Poucos dias antes do primeiro turno da eleição, a pesquisa “Termômetro do Brasil”, desenvolvida pelo Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos (LINA), do Instituto Oyá, revelou que mais da metade dos brasileiros desconfiam da classe política e consomem conteúdo manipulativo. O levantamento mostra que 65% dos brasileiros não confiam nos políticos em geral. Cerca de 78% dos entrevistados também acreditam em narrativas falsas que possuem forte apelo emocional.
O relatório também investigou o nível de familiaridade com Fake News entre os entrevistados. Regionalmente, o Nordeste possui a segunda maior intimidade com o tema, com 53% dos nordestinos afirmando ter conhecimento elevado sobre a disseminação de notícias falsas. Superando Sul (47%) e Sudeste (51%), a região só está atrás do Centro-Oeste (56%).
A amostragem ouviu 2 mil pessoas em todas as regiões do país para mapear os mecanismos de manipulação algorítmica, o impacto da desinformação e a saúde da democracia.
Crise afeta os três poderes
O estudo detalha que a crise de confiança afeta todos os três Poderes da República. A desconfiança da população é maior em relação aos partidos políticos (64%) e ao Congresso Nacional (54%). No Poder Executivo nas três esferas do governo e no Supremo Tribunal Federal, o nível de descrença é menor, 45% e 41%, respectivamente.
Quando se trata do processo eleitoral, 41% dos entrevistados declaram confiar nas eleições, enquanto 37% mantêm neutralidade e 17% manifestam desconfiança explícita. O ceticismo também afeta a visão de futuro: 56% dos brasileiros afirmam ter pouca ou nenhuma esperança na capacidade de representantes políticos liderarem uma agenda de desenvolvimento sustentável.
Por outro lado, o setor da energia de tecnologia possui a maior credibilidade no país (67%), enquanto as organizações não governamentais (ONGs) somam 45% de confiança.
Em um cenário geral, 51% dos brasileiros consideram a disseminação de fake news um problema muito grave e 81% declaram ciência da capacidade da Inteligência Artificial de criar deep fakes – conteúdos multimídia falsos que simulam voz, imagem e vídeos de pessoas reais.
Ameaça a democracia
No levantamento, 32% das pessoas indicaram a ameaça à democracia como um dos principais riscos do futuro. O percentual foi igual ao do receio do desemprego, que apontou como um dos principais fatores de ansiedade geracional.
No entanto, os entrevistados não demonstram interesse em manifestar-se de forma tradicional, 45% descartam qualquer intenção de candidatar-se a cargos eletivos, 39% recusam envolvimento em atividades de partidos e 33% declaram indisposição para participar de protestos de rua.
Em contrapartida, o exercício da cidadania ganha força por meio de canais digitais e ações diretas de baixo atrito. O engajamento se consolida na assinatura de petições virtuais e mobilizações em redes sociais (21%), no boicote ético a marcas e empresas (16%) e no suporte financeiro ou institucional a ONGs e movimentos sociais (14%), desenhando o perfil de um eleitorado que busca impacto sem intermédio da estrutura partidária tradicional.
Para Kamila Camilo, diretora executiva do Instituto Oyá, o estudo evidencia que a população não desistiu da democracia, mas busca novos canais de representatividade.
“Os dados provam que o brasileiro não está apático, mas sobrecarregado por modelos de representação que não resolvem as urgências da sua rotina. Diante do descrédito nas instituições e da manipulação algorítmica nas redes, a sociedade migra para formas pragmáticas de ação comunitária e engajamento digital.”, afirma.
Pesquisa
Foram entrevistadas duas mil pessoas com 18 anos ou mais, entre os dias 30 de julho e 19 de agosto. Entre os entrevistados, 43% eram do Sudeste, 26% do Nordeste, 14% do Sul, 8% Norte e Centro-Oeste 8%.
Sobre o Instituto Oyá
O Instituto Oyá é uma organização dedicada à promoção da justiça climática, da educação ambiental e da inovação social. A instituição atua na formação de lideranças, no fortalecimento de comunidades e na construção de soluções que conectam tecnologia, impacto socioambiental e desenvolvimento sustentável.

