Com investimentos bilionários e incentivos fiscais, o Ceará e outros estados nordestinos se posicionam como o novo polo digital do país. Especialistas, porém, alertam que o salto tecnológico precisa caminhar junto à segurança hídrica e energética da região
Por Luciana Leão
A Região Nordeste entrou de vez no mapa da economia digital global. A recente aprovação de cinco novos projetos de data centers pelo Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) reforça o protagonismo do Ceará, com investimentos estimados em R$ 571 bilhões, dos quais R$ 81 bi vão para obras de infraestrutura e de energia limpa e sustentável.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os projetos de data centers são das empresas Bytedance Brasil Tecnologia Ltda.(Tik Tok) e Exportdata Company I a IV, este último com previsão de construir quatro unidades que entrarão em operação entre 2027 e 2032.
A Exportdata estima investir R$ 349 bilhões em equipamentos, infraestrutura e geração própria de energia eólica e solar.
Já o data center da TikTok prevê R$ 108 bilhões até 2035 em equipamentos de alta tecnologia, além de aportes diretos e indiretos em infraestrutura e compra de energia limpa, ainda a serem definidos pela empresa. A operação está prevista para começar em 2027. O projeto da Bytedance será desenvolvido pela Omnia, da Patria Investimentos, em parceria com a Casa dos Ventos, de origem cearense.
Juntos, os cinco empreendimentos pretendem exportar cerca de R$ 80 bilhões por ano em serviços, fortalecendo a balança comercial brasileira e consolidando a região como polo de inovação.
Questões a analisar
Por trás do otimismo dos anúncios, surgem questionamentos urgentes. Em uma região historicamente marcada por escassez hídrica e desafios estruturais de energia e transmissão, é preciso garantir que o avanço tecnológico não amplie desigualdades ambientais nem pressione recursos naturais já limitados.

Nesse contexto, o ponto central passa a ser o equilíbrio entre tecnologia e segurança hídrica. O engenheiro eletricista Alan Henn, CEO da Voltera Energia — especializada em soluções para o mercado livre de energia e sustentabilidade corporativa — destaca que os critérios do Programa de Racionalização e Eficiência de Data Centers (REDATA), instituído pela Medida Provisória 1318/2025, já incluem metas de eficiência no uso da água, com limite de 0,05 litro por quilowatt-hora (L/kWh).
Ainda assim, ele ressalta que o histórico climático da região exige planos de contingência para períodos de estiagem, cada vez mais frequentes.“Mesmo com tecnologias de circuito fechado, que reduzem drasticamente a captação de água, é fundamental prever ações claras para eventos extremos, como secas severas”, afirma Henn.
Segundo ele, data centers modernos podem operar em ciclo fechado, com uma única coleta inicial de água, reaproveitada no processo de resfriamento. Entretanto, é necessária a reposição anual de cerca de 10% do volume inicial devido a perdas por evaporação e aquecimento.
Modelos de resfriamento e transparência
A promessa de “resfriamento a ar” ou de “circuito fechado”, com consumo zero de água potável, ainda carece de maior transparência, segundo especialistas.
Henn lembra que órgãos como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) têm competência para monitorar o consumo desses empreendimentos, mas defende a criação de rituais obrigatórios de comunicação por parte das empresas, detalhando o uso real de água e os impactos regionais.
O engenheiro Victor Gomes, da Tripla, afirma que, na prática, dados sobre consumo hídrico e eficiência energética ainda não são padronizados nem auditados no Brasil. “Mesmo em empreendimentos que anunciam tecnologias limpas, raramente há divulgação de indicadores de consumo por megawatt. A adoção de métricas globais como o WUE (Water Usage Effectiveness) seria um avanço importante para a transparência”, afirma.
Ele também destaca alternativas como o uso de água salina ou dessalinizada para resfriamento, viável em regiões costeiras, mas ainda incipiente no país. “Apesar do potencial, o uso de dessalinização para data centers é apenas teórico no Brasil. Globalmente, países como Finlândia e China já testam até modelos submarinos de grande porte”, completa Gomes.
Energia renovável e estabilidade da rede
A demanda energética dos megaempreendimentos é outro ponto sensível. Embora o Nordeste lidere em geração eólica e solar, o desafio é garantir estabilidade e capacidade de conexão à rede de transmissão. Para Henn, o cenário atual é paradoxalmente favorável, com sobreoferta de energia elétrica no país.
“Os data centers podem até reduzir o curtailment (o corte de geração) de usinas renováveis, absorvendo parte do excedente de produção”, explica.
Já Gomes aponta que ainda não há exigência de vinculação entre a instalação de data centers e o uso comprovado de energia renovável, diferentemente da prática adotada na Europa e nos Estados Unidos.
“Nesses mercados, é comum a assinatura de PPAs (Power Purchase Agreements) com usinas renováveis, o que garante rastreabilidade e neutralidade de carbono. Essa prática ainda precisa avançar no Brasil”, avalia.
Contrapartidas sociais e governança ambiental
Além da geração de empregos e tributos, especialistas defendem que os tais empreendimentos devem oferecer contrapartidas mais estruturadas às comunidades locais, sobretudo em áreas vulneráveis.
Segundo o engenheiro Victor Gomes, empresas têm adotado iniciativas de capacitação, educação tecnológica e revitalização urbana, mas o acompanhamento público é insuficiente.

