Projeto promove dez encontros com ex-atletas que abriram caminho para o futebol feminino no Brasil, com palestra, festival esportivo e debate sobre igualdade de gênero e cultura de paz
Quando a Seleção Brasileira Feminina entrou em campo no Mundial Experimental da FIFA, em 1988, na China, havia por trás da camisa amarela uma história de resistência. Décadas antes, o futebol praticado por mulheres chegou a ser proibido no Brasil.
As Pioneiras, como ficaram conhecidas, abriram caminho para as novas gerações — e agora essa história será contada a estudantes da rede municipal de educação do Rio, cercada de histórias, alegria e da chance de bater uma bolinha com as primeiras jogadoras a vestir a camisa verde e amarela.
Quem driblou o preconceito, a falta de estrutura e a invisibilidade foram elas: as Pioneiras. Para resgatar essa memória e inspirar novas gerações, o projeto Pioneiras nas Escolas realizará dez encontros presenciais, ainda este ano, em escolas da Rede Pública Municipal, com duração mínima de três horas cada, com a presença de ex-atletas da Seleção reconhecidas nacionalmente como Pioneiras do futebol feminino.
Além de contar a trajetória dessas mulheres, as atividades discutem igualdade de gênero no esporte, protagonismo feminino e cultura de paz com estudantes de diferentes pontos da cidade.
Idealizado pela ex-jogadora da Seleção Brasileira Duda Luizelli, o projeto nasceu justamente desse espírito, segundo ela, que vestiu a camisa da Seleção por oito anos, passando pela coordenação da Seleção Brasileira e diversos projetos visando desenvolver o futebol feminino.
“É nas escolas que a gente precisa contar a história do passado, para que essas meninas entendam e prestigiem o futebol feminino”, explica Duda.
Cada encontro é dividido em dois momentos:
Palestra (2h): no auditório ou ginásio, com conversa mediada (1h30) e perguntas e respostas com os estudantes (30 min);
Festival esportivo (1h): na quadra ou campo, com demonstração de fundamentos, recreação e atividades de integração conduzidas pelas próprias atletas.
Participam do rodízio de Pioneiras, conforme disponibilidade: Marisa Pires Nogueira, a Caju; Rosângela dos Santos, a Danda; Mariza da Silva, a Pelezinha; Maria Lúcia Lima, a Fia; e Rosilane Camargo Motta, a Fanta.
Quem são as Pioneiras?
Juntas, as atletas do projeto somam mais de 100 jogos com a camisa da Seleção Brasileira. São tricampeãs da Copa América Feminina (1991, 1995 e 1998) e medalhistas de bronze no Mundial Experimental da FIFA de 1988 — primeira competição com a presença de uma Seleção Brasileira — e na Copa do Mundo da FIFA de 1999. Também participaram da 1ª Copa do Mundo Feminina da FIFA, na China (1991), e da estreia do futebol feminino nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996).
Marisa Pires Nogueira, a Caju — zagueira
Nascida em 23 de junho de 1966, no Rio de Janeiro, começou a jogar aos 8 anos, nas ruas, com os meninos. Aos 13, entrou para o Bangu. Defendeu ainda Vasco, Fluminense, SAAD, Portuguesa, São Paulo e Palmeiras. Pela Seleção (1988–1999), foram 43 jogos, 34 vitórias e 4 gols. Como treinadora, comandou Vasco, Bangu, Portuguesa e Barcelona-RJ. Hoje, dedica-se a projetos esportivos em comunidades carentes. É homenageada pela Lei Estadual 7.576/2017, que leva seu nome e fomenta o futebol feminino no estado do Rio de Janeiro.
Rosilane Camargo Motta, a Fanta — lateral-esquerda
Imortalizada como Fanta, é considerada uma das maiores lendas da posição no país. Teve carreira de 20 anos (1983–2003), com passagens por EC Radar, Vasco da Gama e Santos FC, além do futsal no Jacarepaguá e no Sabesp-SP. Vestiu a amarelinha por 12 anos (1988–2000) e disputou três Copas do Mundo, além do Torneio Experimental de Futebol Feminino, em 1988, na China ( Mundial Experimental/1991/1995/1999]. Pelo Vasco, foi pentacampeã carioca e tricampeã brasileira; pelo Radar, tetracampeã carioca e tricampeã brasileira. Sinônimo de raça, técnica e pioneirismo.
