Profª Dra da USP avalia nível de problema nos 9 estados, aponta efeitos da Transposição e os novos estágios no trato da água

Por Walter Santos

O drama climático e histórico a perseguir os 9 estados do Nordeste ao longo do tempo tem nova abordagem, desta feita por uma especialista em recursos hídricos se aprofundando na Universidade de São Paulo (USP) – centro irradiador de conhecimento. A professora doutora Vanine Farias explica a dura realidade nos 9 estados e perspectiva de futuro. Leia abaixo ou se preferir acesse aqui pelo APP da revista NORDESTE

Revista NORDESTE – Qual a realidade dos recursos hídricos nos 9 estados a dados do último trimestre do ano?
Profª Dra Vanine Farias – Nos estados do Nordeste, o cenário dos recursos hídricos continua desafiador, embora com algumas frentes de alívio. A região sofre historicamente com chuvas irregulares, solos com baixa retenção e altas taxas de evapotranspiração. Mas é importante entender que a “realidade hídrica” do Nordeste não é homogênea, ela varia drasticamente entre o semiárido e a faixa litorânea. Esse último trimestre do ano já é, historicamente, um período da estação seca no interior, quando se registram os níveis mais baixos dos reservatórios. Contudo, 2025 está sendo um ano atípico e severo.

NORDESTE – Como assim?
Vanine Farias – Tivemos um período chuvoso irregular no início do ano, com recarga insuficiente dos açudes e mananciais em muitas regiões. Agora, no final da estiagem, estamos vendo o resultado disso: uma crise aguda. A situação é particularmente grave no Piauí, que enfrenta uma das secas mais severas dos últimos cinco anos. O governo estadual já decretou situação de emergência em diversas cidades, praticamente todo o estado foi afetado. Na Paraíba, o cenário também tem parte dos açudes operando em nível crítico, com volumes muito baixos, o que compromete o abastecimento humano e a irrigação em várias regiões.

NORDESTE – Quais as consequências?
Vanine Farias – Os dados confirmam a seguinte percepção. O Monitor de Secas, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostra nos mapas mais recentes o avanço do que chamamos de “seca extrema”, categoria S3, não só no Piauí, mas também em áreas da Bahia e de Pernambuco.Nesse momento, a resposta tem sido principalmente emergencial. O Governo Federal tem intensificado a Operação Carro-Pipa e liberado recursos para garantir o abastecimento humano mínimo nas áreas mais afetadas.

NORDESTE – Na sua opinião, o que significa obras estruturantes como a Transposição do Rio São Francisco para a sobrevivência humana?


Vanine Farias – Na minha opinião, ela significa, acima de tudo, justiça social e dignidade. A Transposição do Rio São Francisco é um grande divisor de águas na história do semiárido brasileiro. Durante séculos, a vida na região foi definida pela escassez, pela estiagem e pela espera angustiante da chuva ou do carro-pipa. Isso gerava uma lógica de sobrevivência emergencial, de êxodo rural e de dependência política. Eu vejo a transposição como uma chance de quebrar esse ciclo. Ela sai um pouco de uma política de combate à seca para uma convivência com o semiárido. É uma infraestrutura permanente, que traz a garantia da segurança hídrica.

NORDESTE – Como tratar tamanho significado por parte das populações envolvidas?
Vanine Farias – Para mim, sobreviver não é só captar e transportar água. É também conservar, gerir e distribuir com justiça. A infraestrutura é necessária, mas ela por si só não basta se o uso agrícola consome água demais ou se as desigualdades na distribuição persistirem. Para a sobrevivência humana, a obra significa que o acesso à água deixa de ser um privilégio e passa a ser tratado como um direito. O impacto mais transformador é a autonomia produtiva, de permitir que o pequeno produtor possa voltar a plantar e colher. Eu vejo a transposição como um trecho fundamental da solução. Ela é a garantia, mas o futuro da sobrevivência depende de como vamos gerir essa água, com políticas de uso sustentável, governança e educação.

NORDESTE – Celso Furtado foi dos estudiosos quem melhor propôs alternativas para o semiárido a partir de incentivos à economia. Qual sua opinião?
Vanine Farias – Concordo. Acho que um grande mérito de Celso Furtado foi ter feito um diagnóstico que eu julgo correto: o problema do semiárido não era apenas climático, mas também profundamente econômico e social. Ele dissociou o fenômeno natural da seca do problema social da pobreza. Denunciou a chamada indústria da seca, mostrando que as ações emergenciais de combate à seca eram ineficazes e beneficiavam mais a oligarquia local, sem resolver a miséria estrutural. E o que ele propôs com a SUDENE foi o oposto, de conviver com o semiárido. E a forma de fazer isso era através de incentivos à economia, como a industrialização regional e o apoio à agricultura de subsistência, que ele via como o “elo mais fraco” da economia.

