Trinta e cinco deputados e 31 senadores, eleitos no domingo que passou (dia 4-10), de quase todos os partidos, já sabem que enfrentarão problemas burocráticos para que tomem posse em seus cargos, em janeiro de 2027.
Todos eles (69 ao todo) respondem a processos por corrupção, fraudes eleitorais, licitações e outras denúncias, todas elas com força jurídica capaz de impedir que assumam suas cadeiras. Como a lista é enorme, citar por aqui apenas alguns nomes não seria justo. No site do UOL, dia 8 deste mês, todos os nomes estão lá. Poucas surpresas; muitos já sabiam ou desconfiavam.
Faz parte da cultura política brasileira, e faz tempo. A cada eleição, essa manada de fichas-sujas aparece. A Justiça Eleitoral faz um alvoroço, os políticos sapateiam, acontecem julgamentos de madrugada e tudo seguirá como começou, e vai continuar. Somente duvida disso quem não conhece o Brasil.
Mas a campanha presidencial, agora em segundo turno, é o que de fato chama a atenção de todos, com a disputa acirrada entre o petista Lula da Silva e Flávio Bolsonaro (PL), este alguns pontos à frente, segundo pesquisas recentes.
Que bom seria avançar por aqui, apenas fazendo considerações pessoais sobre os dois candidatos, citando o histórico de cada um, trajetória política, carreira partidária, conquistas e derrotas em jornadas passadas dos dois concorrentes. Nada disso interessa mais ao eleitor, hoje apossado de um estranho e assustador fanatismo pelo seu líder.
Alguns até capazes de trair princípios, contrariar vocações e mandar às favas afetos e afagos por parentes, amigos, conhecidos e vizinhos, e se prostrar como fiel serviçal ao seu amado e estimado candidato.
Revisitando a história, todos somos testemunhas: PSDB e PT, pouco tempo atrás, também se estapeavam Brasil afora, fazendo arruaças e trocando empurrões a cada esquina, intensificando essas brigas em período eleitoral. No auge das lideranças de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aécio Neves e outros tucanos, a força da internet (rede social) ainda não conduzia a sociedade como faz nos dias de hoje.
Naquele período, não muito distante, a força dos políticos em campanha vinha dos comícios em grandes praças, manchetes dos jornais, emissoras do interior e até de grandes eventos, movidos a duplas sertanejas, para os quais as campanhas pagavam altas cifras, sem reclamar. E gostavam.
Tudo hoje mudou, e para pior. Para quem é do ramo, sabe que isso é verdade. A polarização daquela época, comparada à de hoje, traz uma diferença brutal, cujas consequências, para todas as aldeias, resvalam no quase terror.
Utilizando o celular, sites, grupos de WhatsApp e os recursos da inteligência artificial, nove em cada dez cidadãos se tornam juízes de todas as leis, carrascos de suas próprias sentenças, e danem-se os conceitos primários de educação, protocolos sociais, amor-próprio, civilidade e outras normas.
Nunca, em tempo algum, o fanatismo político, irresponsável e violento esteve tão presente como nos dias de hoje, com viés de crescimento e ainda mais descontrole. Alguns especialistas, com cautela, arriscam dizer que, se radicais e conservadores não buscarem um entendimento razoável, o risco de uma convulsão passa a existir, e todos perdem.
É visível o grau de diferença na interpretação de leis, costumes, aceitação social e práticas humanitárias dos dois segmentos em disputa do voto. Fato que, mesmo com a índole pacífica típica do povo brasileiro, causa nas entidades movidas pelo bom senso uma justa preocupação.
A história, mundo afora, registra episódios perturbadores iniciados em outros países, tendo como origem ações e atitudes de inconsequentes que acreditam ganhar poder ao se unir a poderosos.
Seria ingenuidade, quase tolice, exigir moderação e bom senso do exército de militantes que apostam nas agressividades, ofensas e absurdos verbais, via internet, na busca de votos para seu preferido. Mas incentivá-los a assim proceder seria um ato ainda pior.
A palavra de ordem é moderação.
José Natal
Jornalista

