Fundador e presidente da ABRACE, associação pioneira do Brasil, recebe ANVISA para gerar regras legais no País
Por Walter Santos
O universo brasileiro em torno de até 30% da população dependente de medicamentos à base de Canabidiol anda na torcida pela regulamentação de mecanismos legais para resolver de vez as pendências existentes. A ANVISA acaba de fazer inspeção na ABRACE, em João Pessoa, por ser a mais consolidada estrutura de plantio, cultivo e produção de medicamentos comprovadamente eficazes e de custo baixo.
Para avaliar o atual cenário envolvendo o uso de medicamentos à base de Canabidiol no Brasil, a Revista NORDESTE conversou com Cassiano Gomes, presidente da ABRACE.
Revista NORDESTE – A ABRACE – instituição paraibana pioneira na exploração legal e científica da Cannabis no País – acaba de receber diretores e especialistas da ANVISA em João Pessoa visando conhecer e apontar caminhos para cultivo e produção de Canabidiol com fins medicamentosos. Qual o saldo final desse encontro?
Cassiano Gomes – O saldo foi muito positivo por impactar o diretor da Anvisa com a estrutura e com os processos bem desenvolvidos e estruturados que a Abrace vem implementando desde 2022 quando teve suas operações paradas pelo desembargador Cid Moroni. Eles ficaram impactados e consideram a Abrace como a régua em uma futura regulamentação. Vieram o diretor Tiago Campos e outros colaboradores de setores de remédios controlados e controle de qualidade.
NORDESTE – A presença técnica da ANVISA traduz recomendação do STJ determinando à agência apurar a forma de cultivo e produção da ABRACE. Por que a entidade é referência nacional e desde quando?
Cassiano Gomes – Sim. Eles vieram com essa intenção de entender como funciona uma pequena indústria de Cannabis medicinal com toda sua cadeia desde Cultivo extração produção do medicamento e fornecimento. Além de ser a primeira associação autorizada a cultivar Cannabis ali em 2017 a Abrace é hoje a maior associação no Brasil com 60 mil associados! Nós somos referência porque nós decidimos que íamos cumprir com excelência as exigências da Anvisa, mas também com o menor custo do brasil sem perder a qualidade e o atendimento aos associados únicos no Brasil .
NORDESTE – Embora a Paraíba seja pioneira como gestão de entidade específica no trato desse produto diferenciado para diversas doenças, foi o estado de São Paulo quem primeiro produziu lei visando oferecer o Canabidiol pelo SUS. Como anda esse processo nos demais estados e em especial na Paraíba?
Cassiano Gomes – São Paulo pode ter sido o primeiro na questão do fornecimento, mas tem tido insucesso nas compras, como no caso da última semana na qual a Anvisa devolveu o produto que vinha do Paraguai. Ou seja, tem havido emprego dos recursos de forma irresponsável com compras de valores astronômicos sem nenhuma observância das necessidades dos pacientes. Vários estados estão com suas leis, mas nenhum ainda conseguiu fornecer de forma correta, pois os gestores são mal informados quanto ao tratamento.
NORDESTE – A questão então é tratada como mercado?
Cassiano Gomes – Eles acreditam que é um produto apenas e que só o canabidiol serve. Isto é uma inverdade. Acaba que pessoas continuam buscando a ABRACE em João Pessoa, mesmo de São Paulo que é, por incrível que pareça, o estado com maior número de pacientes da ABRACE
NORDESTE – A realidade no País constata um nível de alto preconceito por puro desconhecimento da importância da Canabidiol no tratamento de muitas doenças. Como a ABRACE convive com essa dura situação e o que precisa ser feito para conviver melhor com a importância medicamentosa?
Cassiano Gomes – São 13 anos de luta pelo acesso à cannabis Medicinal no Brasil e de lá para cá aprendemos que o canabidiol é uma das 500 substâncias que a cannabis pode produzir. Essa falta de conhecimento, ela vem da ignorância, da falta de interesse das universidades em ensinar aos médicos sobre o sistema Endocanabinoide.

