para seu futuro nos próximos tempos?

Manoel Linhares – Minha maior missão e trabalhar para que o Brasil possa encaram o turismo com o mesmo significado que os principais destinos mundiais encaram o setor. Não apenas para economia, mas também sua importância social e por promover possibilidades e oportunidades para nosso povo.

Por isso trabalho incansavelmente para mostrar aos nossos parlamentares, líderes setoriais, executivos e a sociedade em geral a importância de investir seriamente no setor de turismo e o promovermos como prioridade nas estruturação de políticas publicas do governo federal.

Precisamos que nossos representantes no Congresso Nacional entendam o que o setor significa e proponham leis que incentivem o desenvolvimento e a competitividade desses setores. Não podemos avançar presos ao passado, mas sim com olhos no futuro, senão corremos o risco de deixar passar novamente a oportunidade de não só nos colocar, mas nos manter no mesmo nível dos principais destinos do mundo.

 

 

 

 

*Entrevista publicada na edição 221 da revista NORDESTE

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Redacao RNE

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