Valor SUSTENTÁVEL: Quando o debate vira espetáculo, a democracia perde, por Luciana Leão

Por Luciana Leão

O que um debate presidencial deveria oferecer ao eleitor? Propostas, respostas, explicações, confronto de ideias. Afinal, está em disputa a Presidência da República, o mais alto posto do Executivo brasileiro. O que se viu neste domingo, na Band, deixou uma pergunta incômoda: para que serve um debate quando o espetáculo ocupa o lugar do conteúdo?

Não se trata de responsabilizar a emissora pelo comportamento dos candidatos, mas de questionar um modelo que parece privilegiar o embate, a provocação e a disputa pela cena. Ao invés de ajudar o cidadão a compreender projetos de governo, o confronto se converte em uma sucessão de acusações, gestos calculados e tentativas de desestabilizar o adversário.

A atuação do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, chamou a atenção pela teatralidade. A movimentação pelo palco e a gesticulação pareciam compor uma encenação cuidadosamente preparada. Mas a política não pode ser avaliada como um espetáculo. O que importa é o que o candidato tem a dizer, como sustenta suas afirmações e se consegue responder às questões que lhe são apresentadas. Nada disso foi visto!

Lula, com sua experiência de presidente, demonstrou impaciência diante do formato e do adversário. Também procurou reagir, cobrar explicações e lançar desafios. Mas experiência política, por si só, não substitui a obrigação de prestar contas. O eleitor precisa de mais do que um duelo entre personagens: precisa de respostas sobre o país que cada um pretende governar.

É nesse ponto que o debate deixa de ser apenas um programa de televisão e se torna uma questão de responsabilidade democrática. Como avaliar candidaturas quando acusações ocupam o tempo que deveria ser dedicado às políticas de saúde, educação, segurança, emprego, energia e desenvolvimento?

Como cobrar compromisso público se o candidato pode escapar das perguntas sem que isso tenha consequências no próprio debate?

A sustentabilidade de uma democracia também depende dos valores que ela cultiva. Respeito à verdade, responsabilidade, capacidade de ouvir e disposição para explicar escolhas não são detalhes de comportamento. São requisitos para a vida pública.

Quando o debate se transforma em espetáculo, o eleitor pode até sair com a impressão de que assistiu a um confronto emocionante. Mas emoção não é esclarecimento, provocação não é argumento e uma boa atuação diante das câmeras não é prova de capacidade para governar.

Ao final, fica a pergunta: quem ganhou com o debate de domingo? E, sobretudo, o que ganhou o cidadão brasileiro?

Se o próximo debate, previsto na TV Globo, repetir a lógica deste primeiro na Band, teremos mais elementos para discutir não apenas a atuação dos candidatos, mas também a responsabilidade das emissoras na construção de formatos que favoreçam o esclarecimento público.

Palavra final: lástima

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Luciana Leão

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