NORDESTE – Quais outros efeitos com a ignorância?
Cassiano Gomes – Apesar de muitos avanços de um lado, do outro continuamos vendo pessoas indicando trato do assunto pelo significado de cadeia por causa de uma planta. A mídia está acostumada em publicizar esse assunto no formato “estouro de laboratório de drogas”, enquanto todos os países vizinhos do Brasil já tratam esse assunto como comércio, negócios e geram muito impostos. Eles que fornecem os extratos para a indústria brasileira que importa da Colômbia. Esse preconceito que já tem 100 anos vai levar mais duas ou três gerações, já que na política não temos tido avanços. Somente na justiça o Brasil tem avançado.
NORDESTE – O fato é que a experiência exitosa e comprovadamente eficaz no tratamento de doenças pelas ações da ABRACE tem levado os senhores estarem nas pautas nacionais do Fantástico e Globo Rural. De que forma vocês encontram fôlego para conviver com tantas mentiras?
Cassiano Gomes – Esse lance de reconhecimento sempre vem mais de fora do Estado da Paraíba, o que é algo que conhecemos como “complexo de vira lata” do brasileiro, por isso nosso maior público está em São Paulo.
NORDESTE – E os efeitos de exposição do trabalho pioneiro da ABRACE em programas como Fantástico, etc?
Cassiano Gomes – Sim, saímos no Fantástico em 2017, também no programa “Profissão Repórter” em 2020. Tivemos exposição no Globo Repórter em 2024 e na sequência no Globo Rural. Um feito único da Paraíba. Mesmo com toda a exposição, registramos zero reconhecimento do poder público ou dos políticos paraibanos. Mas não almejamos nenhum reconhecimento desse porte. Queremos apenas o reconhecimento das pessoas que têm tido resultados e saber se transformamos a vida delas.
NORDESTE – Então o foco é no tratamento e cura de pessoas?
Cassiano Gomes – Aí sim, tem sido impactante e até mesmo milagroso o que nos enche de orgulho. As mentiras das narrativas falsas, elas caem com um tempo. O tempo derruba golpista e a história costuma ser cruel com quem tenta derrubar quem está preocupado em fazer o bem.
NORDESTE – De forma didática, como o Sr representando a ABRACE explica como é feito cultivo e produção medicamentosa para provar que inexiste desvio de função deste processo?
Cassiano Gomes – A Abrace sempre foi cobrada por demostrar idoneidade, transparência e, no quesito medicamento, fomos cobrados a seguir as RDCS de fabricação pela ANVISA. Mas ninguém parou para pensar que é a primeira vez que alguém se propôs a fazer isso no mundo. A propósito escolhemos abrir uma associação por ser uma causa de causa coletivo a produzir o bem das pessoas e, assim, sabíamos que ia enfrentar acusações mentirosas do tipo tráfico e não foi só a primeira vez.
NORDESTE – Exemplifique…
Cassiano Gomes – O ex-ministro Osmar Terra falou na Globo News que tínhamos uma acusação de tráfico antes mesmo da acusação ter chegado em nossas mãos, lá em 2020. Então não é a primeira nem será a última. O fato é que quem acusa tem que provar e até hoje eu sofro esse tipo de acusação absurda e irresponsável. Agora me acusam de improbidade administrativa do ano de 2015 a 2018 quando era eu e mais um punhado de amigos agíamos para atender milhares de pessoas em minha própria casa. Tudo invenção repetida. Temos ética, sobretudo.
NORDESTE – Como tudo começou com esse encaminhamento de processo pioneiro e inusitado no trato de doentes?
Cassiano Gomes – Olha, inicialmente eu era sozinho para tudo. E por isso fomos acusados absurdamente de estarmos cometendo crime de tráfico e de produção de medicamentos sem autorização sanitária. Tudo isso não era crime de má gestão, não. E, como quem fabrica um foguete é errando e acertando que se traça o caminho. Mas nenhum erro que eu cometi trouxe malefícios a nenhuma pessoa. Ao contrário, meus erros trouxeram a qualidade de vida para milhares. A falta de pessoas para me ajudar foi muito prejudicial, já que a maioria tinha medo de trabalhar e ser preso.
NORDESTE – Qual a realidade atual?
Cassiano Gomes – Hoje, a realidade é outra. Chegamos a ter 230 colaboradores. Na atualidade somos 100 colaboradores e nossa gestão recebeu selo de entidade social do ano de 2025. Agora quem fiscaliza não veio aqui para ver e quis nos imputar uma culpabilidade do comecinho quando era eu fazendo o que cem pessoas fazem hoje.

NORDESTE – Em tese, o preconceito tem a ver com uso da maconha – algo inexistente no processo. O que Sr. tem a dizer?
Cassiano Gomes – Preconceito termina quando se tem um pai, mãe ou filho que perdeu a saúde, entretanto a única esperança é o produto advindo da maconha. Ou seja, o preconceito acaba quando se precisa! Aliás, Preconceito nunca se acaba, assim como o fascismo, como a corrupção. É uma luta eterna e perene.
NORDESTE – Quais as expectativas depois da visita oficial da ANVISA em João Pessoa?
Cassiano Gomes – As expectativas são que a ANVISA, junto com o MAPA, vai lançar uma regulamentação feita de forma apressada, já que é uma determinação judicial, mas eles estão escutando nossas dores e ponderando para que as associações tenham condições de cumprir com o mínimo necessário e a ABRACE é a regra, segundo eles.
NORDESTE – Em que estágio está a ABRACE?
Cassiano Gomes – Comparativamente, já estamos nos 45 minutos do segundo tempo no quesito Alvará de Fabricação Especial ( AFE). Meu dever como gestor e fundador era chegar nesse momento. Espero que depois disso tenhamos um pouco de paz para curtir meus filhos.
NORDESTE – Por fim, como é conviver com reconhecimento nacional e internacional da experiência exitosa e comprovada diante de preconceito na aldeia?
Cassiano Gomes – Como disse minha mãe – “meu filho, você me dá um orgulho que toda mãe deseja para um filho, ao ver um trabalho lindo, ajudando tantas vidas, inclusive a minha. Eu já posso morrer tranquila. No meu caso, estou pouco me importando para reconhecimento da sociedade , ou de um MP, pois sinto que já cumpri minha missão na vida, que é de dá orgulho para meus país.
NORDESTE – E a ABRACE?
Cassiano Gomes – O resto é só para que a entidade seja preservada, conhecida e permaneça pelas gerações futuras e que transforme a vida de muitos e cumpra seu objetivo.
*Entrevista publicada na edição 228 da Revista NORDESTE


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