Quando o destino é o Nordeste: turismo de natureza vira ativo econômico e social

Por Luciana Leão

Como o avanço do turismo de natureza transforma paisagens em ativos econômicos, fortalece comunidades locais e projeta o Nordeste com os Lençóis Maranhenses à frente  no centro da estratégia turística do Brasil

 

O Brasil vive um momento estratégico no turismo. Mais do que sol e praia, a natureza passou a ser o principal motor econômico do setor. Dados recentes da Embratur e da plataforma PlanetaEXO mostram que o turismo de natureza, conceito mais amplo que engloba o ecoturismo, já responde por cerca de 60% do faturamento total do turismo nacional, um sinal claro de que o país avança para um modelo em que preservação ambiental e desenvolvimento caminham juntos.

Em 2025, o turismo doméstico movimentou aproximadamente R$ 22,8 bilhões, impulsionado majoritariamente por viagens de lazer associadas a experiências ao ar livre, contato com biomas preservados e destinos sustentáveis. Esse movimento também se reflete no mercado internacional: o Brasil encerrou 2025 com um recorde histórico de 9,28 milhões de turistas estrangeiros, crescimento de 37,1% em relação a 2024, atraídos sobretudo pela biodiversidade e pela imagem do país como destino sustentável, segundo a Embratur.

O avanço aparece de forma concreta na visitação de áreas protegidas. O número de visitas a Parques Nacionais atingiu o recorde de 11,8 milhões, evidenciando uma demanda crescente por experiências ligadas diretamente ao ecoturismo.

Maranhão como vitrine estratégica

Nesse novo desenho do turismo brasileiro, o Nordeste surge como uma janela naturalmente aberta para ampliar renda, fortalecer economias locais e preservar o meio ambiente. Em 2026, a região concentra seis dos principais destinos de ecoturismo do país, com destaque absoluto para os Lençóis Maranhenses, no Maranhão, que lideram estudos nacionais de preferência turística.

Mais do que um cartão-postal, os Lençóis representam um ativo econômico estratégico. O fluxo turístico no Nordeste cresceu 12% em 2025, com forte demanda por destinos que unem natureza, cultura e sustentabilidade. No Maranhão, o turismo de base natural impulsiona cadeias locais de serviços, fomenta o trabalho de guias e operadores e amplia oportunidades em comunidades do entorno.

Segundo a Secretaria de Estado do Turismo do Maranhão (Setur-MA), o governo tem atuado para qualificar operadores e guias e ampliar a promoção do destino no mercado nacional e internacional.

“Os Lençóis Maranhenses já são amplamente conhecidos como um dos principais destinos para viajantes brasileiros e de todo o mundo. Nós fomos agraciados com esse paraíso natural e atuamos para projetá-lo ainda no cenário turístico mundial”, reforça a secretária de Turismo do Maranhão, Socorro Araújo.

O impacto regional é visível também em outros estados. Sergipe arrecadou R$ 358 milhões no primeiro semestre de 2025, batendo recordes históricos de receita turística. Já o Rio Grande do Norte registrou crescimento de 7,5% no mesmo período, consolidando o terceiro melhor desempenho do Nordeste.

Como parte da estratégia de sustentabilidade econômica e ambiental, destinos exclusivos passaram a adotar ou reajustar taxas de preservação. Em Fernando de Noronha (PE), por exemplo, a Taxa de Preservação Ambiental (TPA) foi reajustada para R$ 105,79 por dia em janeiro de 2026, com recursos destinados diretamente à conservação local.

O peso do setor na economia regional é significativo. O turismo responde por cerca de 9,8% do PIB do Nordeste, e o ecoturismo desponta como o segmento com maior potencial de expansão para elevar esse percentual em 2026, apoiado por uma mudança clara no comportamento do viajante: 98% dos turistas brasileiros afirmam desejar adotar práticas mais sustentáveis em suas viagens.

