Há quem diga que a disputa entre tucanos e petistas, que reunia Lula, Zé Dirceu, Genuíno, Fernando Henrique, Mário Covas, Aécio Neves e outros do mesmo naipe, ali pelos anos 80, ou coisa parecida, era bem mais saudável, mais inteligente e divertida. Até o humor era palatável, muitas vezes irônico, quase sempre recheado de pitacos inteligentes e desprovido de ódios e rancores.
Erros e acertos de ambas as partes, diferenças dissipadas, mesmo que pairasse no ar um antagonismo latente, como tinha que ser. Vez por outra, um exagero; sem ele, não há política.
Ali existia, vejam todos, talvez o mesmo ranço dos debates acirrados de hoje, os mesmos interesses, ambições e vaidades, e nada mudou quanto à prática das mais sinceras traições e à habitual fidelidade partidária, até que outras vantagens as separassem.
O que mudou, além do cenário, hoje mais sofisticado e cibernético, foram as figuras ativas e os personagens atuantes, ficando patente, nesse particular, uma evidente perda de qualidade, principalmente nos itens relacionados ao nível intelectual, à sabedoria política, à liderança e à habilidade no trato com a coisa pública.
Duas coisas, ambas de vital importância, influenciaram nessa real transformação, pontos marcantes que a sociedade civil, atenta, mas impotente, acompanha e sobre os quais nada pode fazer. Primeiro, o avanço e o domínio das redes sociais sobre o comportamento e as ações das pessoas, de todas as classes sociais.
Em seguida, com toda ênfase, o surgimento avassalador de uma nova corrente política radical, agressiva e dominante: o bolsonarismo, oriundo das pregações de Jair Messias Bolsonaro, ex-deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro e eleito, em 2018, presidente da República, após ganhar nas urnas 57 milhões de votos.
Iniciou-se ali a terceira corrente, uma vez que já tínhamos, de um lado, a esquerda militante e, de outro, a direita conservadora. Tudo isso para que fique claro que direita é uma coisa, bolsonarismo é outra coisa. Exercem, na teoria, ações parecidas, mas, na prática, diferem em pontos que parecem convergentes, mas não são. Fácil perceber isso; só não admite quem não quer ou repudia.
Bem resumindo, é simples assim. A esquerda luta por direitos sociais, defende as classes menos favorecidas, é solidária e assume, com frequência, causas de forte apelo humanitário. A direita prega a tradição, diz defender a família, estampa causas de cunho patriótico e por aí vai.
Quase sempre radicaliza temas absurdos e busca amparo em exemplos oriundos de outros países, entre eles o machismo desenfreado, a discriminação racial, os preconceitos e questões similares. Há exceções, claro que sim, sempre há.
Agora, melhor dizendo, nos últimos 25 anos (ou 30), surgiu o bolsonarismo, uma entidade que, embora pareça multifacetada, tem apenas um líder, que impõe aos súditos severa vigilância, submissão absoluta e de todos exige fidelidade canina, mesmo havendo na aldeia, vez por outra, sinais de levante.
Michelle Bolsonaro, por exemplo, talvez a mais lúcida (ou rebelde) do clã, pouco tempo atrás deixou claro que respira pelo próprio pulmão e, se mais adiante alguém lhe negar oxigênio, máscaras cairão automaticamente. E, como preconiza a emergência, será a primeira a colocá-la, em seguida nos demais, se a situação exigir.
Essa pregação (quase uma seita) segue princípios, códigos, melhor dizendo. Os exemplos estão aí, ninguém pode negar. A prova viva foi a indicação de Flávio Bolsonaro à candidatura à Presidência, em ato isolado e silencioso.
A preferência, assumida para os demais seguidores, era por Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que, “sorridente”, entubou a escolha e até hoje se esforça para sair bem na foto em público, ao lado do pimpolho.
Nada de excepcional nisso tudo: político não tem amigos, tem, sim, circunstâncias. Às vezes, a favor; às vezes, contra.
O que muitos, no ambiente político de hoje, sentem falta é daquele tempero necessário, saudável e útil a essa convivência, em que a opção, em vez de fumaça, porrada e bomba, era a boa conversa, charuto, cafezinho e até abraços. Mesmo que de tamanduá, era do jogo.
No universo político de hoje, pós-Bolsonaro, isso é impossível de acontecer. A figura do adversário foi ocupada pela figura do inimigo, tal o tamanho das diferenças ideológicas, racionais e, principalmente, comportamentais.
Lamentável constatação, em que o diálogo praticamente inexiste, o bom senso foi soterrado e as perspectivas de que isso mude a curto prazo resvalam no zero.
De um lado, temos provocadores profissionais como Nikolas Ferreira, Pablo Marçal, juiz Moro, pastor Malafaia, Guilherme Derrite e outros que, com habilidade, lideram exércitos de apoiadores, cada um pregando seus demônios à sua moda.
O lado petista também não economiza munição quando a luta é para buscar soberania, liderança e poder. É voz comum entre os militantes do partido a necessidade urgente de que se busque, seja lá onde for, um nome capaz de, a curto, médio ou longo prazo, sinalizar alguma condição, por menor que seja, de capacidade para ocupar o lugar de Luiz Inácio Lula da Silva, já no ocaso da sua carreira, quer gostem ou não, abastada e reconhecida mundo afora.
Infelizmente, pura verdade, falta a todos nós um mundo político de melhor qualidade. Hoje, a mediocridade campeia solta e tende a continuar. Alguns que muitos ainda admiram, na verdade, merecem pena.
José Natal
Jornalista

