Caatinga: ativo estratégico ainda fora do centro das decisões, por Luciana Leão

Nosso tema desta quinta-feira (30/04) será a Caatinga, a qual teve no último 28 de abril,  a data que celebra o Dia Nacional da Caatinga.

A reflexão que a coluna traz, neste momento, reforça a necessidade de reposicionar o olhar sobre o único bioma exclusivamente brasileiro. Em vez de ser associado apenas à escassez hídrica, o território tem se consolidado como referência em estratégias de adaptação climática, um ativo ainda subaproveitado nas políticas públicas e no planejamento econômico nacional.

Com cerca de 11% do território brasileiro, a Caatinga se estende por oito estados do Nordeste e pelo norte de Minas Gerais, reunindo uma população em torno de 30 milhões de pessoas. Trata-se da região semiárida mais densamente povoada do mundo, com dinâmicas sociais e produtivas que, ao longo de décadas, foram moldadas pela convivência com condições climáticas adversas.

Esse histórico resultou em um conjunto de práticas que hoje está presente na agenda da sustentabilidade.

Experiências consolidadas de convivência com o semiárido estruturam cadeias produtivas baseadas na sociobiodiversidade, como umbu, licuri e mel de abelhas nativas, além de sistemas agroecológicos e bancos de sementes crioulas. Trata-se de uma base real para o avanço da bioeconomia, com capacidade de gerar renda, preservar o meio ambiente e fortalecer a segurança alimentar. Ainda assim, essas iniciativas permanecem, em grande medida, limitadas pela falta de escala.

É nesse ponto que o descompasso se evidencia.

Apesar desse potencial, a inserção da Caatinga nas estratégias nacionais de enfrentamento à crise climática ainda ocorre de forma limitada. O volume de investimentos direcionados ao bioma, assim como sua presença em programas estruturantes, permanece aquém de sua relevância ambiental, econômica e social.

Na prática, isso se traduz em dificuldades para ampliar iniciativas já consolidadas e em entraves para a escala de políticas públicas voltadas à produção sustentável no semiárido. Mais do que uma lacuna operacional, trata-se de uma escolha política.

A consolidação da Caatinga como ativo estratégico passa pela ampliação de financiamento contínuo, pelo fortalecimento de instrumentos de crédito adaptados ao semiárido, pelo estímulo à bioeconomia regional e pela incorporação mais efetiva do bioma às metas climáticas do país. Medidas como pagamento por serviços ambientais e incentivos a cadeias produtivas sustentáveis podem acelerar esse processo, desde que tratadas como política de Estado, e não como iniciativas pontuais.

Em um contexto global de eventos extremos e pressão crescente sobre sistemas produtivos, o semiárido brasileiro já oferece respostas testadas. A Caatinga não é apenas um bioma resiliente. É um repositório de soluções em escala real. O desafio não está em descobrir seu potencial, mas em decidir incorporá-lo, de forma consistente, às estratégias de desenvolvimento do Brasil.

 

 

 

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Luciana Leão

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