No Brasil, três quartos dos recursos destinados à mitigação climática baseados em doações — ou seja, 75% de um total de US$ 208 milhões por ano, em média — vêm de apenas dez grandes doadores internacionais. Essa é uma das conclusões do estudo “O Panorama das Doações Climáticas no Brasil”, apresentado parcialmente no painel “Scaling the role of Philanthropy for Climate Action in Brazil”, no Climate Implementation Summit, realizado neste sábado, dia 8 de novembro, em São Paulo. O levantamento completo será divulgado em março de 2026.
Elaborado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), com o apoio da ClimateWorks Foundation, esse é o primeiro estudo já realizado no país que mapeia os recursos para financiamento climático provenientes tanto de instituições filantrópicas quanto de países ricos, a chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD).
Os dados, referentes ao período entre 2019 e 2023, revelam que houve uma estagnação no volume total. Agravado pela suspensão do Fundo Amazônia entre 2019 e 2022, o montante de AOD caiu, mas foi compensado parcialmente pela expansão da filantropia.
Outros biomas esquecidos
O estudo também mostra que, no período analisado, 80% dos recursos foram destinados à Amazônia, que mais atraiu a atenção dos doadores internacionais. Outros biomas, como Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa, continuam subfinanciados. Mesmo dentro da Amazônia, setores estratégicos para uma transição sustentável permanecem carentes de apoio, como energia limpa distribuída, transporte e cadeias produtivas da bioeconomia.
Em relação à distribuição dos recursos por setor, 76% do total (o equivalente a US$ 158 milhões por ano) são destinados ao uso da terra – e, desse percentual, 82% vão para as florestas. Alimentação e agricultura recebem apenas 18%, embora as emissões agrícolas diretas representem 27% da pegada de carbono do Brasil.
O levantamento enfatiza a necessidade de ampliar investimentos para viabilizar cadeias de suprimentos da bioeconomia, sistemas agroflorestais e direitos de posse da terra para povos indígenas e comunidades locais, que podem reduzir as emissões agrícolas e gerar benefícios adicionais em biodiversidade, meios de subsistência e resiliência.
Ainda na distribuição setorial, a energia sustentável recebe apenas 11% das doações (US$ 21 milhões por ano) para a agenda climática, sendo que a maior parte dos recursos provém de AOD. Esse percentual cai para 5% se forem considerados somente os recursos da filantropia.
“O estudo mostra o grande interesse no Brasil sobre o uso da terra e chama a atenção para a necessidade de dar mais importância à energia limpa, às renováveis, e promover essa agenda. Há um foco muito grande no bioma Amazônia, mas não podemos esquecer que o país tem biomas importantes que precisam ser conservados. A Caatinga, bioma único no mundo, está ameaçada. Precisamos ver o Brasil como uma solução global que vai além da Amazônia”, diz Maria Netto, diretora-executiva do iCS.
Participação da sociedade
O estudo também identificou 548 organizações beneficiárias de projetos climáticos no Brasil. Ao mesmo tempo em que esse número elevado revela uma ampla participação da sociedade civil na questão climática, também obriga a uma divisão maior dos recursos provenientes da filantropia. Dois terços das organizações recebem menos de US$ 50 mil por ano, o que acaba limitando o alcance e o impacto de cada uma.
Embora não haja dados centralizados sobre o fluxo de financiamento da filantropia doméstica, ela vem se expandindo e complementando os recursos internacionais. Análises qualitativas apontam que os financiadores brasileiros estão cada vez mais ativos, e com perfil diferente dos estrangeiros.
Enquanto 65% dos financiadores internacionais priorizam florestas, apenas 25% dos brasileiros o fazem. Em contrapartida, 45% das instituições nacionais investem em engajamento público, contra 20% dos doadores internacionais — um reflexo do papel da filantropia doméstica na mobilização social e na governança participativa.
“A filantropia tem um papel importante, catalítico, de trabalhar com populações mais vulnerabilizadas que não têm acesso a recursos. No iCS, trabalhamos para criar ecossistemas em torno da agenda de restauração, por exemplo. Mecanismos que incentivem o agricultor a querer mudar a forma de fazer para também restaurar. Ele precisa ter financiamento inovador e ter acesso a mercados, que sejam tanto de créditos de carbono quanto de produtos. Não estamos falando de quantidade, e sim de qualidade”, acrescenta a diretora-executiva do iCS.
Diversificar a base de financiadores é o caminho
O levantamento conclui que o Brasil tem grandes oportunidades para mudar a curva global de emissões, proteger ecossistemas e fortalecer a resiliência climática.
Para que isso aconteça, porém, faz algumas recomendações: diversificar a base de financiadores, ampliando a filantropia doméstica e corporativa; priorizar soluções lideradas por comunidades, povos indígenas e quilombolas; ampliar o foco setorial para energia sustentável, transporte, economia circular e resiliência urbana; e aumentar o investimento em adaptação climática, ainda subfinanciada em relação à mitigação.
“O estudo é importante para o Brasil, que reúne tanto desafios como soluções para a agenda climática”, diz Surabi Menon, vice-presidente da ClimateWorks Foundation.
Fonte: Instituto Clima e Sociedade (iCS)