Turismo de cavernas: curiosidade, conservação e desenvolvimento

Parque Nacional de Ubajara no Ceará/ Foto: Luciana Alt

Outra frente em expansão no Nordeste é o espeleoturismo, o turismo em cavernas, que ganha força à medida que o Brasil bate recordes de visitação em áreas protegidas.

Em parceria com o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav) lançou a publicação “Diretrizes para atividades formativas”, voltada à capacitação de guias e condutores especializados.

O movimento ocorre em um contexto favorável. Segundo o Ministério do Turismo, mais de 25 milhões de pessoas visitaram áreas protegidas no país em 2024, e as cavernas acompanham essa tendência com novos atrativos, como a abertura do Parque Nacional da Furna Feia e a estruturação da Rota das CaveRNas, no Rio Grande do Norte.

A iniciativa de capacitação certificou mais de 60 alunos e combinou módulos teóricos com atividades práticas em parques nacionais como Ubajara (CE), Furna Feia (RN), Cavernas do Peruaçu (MG) e o Petar (SP). O objetivo é qualificar profissionais que atuam em territórios cársticos, garantindo experiências seguras, educativas e alinhadas às políticas de conservação.

Para o coordenador do ICMBio/Cecav, Jocy Cruz, o material fortalece práticas responsáveis e inclusivas, ao mesmo tempo em que contribui para o desenvolvimento local e a preservação do patrimônio espeleológico brasileiro.

Rota das Cavernas no Rio Grande do Norte, em Felipe Guerra. Foto: Prefeitura de Felipe Guerra

No Rio Grande do Norte, a Rota das CaveRNas integra cavernas, sítios arqueológicos, mirantes e experiências de turismo de base comunitária em municípios como Baraúna, Apodi, Martins, Felipe Guerra e Mossoró. Além de diversificar a oferta turística, o espeleoturismo gera emprego e renda em regiões com poucas alternativas econômicas.

Segundo o analista ambiental Diego Bento, do ICMBio/Cecav, o turismo ecológico bem planejado é uma das atividades econômicas mais sustentáveis, com papel central na conscientização ambiental. No caso das cavernas, o desafio é equilibrar o fascínio do visitante com a necessidade de proteção de ambientes frágeis — um equilíbrio que, quando bem conduzido, transforma curiosidade em conservação e turismo em desenvolvimento.

No Delta do Parnaíba (PI), revoada dos guarás atrai turistas

Revoada dos Guarás, no Delta do Parnaíba

 

A Revoada dos Guarás é um fenômeno natural que ocorre diariamente no Delta do Parnaíba, entre 17h e 18h, quando centenas de aves de plumagem vermelha retornam aos manguezais para dormir. O espetáculo, visível a partir de pequenas embarcações, tem atraído turistas de diferentes regiões e se consolidado como uma das principais experiências de ecoturismo no litoral do Piauí.

O passeio parte do Porto dos Tatus, em Ilha Grande, e percorre canais e igarapés até a Ilha das Canárias, onde há parada para almoço. Durante o trajeto, os visitantes recebem informações sobre a geografia do delta e observam animais silvestres em pequenos safáris fluviais. Antes da revoada, há ainda uma parada para banho nas dunas da Baía do Caju.

“Há muito tempo eu sabia da existência do passeio da revoada dos guarás, mas não conhecia. Já tinha feito o passeio do Delta do Parnaíba e estava, desde então, ansioso para conhecer esse passeio dos guarás, que eu via pelas fotos”, disse Gustavo Vasconcelos, turista do Rio de Janeiro, que passou o ano novo no litoral piauiense.

Um dos guias locais, Leonardo Carão, que também atua como pescador, acompanha a movimentação há 15 anos. “A revoada dos guarás já faz sucesso há muito tempo, é uma coisa bem característica aqui do litoral, tem muita procura e tem gente que vem e volta“, afirmou o guia.

