Empresa brasileira se torna ré sob acusação de liderar rede de lavagem de minério em terras indígenas, provocando ação inédita do Ministério Público Federal com pedido de reparação de R$ 1,7 bilhão
Guilherme Levorato
247 – Apontada como uma das maiores produtoras e fornecedoras de estanho e soldas do mundo, a empresa brasileira White Solder virou ré na Justiça Federal sob a acusação de liderar um esquema de receptação, refino e “esquentamento” de minério ilegal que movimentou ao menos R$ 200 milhões entre os anos de 2020 e 2025.
A organização, que possui sede em Ribeirão Preto (SP) e filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), operava sob a cobertura de um “compliance verde” de fachada. Apenas no período compreendido entre maio e agosto de 2021, a contabilidade apreendida pela Polícia Federal (PF) registrou o escoamento clandestino de mais de 525 toneladas de cassiterita — matéria-prima bruta da qual se extrai o estanho puro após processos de fundição e refino —, segundo reportagem do jornal O Globo.
A investida contra o ecossistema do garimpo ilegal revela que a “nova corrida” pelo estanho passou a rivalizar com o ouro tradicional em termos de liquidez e facilidade de escoamento em grande escala.
O insumo refinado abasteceu grandes corporações multinacionais que adquiriram centenas de toneladas do metal acompanhadas por documentações formais e auditorias complacentes. Ao adotar uma postura de “cegueira deliberada”, grandes marcas globais acabaram financiando a devastação socioambiental e o ecocídio na Bacia Amazônica.
A investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) em Manaus escancarou as fragilidades dos sistemas internacionais de rastreabilidade. Procuradores cruzaram relatórios de auditoria da White Solder com o banco de dados da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) e constataram que a refinaria brasileira constava formalmente como fornecedora ativa de estanho nos balanços de gigantes globais listadas nas Bolsas norte-americanas. Em virtude dessas descobertas, dez multinacionais que atuam no Brasil foram notificadas em procedimento cível para prestar esclarecimentos sobre falhas graves em seus mecanismos de due diligence socioambiental e de direitos humanos.
Ação inédita e pedido de reparação de R$ 1,7 bilhão
Diante do impacto devastador das atividades ilícitas, o MPF inovou ao protocolar a denúncia criminal, aceita pela 4ª Vara Federal de Roraima. Além de requerer a responsabilização penal e reparações diretas dos envolvidos, os procuradores estabeleceram um pedido de indenização no valor de R$ 1,7 bilhão. O montante possui caráter pedagógico e reparatório, cobrindo danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos causados pela extração, transporte, industrialização e comercialização de cassiterita e ouro extraídos ilegalmente de territórios protegidos no âmbito das apurações da Operação Forja de Hefesto — denominação que faz referência à oficina mítica do deus grego do fogo e da metalurgia.