NORDESTE – A senhora avalia que é preciso ir além da Transposição com outros ramais?
Vanine Farias – Sem dúvida. A Transposição, como o próprio nome diz, é um projeto de integração de bacias. Ela é a obra principal de engenharia, que traz a garantia de água, levando do São Francisco para grandes reservatórios do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. A engenharia principal está feita. Mas ainda tem a distribuição, como esses ramais, para levar essa água da estrutura principal até os sistemas de abastecimento dos pequenos e médios municípios. Ainda tem municípios que dependem de caminhões da “operação carro-pipa”, aquíferos não integrados, falta de infraestrutura de distribuição e gestão local. Então esse “ir além” que você citou, é ter esses ramais menores, ter sistemas de captação local adaptados às comunidades, fortalecimento da governança local, manutenção e distribuição.

NORDESTE – Há um livro ÁGUA COMO BEM HUMANO a incentivar projeto socioeducativo nos 9 estados junto às áreas de educação e cultura para ensinar as novas gerações a fazer melhor uso da Agua. Como a senhora encara essa proposta?

Vanine Farias – É uma ótima proposta. Eu li o livro recentemente. Nós passamos décadas focados, corretamente, na parte física da água, das grandes obras, a transposição, os açudes, na engenharia e gestão. O que esse projeto acrescenta é a parte humana e cultural, que também é importante. Achei que o livro funcionou bem como um grande tradutor. Ele pega o “tecniquês” das notícias, o jargão das políticas públicas e as pesquisas científicas, e traduz isso tudo para uma linguagem de fácil acesso, para que a população entenda o tema, para que as pessoas se interessem. Mostra o lado de tratar a água não só como um problema técnico, mas como como o título diz: um bem humano, um direito.

NORDESTE – O que a COP 30 pode influenciar como consequência no futuro nordestino?
Vanine Farias – A COP 30, por ser no Brasil, se traduz em uma grande vitrine para o Nordeste. Acho que ela pode influenciar nosso futuro de forma absoluta, sendo um momento em que deixamos de ser vistos apenas como uma região vulnerável e nos apresentamos ao mundo como um território de soluções para a crise climática. Pelo que li, o Consórcio Nordeste levou pautas oficiais em duas frentes: a primeira da Transição Energética, onde o Nordeste já responde por grande parte da energia renovável do Brasil e é o polo da futura economia do Hidrogênio Verde. Além da nossa Caatinga, que, segundo estudos, tem o alto potencial do bioma para capturar e armazenar carbono da atmosfera, com uma possível mudança de perspectiva, que se passe a olhar o bioma não mais como um ecossistema desafiador, mas, sim, como um ativo ambiental e financeiro de grande valor para o Brasil.

NORDESTE – Conceitualmente como definir este instante conjuntural?
Vanine Farias – É um momento que creio que estamos usando essa visibilidade para exigir Justiça Climática. Existem propostas com o fortalecimento da segurança hídrica através de tecnologias sociais e a valorização da bioeconomia da Caatinga, podemos ter uma defesa do protagonismo das comunidades tradicionais, exigindo que os fundos climáticos sejam acessíveis a elas. Então a COP 30 tem sido de fato a nossa chance de atrair fundos internacionais e transformar essa visibilidade em ações concretas, provando que o semiárido tem soluções próprias e sustentáveis para o planeta.

NORDESTE – Como andam as bacias nos nove estados na perspectiva de futuro?
Vanine Farias – A perspectiva de futuro das bacias dos nove estados, eu acredito que é de avanço e transformação. De infraestrutura, com capacidade de armazenamento e regulação, de gestão integrada e adaptativa, olhando a bacia como um todo, integrando águas superficiais e subterrâneas, o uso agrícola e o urbano, e a recarga de aquíferos, de resiliência econômica, inserindo as bacias numa economia que valorize o semiárido. A maior obra de engenharia nós temos, a Transposição, agora continuar lutando para implementar a gestão integrada e adaptativa, para que as bacias sejam, de fato, ativos de desenvolvimento.

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Luciana Leão

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