O Nordeste do Brasil reúne todas as condições para se tornar um dos principais polos de transição energética e neoindustrialização verde do Brasil. É o que mostra um relatório concluído pela iniciativa ONE – Oportunidades para o Nordeste, conduzida pela Climate Ventures com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS).
O documento ressalta que a região tem sol, vento, infraestrutura portuária, conectividade digital e interesse crescente de investidores, mas também enfrenta gargalos de governança, infraestrutura, demanda industrial e bancabilidade de projetos.
O maior obstáculo está na coordenação entre governos, financiadores, empresas e territórios para transformar energia limpa em desenvolvimento industrial, projetos financiáveis e benefícios concretos para a população, com impacto social duradouro.
O diagnóstico ouviu 35 representantes de instituições públicas, privadas, financeiras, acadêmicas, filantrópicas e multilaterais entre setembro e dezembro de 2025 e analisou 89 instituições com atuação direta ou indireta na agenda de transição energética e descarbonização industrial no Nordeste. A região concentra 26% da capacidade instalada de geração elétrica do país, com 93% provenientes de fontes renováveis.
Entre os principais gargalos identificados, estão a ausência de uma visão estratégica regional integrada, citada por 91,4% dos entrevistados; a incerteza regulatória e de mercado, mencionada por 85,7%; limitações de capacidade técnica para estruturar projetos bancáveis, apontadas por 65,7%; conflitos socioambientais e risco reputacional, também citados por 65,7%; e deficiências de transmissão e logística, mencionadas por 54,3%.
Alguns highlights do relatório:
1. O Nordeste como plataforma da neoindustrialização verde
A oferta de energia renovável competitiva pode atrair indústrias eletrointensivas, data centers, produção de hidrogênio verde, SAF, bioinsumos e cadeias associadas à descarbonização.
2. O risco de exportar energia limpa sem gerar desenvolvimento local
O estudo alerta para o desequilíbrio entre oferta e demanda: a região amplia a geração renovável, mas ainda não tem uma estratégia estruturada para ancorar consumo industrial no próprio território. Ou seja, o Nordeste pode virar potência produtiva verde ou apenas fornecedor de energia para outras regiões.
3. Falta de governança como principal gargalo
A barreira mais recorrente não é tecnológica, mas institucional: falta uma estrutura regional capaz de organizar prioridades, padronizar projetos, conectar fontes de financiamento e alinhar políticas estaduais e federais.
4. Bancabilidade: o elo perdido do financiamento climático
Há capital disponível, mas muitos projetos ainda não chegam prontos aos financiadores. O estudo chama atenção para o chamado “missing middle”: a lacuna entre boas ideias e projetos com estrutura técnica, jurídica e financeira suficiente para acessar crédito, garantias e fundos climáticos.
5. Transição justa e risco de conflito nos territórios
O relatório aponta a necessidade de mecanismos de escuta, participação social, métricas de impacto e benefícios locais, especialmente diante de conflitos associados a empreendimentos renováveis onshore.