“Falta um mecanismo governamental que permita ao cidadão acompanhar, em tempo real, indicadores de consumo de água e energia de empreendimentos dessa escala. Transparência é parte da sustentabilidade”, ressalta.
O desafio da integração regional
Mesmo com o forte potencial eólico e solar do Nordeste, o avanço dos data centers exige planejamento integrado de infraestrutura, energia e água , um desafio que vai além de incentivos fiscais.
Para Henn, o caminho passa por monitoramento contínuo das bacias hidrográficas, política coordenada entre Estados, órgãos federais, e setor privado,tanto para água quanto para energia e infraestrutura, que conectem desenvolvimento digital à segurança ambiental.
“O Nordeste está diante de uma oportunidade histórica, mas também de um teste de sustentabilidade. A expansão tecnológica precisa respeitar os limites da natureza regional”, afirma o executivo da Voltera.
Um setor que cresce em velocidade global
Uma análise da McKinsey projeta que os investimentos mundiais em infraestrutura de data centers chegarão a US$ 6,7 trilhões até 2030, sendo a inteligência artificial responsável por cerca de 70% desse total.
O Brasil, que concentra mais de 40% dos investimentos da América Latina, segue esse movimento. Segundo a Grand View Research, o segmento voltado à IA deve saltar dos US$ 491,2 milhões registrados em 2024 para US$ 2,3 bilhões em 2030, com taxa de crescimento anual de 29,5%, entre 2025 e 2030.
Com a expansão acelerada, os riscos também aumentam — da segurança física à proteção de dados. Para Glaucio Silva, diretor da Genetec, empresa especializada em segurança de dados, a demanda por infraestrutura resiliente é crescente. “O avanço da inteligência artificial amplia a necessidade de processar e proteger dados críticos. A segurança passa a ser parte essencial da estratégia”, afirma.
Há de se acrescentar que o crescimento exponencial da inteligência artificial não é apenas demanda de grandes provedores de tecnologia. Segundo o gestor em Segurança de Dados, existe um aumento sem precedentes na necessidade de processar e proteger dados de vídeo, sensores e dispositivos conectados.
“Esse movimento crescente reforça a importância de investir em infraestrutura resiliente e segura, capaz de sustentar operações críticas em escala global”, ressalta Glaucio Silva, que acrescenta que a segurança deixa de ser apenas requisito operacional e passa a ser diferencial estratégico na operação de ambientes complexos e distribuídos, conclui
NÚMEROS DO SETOR
》R$ 571 bilhões — valor total estimado dos cinco projetos aprovados pelo CZPE.
》R$ 108 bilhões — investimentos previstos pela Bytedance até 2035.
》R$ 349 bilhões — investimentos das unidades Exportdata Company.
》3.800 empregos nas obras e 550 na operação (Bytedance).
》Mais de US$ 2 bilhões — investimentos previstos no mercado brasileiro de operação e locação de data centers em 2024.
》US$ 5,9 bilhões — volume de negócios do setor no Brasil até 2030 (Arizton).
》Até R$ 2 trilhões — potencial de mobilização de investimentos em infraestrutura digital no país, segundo estimativas federais.
O QUE DIZ A MP 1318/2025 (PROGRAMA REDATA)
Criado em 2025, o Programa de Racionalização e Eficiência de Data Centers (REDATA) estabelece critérios para novos empreendimentos no país.
Entre os principais pontos:
》Eficiência hídrica: limite de 0,05 litro por kWh consumido.
》Fonte energética renovável: obrigatoriedade de comprovação da matriz limpa.
》Licenciamento ambiental integrado: exige EIA/RIMA com detalhamento sobre uso da água e energia.
》Monitoramento e transparência: prevê a criação de um sistema nacional de informações sobre data centers, ainda em fase de regulamentação.
》Disponibilização mínima de 10% da capacidade de processamento para o mercado interno, assegurando que parte da infraestrutura beneficie diretamente a economia nacional.
》Investimento de 2% do valor dos equipamentos incentivados em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, em parceria com ICTs, universidades ou entidades do ecossistema tecnológico.
》Contrapartida social e regional, com destinação mínima de 40% dos recursos de P&D às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
*Matéria publicada na edição 226 da revista NORDESTE. Acesse aqui pelo APP


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