WS – Soleimani e Zé Dirceu: duas estratégias, duas ausências que ainda pesam na política

Vamos colocar primeiro os pontos nos “iis” porque a realidade iraniana tem contornos bem diferentes no Brasil e na América do Sul pelos fatos da história. Em que pesem as diferenças, é preciso admitir que na fase presente da política sul-americana, a partir do Brasil, o “comandante” Zé Dirceu faz muita falta ao PT e à esquerda, como de forma mais forte significou o general Qassem Soleimani morto a mando de Donald Trump em 2020 na capital Badgá para a resistência do Irã na atualidade .

Antes de constatar a força histórica de Soleimani, lembremos que a grande mídia brasileira em comum acordo com o capital internacional “construiu” o arranjo “Mensalão” para tirar Zé Dirceu da sucessão de Lula em 2010, quando Dilma Rousseff então considerada “um poste” político venceu a disputa.

O fato é que, não fosse o Mensalão, Zé Dirceu teria mudado o rumo do Brasil e da América do Sul por estar preparado a partir dos relacionamentos globais que ele construiu pela capacidade comprovada de interlocução com os principais atores globais.

Zé Dirceu foi “ assassinado” vivo pela elite internacional, mas ainda hoje resiste como pode.

Agora, diante da realidade contemporânea, seguramente Zé Dirceu faz muita falta à campanha de Lula e ao futuro progressista no Continente.

É isso!

QUEM FOI SOLEIMANI?

O papel de Qassem Soleimani no Irã é entendido como o de arquiteto da política externa iraniana moderna – e é por isso que o impacto dele continua definindo o futuro do Oriente Médio mesmo depois de sua morte em 3 de janeiro de 2020 em Bagdá, em um ataque de drone dos EUA.

Ele não era só um general. Como chefe da Força Quds, o braço de operações exteriores da Guarda Revolucionária Islâmica, ele era o encarregado das operações exteriores iranianas, especialmente no Oriente Médio.

O que ele construiu

A doutrina do “Eixo da Resistência”: Em vez de confronto direto com EUA e Israel, Soleimani criou uma rede de aliados e proxies que dão ao Irã profundidade estratégica sem precisar de bases militares formais.

Essa rede inclui:

• Hezbollah no Líbano – transformado de milícia em exército político-partidário com 150 mil foguetes

• Hashd al-Shaabi / Kataib Hezbollah no Iraque – milícias xiitas que hoje são parte oficial das Forças Armadas iraquianas

• Regime de Bashar al-Assad na Síria – Soleimani coordenou a intervenção que salvou Assad entre 2013-2015

• Houthis no Iêmen – aporte financeiro e treinamento militar para os houthis

• Hamas e Jihad Islâmica Palestina – apoio logístico apesar da diferença sunita-xiita

REPERCUSSÃO

No Ocidente ficou conhecido como “Comandante das Sombras” e no Irã como Haj Qassem, uma das personalidades públicas mais populares do país e considerado herói por seu papel na derrota do Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Isso foi chamado de “Crescente Xiita” – uma obra de engenharia geopolítica que localizou a supremacia do Irã como bastião regional, remodelando a geopolítica do Oriente Médio por meio de uma rede de grupos que se opõem a Israel.

Por que o legado dele ainda importa para o futuro?

Soleimani morreu, mas o modelo ficou institucionalizado. Quem assumiu foi Esmail Qaani, que gerenciou os laços do Irã com representantes e aliados em toda a região desde 2020.

O futuro do Oriente Médio passa por 3 consequências diretas desse modelo:

a) Guerra por procuração como padrão: O conflito em Gaza desde 2023 mostrou o manual Soleimani funcionando: enquanto Israel combate o Hamas em Gaza, os houthis atacam navios no Mar Vermelho e o Hezbollah atacava a partir do Líbano. É dissuasão barata para o Irã.

b) O mártir como doutrina: Dentro do Irã, “O martírio de Soleimani tornará o Irã mais decisivo para resistir ao expansionismo americano”. A figura dele virou símbolo de resistência nacional, acima de facções políticas internas. Isso permite ao regime justificar custos externos mesmo em crise econômica.

c) Os limites do modelo agora aparecem: O sistema que Soleimani construiu sofreu os maiores abalos em 2024-2025:

1. Hezbollah foi severamente enfraquecido militarmente por Israel

2. A queda do regime Assad na Síria em dezembro de 2024 cortou o corredor terrestre Teerã-Beirute

3. As milícias iraquianas estão sob pressão crescente de Bagdá para se desarmarem

Ou seja, o Irã ainda tem a rede, mas sem a Síria como hub logístico, o modelo precisa se reinventar.

O que vem pela frente?

Analistas dividem o futuro em dois cenários, ambos baseados na estrutura de Soleimani:

Cenário 1 – Persistência adaptada: O Irã mantém a estratégia, mas migra de um eixo territorial (Irã-Iraque-Síria-Líbano) para um eixo de longo alcance com drones e mísseis – Houthis e milícias iraquianas usando tecnologia iraniana. Menos controle territorial, mais capacidade de perturbar petróleo e navegação no Estreito de Ormuz.

Cenário 2 – Erosão: Sem Soleimani, que tinha relação pessoal com Hassan Nasrallah, com líderes iraquianos e sírios, o sucessor Qaani não tem o mesmo carisma e capacidade de negociação. O Irã corre o risco de ter proxies mais autônomos e menos disciplinados, o que pode levar a escaladas que Teerã não quer – como o ataque ao túmulo de Soleimani que deixou 84 mortos em 2024, mostrando como o símbolo dele ainda é alvo. 

Em resumo: Soleimani não inventou a influência iraniana, mas transformou uma ideia ideológica da Revolução de 1979 em uma arquitetura militar concreta. Para o futuro do Oriente Médio, o Irã não precisará de outro Soleimani para continuar influente – a máquina que ele criou já funciona sozinha. A questão agora é se essa máquina vai conseguir sobreviver sem a Síria e sem o Hezbollah forte que ele ajudou a construir.

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“ O olho que existe / é o que vê”

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Walter Santos

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