Maria Lúcia Lima, a Fia — meia-esquerda
Nascida em 1º de abril de 1964, no Rio de Janeiro, começou a jogar aos 13 anos e atuou até os 39: 26 anos de carreira. Pela Seleção (1991–1996), foram 47 jogos e 38 vitórias. Tricampeã da Copa América: o título de 1998 é posterior à passagem pela Seleção, que consta como 1991–1996, disputou a primeira Copa do Mundo (1991) e a primeira Olimpíada (1996). Pelo Vasco da Gama, foi tricampeã do Brasileirão Feminino (1993, 1994 e 1995) e campeã carioca (1996).
Rosângela dos Santos Rocha, a Danda — volante
Nasceu em 19 de novembro de 1962, no Rio de Janeiro. Aos 12 anos de idade, inicia uma carreira profissional marcante de 26 anos que a consolidou como uma das atletas mais versáteis e completas da geração pioneira do futebol feminino brasileiro. Danda rompeu fronteiras ao disputar competições em três modalidades distintas: Futebol de Campo, Futsal e Beach Soccer. No futebol de campo, defendeu clubes de tradição como Flamengo, Vasco da Gama e o Chicago Fire Soccer, nos Estados Unidos.
No futsal, disputou com o Country FC (RJ) e Mackenzie EC (RJ), além de representar o Nacional FC no beach soccer. Pela Seleção Brasileira, teve convocações entre 1990 e 1991, conquistando o título da Copa América Feminina de 1991, o Tricampeonato Carioca (1983, 1984, 1985), o
Tricampeonato Brasileiro (1984, 1985, 1986) e a 2ª Taça São Paulo (1984) pelo EC Radar, além de torneios internacionais no Suriname, Itália e México. Sagrou-se ainda campeã carioca pelo Flamengo (1998).
Marilza Martins da Silva, a Pelezinha — meia-esquerda
A eterna Pelezinha, nasceu no Rio de Janeiro, tem 62 anos. Começou no futebol aos 10 anos, com uma trajetória profissional de 20 anos construída nos gramados cariocas se destacando pela genialidade e habilidade em jogo. Passou por grandes clubes do Rio de Janeiro, como América Football Club, Esporte Clube Radar e Club de Regatas Vasco da Gama, até encerrar sua carreira em 1999. A jogadora foi parte fundamental da “Geração Marco Zero” da Seleção Brasileira, defendendo a amarelinha entre 1988 e 1991, com participação em dois Mundiais. Conquistou o título do Campeonato Sul-Americano de 1991 (atual Copa América Feminina), participou do Torneio Experimental da FIFA na China (1988) e na primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA (China, 1991).
Mais do que futebol: educação e cidadania
Com linguagem adaptada à faixa etária, os encontros abordam a trajetória das Pioneiras e a superação de obstáculos pessoais e profissionais; a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres; o enfrentamento a todas as formas de violência contra mulheres e meninas; e a educação como instrumento de transformação social. Também entram na conversa temas como cidadania, respeito, ética, trabalho em equipe, perseverança, autoestima e incentivo à prática esportiva.
A equipe do projeto leva toda a estrutura: backdrop de palco, banner de campo, 40 camisetas personalizadas para as alunas participantes e material educativo impresso, além de realizar o registro fotográfico e audiovisual.
O projeto também resgata recortes históricos que mostram o cenário enfrentado por elas, como as manchetes “Mulheres na semifinal”, “Fanta mostra seu faro de artilheira” e “Moças do futebol vão à China com Pelezinha para primeiro Mundial”, além de reportagens sobre a resistência nos tempos de proibição da mulher no futebol.
SERVIÇO:
Projeto Pioneiras nas Escolas
Formato: Palestra (2h) + Festival Esportivo (1h) – Total 3h por escola
Público: Estudantes da Rede Pública Municipal de Ensino
Pioneiras convidadas: Caju, Danda, Pelezinha, Fia e Fanta