A observação das aves é feita a uma distância segura, sem interferência no comportamento dos animais. O guará, também conhecido como guará-vermelho, tem a coloração intensa devido à alimentação rica em crustáceos, especialmente caranguejos. A atividade é considerada uma forma de turismo sustentável, por valorizar a biodiversidade, promover a educação ambiental e gerar renda para comunidades tradicionais da região.

“Parecia ser algo diferente de tudo que eu já tinha visto. Realmente foi isso que eles ofereceram: uma experiência única. Um animal que não se vê em qualquer lugar, uma paisagem deslumbrante, uma experiência que vale a pena viver mais de uma vez. Espero repetirem outro momento”, contou Gustavo.

Serra da Capivara

Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí/Governo do Piauí/Divulgação

 Também entre os destinos mais procurados em se tratando de turismo de natureza, em publicação oficial nas redes sociais, o Ministério do Turismo incluiu a Serra da Capivara entre os 15 destinos que melhor representam a força da natureza e do ecoturismo no Brasil em 2026, reforçando o potencial do estado como referência no segmento.

O reconhecimento se deve ao valor singular da Serra da Capivara, localizada no sul do estado, considerada a “galeria de arte mais antiga das Américas”. O parque abriga centenas de sítios arqueológicos de relevância mundial e é reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, destacando-se pela preservação, pesquisa científica e experiências de turismo sustentável.

De acordo com o secretário do Turismo do Piauí, Daniel Oliveira, o reconhecimento nacional reforça o trabalho desenvolvido pelo Governo do Estado no fortalecimento do turismo sustentável. “Esse destaque do Ministério do Turismo é um marco importante, que projeta o Piauí como um destino estratégico para o ecoturismo no Brasil em 2026. O estado reúne atributos únicos que integram natureza, cultura, história e desenvolvimento socioeconômico, sempre com foco na sustentabilidade”, afirmou o gestor.

Afroturismo no Nordeste: identidade, memória e renda local

Afroturismo é um segmento que valoriza a história a ancestralidade e a identidade negra/ Foto: Tomaz Silva – Agência Brasil

 Uma das tendências relevantes para 2026 é o fortalecimento do afroturismo, impulsionado pelo lançamento do Guia do Afroturismo no Brasil – Roteiros e Experiências da Cultura Afro-Brasileira, iniciativa do Ministério do Turismo, em 2025. O material mapeia experiências e serviços protagonizados por pessoas negras, identifica boas práticas nacionais e internacionais e subsidia políticas públicas voltadas ao setor.

Mais do que um produto turístico, o afroturismo se consolida como instrumento de valorização cultural, geração de renda e fortalecimento da identidade. O guia organiza experiências por macrorregiões e tipos de atividades, reunindo desde visitas a quilombos e terreiros até circuitos gastronômicos, museus, feiras culturais e manifestações artísticas.

No Nordeste, os exemplos são emblemáticos. O Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga (AL), permite ao visitante conhecer a história de um dos mais importantes quilombos do país. Em São Luís (MA), o Quilombo Cultural oferece vivências no maior quilombo urbano da América Latina, com expressões como tambor de crioula, bumba meu boi, reggae e religiosidade de matriz africana.

Em Sergipe, o Terreiro de Candomblé Alarokê, em São Cristóvão, combina rodas de conversa, oficinas de dança afro, percussão e gastronomia tradicional. Na Bahia, o roteiro inclui o Terreiro do Gantois, o Memorial Mãe Menininha do Gantois e o Quilombo Kaonge, em Cachoeira, onde o turismo se conecta aos saberes ancestrais, à produção artesanal e à economia local.

Segundo o Ministério do Turismo, o afroturismo é uma das prioridades da atual gestão, por meio do Programa Rotas Negras, voltado a fortalecer comunidades negras e posicionar a cultura afro-brasileira no cenário turístico nacional e internacional. Nordeste e Sudeste concentram, cada um, 16 dos 43 roteiros mapeados pelo guia.

 

 

*Matéria publicada na edição 228, da Revista NORDESTE

 

 

 

 

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Luciana Leão

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