Com todas as letras, áudio bem definido e expressão de júbilo e conquista inédita, o candidato Flávio Bolsonaro, do PL, à Presidência da República, promete, em seu programa no horário eleitoral gratuito, transformar o SUS (Sistema Único de Saúde) em um novo esquema de atendimento, padrão Hospital da Rede Einstein, talvez uma das mais sofisticadas e equipadas do País.
Com aparelhos de atendimento de linha internacional, apartamentos luxuosos para internação e diárias de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) a preços entre 15 e 20 mil reais, a Rede reúne um corpo médico de padrão equiparado aos melhores do mundo.
O SUS, sobrecarregado, com filas enormes para atendimento em todas as suas unidades Brasil afora, oferece atendimento precário para cirurgias e internações, além de carência de pessoal especializado em todas as suas unidades de primeiros socorros. Para autoridades médicas em todo o País, a afirmação do candidato é, além de exagerada, perigosa do ponto de vista ético, uma vez que parte de alguém que não conhece as dificuldades que o Sistema de Saúde Pública enfrenta em todas as unidades da Federação.
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população brasileira hoje é de 213 milhões de pessoas e, desse total, cerca de 70% dependem unicamente do SUS como único recurso para o atendimento médico, para todas as enfermidades.
Fonte do Sindicato dos Médicos de Brasília, que pede sigilo para a informação, afirma: “Essa promessa de campanha do candidato é quase que uma agressão à inteligência do cidadão, em todos os níveis. A comparação é fantasiosa e ilude o consumidor, sempre o mais prejudicado”, adianta o informante, que acrescenta que, até para aqueles que possuem planos de saúde, o atendimento em hospitais desse porte é difícil, uma vez que nem todos os planos estão habilitados junto a todas as unidades hospitalares.
Finaliza afirmando que citar uma rede desse porte, sugerindo que um órgão como o SUS poderá ser comparado a ela, é desconhecer a realidade brasileira, onde a saúde é o problema maior.
Criado pela Constituição, em 17 de maio de 1988, o SUS tem hoje um orçamento em torno de 211 bilhões de reais, com sede em Brasília e unidades de assistência médico-hospitalar em todas as regiões do País, inclusive com capacidade para exames de laboratório e aqueles que exigem ressonância magnética e equipamentos sofisticados.
Segundo o Ministério da Saúde, o SUS emprega hoje cerca de um milhão de pessoas, desde médicos e enfermeiros até servidores de baixa qualificação profissional. Pelo gigantismo que a entidade apresenta e diante da necessidade de levar pronto atendimento a milhões de pessoas diariamente, para especialistas, é compreensível que, em muitos locais de atendimento, os problemas sejam rotineiros.
Para eles, transformar tudo isso em atendimento padrão Rede Einstein é zombar do cidadão comum, ironia condenável. Acrescentam que as autoridades médicas do País não pensam em transformar o SUS em nenhuma rede hospitalar de padrão 5 estrelas, mas buscar investimentos que possam melhorar o atendimento à população, contratando mais médicos, estruturando instalações e sanando transtornos que impedem o melhor funcionamento das unidades.
Nenhum país do mundo mantém ativo um sistema de saúde pública com alto padrão e mecanismo de funcionamento de uma entidade como a Rede Einstein, voltada a atender uma classe financeiramente abastecida de recursos, poderosa e influente.
A promessa de Flávio, fora da realidade, indo ao ar da forma como está sendo feita, passa para o cidadão uma forma deselegante de convencê-lo a acreditar num projeto que jamais será realizado. Nem por ele, nem por governo algum. Propaganda enganosa, fake news explícita.
José Natal
Jornalista

