Frevobook: Livro inédito inova na linguagem musical

Por Luciana Leão

 

Em um momento histórico para a música popular pernambucana, Climério de Oliveira, em parceria com Marcos FM e Maestro Spok, apresenta o FrevoBook, o primeiro livro de partituras cifradas do frevo em estilo songbook, que utiliza cifras para representar a música. Cifras são representações de acordes e notas musicais, diferentemente de partituras tradicionais.

 

Climério, Marcos FM e Maestro Spok em conclusão para o primeiro livro de partituras cifradas do frevo em estilo songbook, que utiliza cifras para representar a música.

 

 

A publicação reúne composições clássicas e contemporâneas de grandes nomes do gênero, como André Rio, Nena Queiroga, Flaira Ferro e Maurício Cavalcanti. Com simplicidade, o FrevoBook pretende tornar o frevo mais acessível, dialogando tanto com músicos experientes quanto com aqueles que estão descobrindo o gênero.

 

Confira a seguir trechos da entrevista da revista NORDESTE com Climério de Oliveira, músico, compositor, escritor e pesquisador de música popular, que fala sobre a importância do frevo, seus desafios e caminhos para sua renovação.

 

 

 

 

 

REVISTA NORDESTE – Como você define a essência do frevo na cultura pernambucana?

 

CLIMÉRIO DE OLIVEIRA – O frevo é uma cultura multifacetada: ele se manifesta como som musical, dança, relações comunitárias, folia, trabalho, conjunto de afetos, tradição… e como arte que busca se renovar.

 

NORDESTE – Quais são os principais desafios que o frevo enfrenta atualmente?

CLIMÉRIO DE OLIVEIRA – A sistematização, a preservação e a salvaguarda são preocupações quase unânimes entre os mestres da tradição. Já os mais jovens destacam a necessidade de inovação e de transpor as barreiras da sazonalidade, fazendo com que o frevo toque o ano inteiro.

 

NORDESTE – Por que o frevo é tão pouco tocado fora do Carnaval?

CLIMÉRIO DE OLIVEIRA – O frevo narra principalmente o Carnaval. Outros gêneros exploram temas universais como amor, sexo e festa, dialogando com a vida cotidiana.  Mas os significados e as narrativas nas quais eles são configurados, cada gênero constrói os seus, são contextualizados.

Vamos tomar como elemento de comparação, por exemplo, uma música que, neste momento, ocupa o maior espaço no mainstream brasileiro: a sertaneja pop, por assim chamar. O que essa música canta? Do que ela trata? Como ela o faz (sonora e literalmente), como ela se promove (as estratégias de promoção e os recursos utilizados)? Todas essas perguntas e assuntos cabem no problema.

 

“O frevo precisa dialogar com narrativas cotidianas do povo”

Mas essa matéria não é uma tese de doutorado, então, vamos nos ater a uma delas: a que diz respeito ao som musical, à temática da letra e à imagética. As músicas da sertaneja (assim como a MPB, o pop mundial e outras que fazem parte do mainstream e que tocam durante o ano inteiro) “narram” principalmente o amor romântico (em suas diversas faces: paixão, perda, falta, sexo…) e vinculando-o a situações da vida diária e da festa (regada à sua música, obviamente).

E o frevo, o que canta: sobretudo de carnaval. Portanto, o frevo não tem narrado situações da vida diária, a sua narrativa (som e letra) é sazonalizada. Quem quebrou um pouco isso? Capiba e, sobretudo, Carlos Fernando com o seu projeto Asas da América (a canção Banho de Cheiro, por exemplo, interpretada por Elba Ramalho, foi um hit nacional).

 

 

Enfim, se o frevo quiser ser uma música que toque o ano inteiro, é mais provável que ele o consiga narrando (com sons e letras) temas da vida diária decorrentes no ano inteiro – amor, festa e sexo no topo. Atente-se que o som também terá que ser repensado e adaptado. Não podemos inverter, alimentando a ilusão de que música carnavalesca irá tocar o ano inteiro, ou que o ano inteiro se tornará carnaval.

 

Leia mais sobre a renovação do frevo e seus desafios no século XXI

 

NORDESTE – O que tem sido feito para renovar o frevo? Quais incentivos precisam ser feitos para tornar o frevo mais popularmente conhecido? Em sua opinião, faltam novos talentos?

CLIMÉRIO DE OLIVEIRA – Talentos temos de sobra, inclusive eu e Marcos FM falamos sobre isso no livro Frevo: transformações ao longo do passo. Falta colocar em prática e sem querer inventar a roda, porque ela está a girar há muito tempo. No que tange à prática sonora, basta “dialogar” com as músicas midiáticas das quais gostamos, experimentar, lançar, compartilhar essa experiência.

No que concerne à promoção e aos investimentos, as políticas públicas podem ajudar a fomentar empreendedores interessados no frevo. Henrique Albino faz do frevo uma ‘música troncha’; Maestro Forró traz elementos do clown; Marcos FM aposta no minimalismo; DJ Dolores utiliza recursos da música eletrônica e por aí vai.

Mas ninguém tem feito frevo com dor de cotovelo; quase ninguém faz frevo apaixonado; pouco se faz frevo sensual; etc. Além disso, a promoção tem que ocorrer com força ($) e com muita criatividade e “política”, ou nada acontecerá.  Há muita experimentação. No entanto, a promoção precisa ser mais forte, com criatividade e investimentos para alavancar essas iniciativas.

 

NORDESTE – Quando pensamos no Carnaval, as músicas baianas e outros gêneros são mais tocadas nos quatro cantos do país. E o nosso frevo?

CLIMÉRIO DE OLIVEIRA – Outros gêneros, como a axé music, souberam dialogar com o mainstream, adaptando temáticas e promovendo festas fora de época. Boa parte das chamadas “músicas baianas” utilizaram a base do frevo; outra grande parte utilizou o samba-reggae; mas todos os artistas da axé music trataram dos temas da vida diária e se concentraram em amor, sexo e festa (a sua festa, forjada pelo gênero musical, e como “fora de época”, ou seja, uma festa originária do carnaval, mas alocada para qualquer período do ano).

O forró eletrônico das bandas de baile também fez isso com a “música nordestina” e, embora não seja algo da minha predileção, reconheço que os empresários e músicos souberam criá-lo e agenciá-lo. Eu amo o frevo como ele é, mas gostaria de vê-lo espalhado pelo ano inteiro, nas novelas, no cinema, nas séries, nos festivais, nas boates, nas playlists… porque o frevo é foda mesmo.

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Luciana Leão

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