Qualidade do ar em salas de aula entra no centro do debate sobre saúde escolar, com alerta para ventilação, filtragem e manutenção de sistemas de climatização
O aumento de gripes, resfriados, crises de rinite, asma e outras infecções respiratórias entre crianças no inverno costuma ser tratado como parte inevitável da rotina escolar. Não deveria.
O alerta é feito por especialistas diversos em saúde, engenharia e qualidade do ar interior, principalmente os integrantes da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA).
Representantes da entidade, como o presidente, engenheiro Leonardo Cozak, alertam que ambientes educacionais fechados, mal ventilados ou com sistemas de climatização sem manutenção adequada podem favorecer a transmissão de vírus e agravar quadros respiratórios em alunos, professores e funcionários.
Ambientes sensíveis
Cozak ressaltou pesquisas nacionais e internacionais que apontam a escola como um dos ambientes mais sensíveis para a circulação de agentes respiratórios. As crianças passam horas em salas apertadas, em contato próximo e frequente com diferentes grupos. No frio, portas e janelas tendem a ficar fechadas, reduzindo a renovação do ar.
O engenheiro destacou que exemplo disso é a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE, divulgada em sua 5ª edição este ano, pelo IBGE, em parceria com os ministérios da Saúde e da Educação. O trabalho mostrou que uma parcela relevante dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos avalia a própria saúde como ruim ou muito ruim.
Os maiores percentuais aparecem no Rio Grande do Norte, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Acre e Alagoas.
Qualidade do ar interior
Embora o Brasil ainda não tenha dados detalhados por estado que relacionem diretamente adoecimento escolar e qualidade do ar interior, os estudos disponíveis reforçam a necessidade de tratar o tema como política de prevenção.
Outros exemplos levantados por Cozac são estudos da Unicamp, da USP, da Fiocruz e de periódicos internacionais, segundo os quais há uma ligação entre ambiente fechado, circulação viral, poluentes, baixa ventilação e aumento de doenças respiratórias.
Para o presidente da ABRAVA não basta avaliar se a sala tem ar-condicionado, ventilador ou janelas. “É preciso observar se há renovação do ar, filtragem adequada, manutenção periódica dos equipamentos e cumprimento de normas técnicas”, frisou ele.
Sem renovação adequada
O professor Antonio Luís de Campos Mariani, da Escola Politécnica da USP, afirma que muitos ambientes climatizados, especialmente os que utilizam aparelhos do tipo split, não contam com renovação adequada do ar interior. Segundo ele, a boa qualidade do ambiente interno depende da combinação entre filtragem eficiente e entrada controlada de ar externo.
A questão tem impacto direto sobre saúde e aprendizagem. Ambientes com baixa qualidade do ar podem contribuir para mal-estar, sintomas respiratórios, crises alérgicas e maior transmissão de doenças dentro das instituições de ensino.
Falsa normalidade
Médicos também chamam a atenção para a falsa sensação de normalidade em torno da criança que volta para as aulas ainda sintomática. O uso de medicamentos pode mascarar febre e outros sinais, mas não significa que o aluno tenha deixado de transmitir vírus ou que esteja totalmente recuperado.
A prevenção passa por medidas conhecidas, mas ainda pouco sistemáticas: manter crianças sintomáticas em casa, reforçar a vacinação, higienizar mãos e superfícies, evitar salas fechadas por longos períodos e garantir ventilação adequada. Quando houver ar-condicionado, a recomendação é que o equipamento tenha manutenção regular e seja associado à renovação do ar.
No Brasil, o tema também se conecta à sazonalidade. Dados recentes do boletim InfoGripe, da Fiocruz, apontaram crescimento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave em diferentes regiões ainda nos primeiros meses de 2026. Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, tanto pelo sistema imunológico em desenvolvimento quanto pela exposição prolongada em escolas e creches.

