Pesquisa coordenada por músicos-pesquisadores traça um mapeamento inédito das festas juninas comunitárias e propõe caminhos para salvaguardar manifestações culturais ameaçadas pela espetacularização
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Por Luciana Leão
De forma inédita, músicos-pesquisadores pernambucanos elaboraram um inventário que reúne aspectos e indicadores relevantes do forró tradicional no interior do estado. O objetivo é subsidiar políticas públicas de salvaguarda, apoio, fomento e difusão da manifestação cultural.
A Revista Nordeste conversou com o coordenador da pesquisa, o músico e pesquisador Climério de Oliveira Santos.
Revista Nordeste – Como o senhor enxerga a transformação das festas juninas em megaeventos comerciais no Nordeste?
Climério de Oliveira Santos -A sua pergunta é muito pertinente, é da ordem do dia. Para falar nessa “transformação das festas juninas em megaeventos comerciais no Nordeste”, como você bem assinala, é imprescindível retratar a festa – isto é, enunciar as festas juninas comunitárias e a sua importância – para, em seguida, questionar o modelo de mega espetáculo que vem sendo construído.
As festas juninas tradicionais no Nordeste são celebrações comunitárias que nascem das culturas populares locais, no meio rural e em pequenas cidades. São marcadas pelo fortalecimento de laços socioculturais e identitários, pela celebração da fertilidade da terra e das pessoas, e também pela valorização da prosperidade das comunidades. Os sentidos comunitários da festa se manifestam na união, na familiaridade, no bem-viver (alimentação, alegria, vitalidade), na espiritualidade (ancestralidade, esperanças por dias melhores, agradecimentos).
Esses sentidos são mantidos vivos por meio de símbolos como a culinária artesanal à base de milho e de outros alimentos, a fogueira, a música, a dança, brincadeiras, etc. As práticas se concentram em torno das festas do calendário – que eram em palhoções, em salões de clubes/escolas/associações–, e das pequenas festas que ocorrem nos dias que intercalam as datas principais e que são realizadas nas casas das famílias das comunidades.
A temporada junho-julho tem seus picos na dupla véspera-dia em que se celebram os santos católicos vinculados aos festejos – Santo Antônio (12 e 13/06), São João (23 e 24/06), São Pedro (28 e 29/06) e Sant’Ana (25 e 26/07) –, culminando com a festa de São João, que também denomina o conjunto das festas.
Vale salientar que as festas também têm um forte pilar na inclusão social e na tolerância, o que se evidencia na coexistência de festas e ritos religiosos católicos, afro-brasileiros e indígenas em torno das referidas datas. No dia 24 de junho o povo Xukuru celebra encantados da Jurema Sagrada e os terreiros afro-brasileiros celebram Xangô (celebrado também em 29/06 e em 30/09), como também Nanã Buruquê (em 26/07).
Em todos esses casos, as músicas tomam parte nos fundamentos da festa, tanto nos momentos profanos como religiosos: o coco, os batuques, as bandas de pífanos ou cabaçais, o Forró e seus subgêneros, os torés e toantes indígenas e outras. Todas essas vertentes culturais são participativas, ou seja, você não só assiste, mas também participa ativamente do patrocínio (rateado), da organização, da música, da dança, do fazer culinário, etc.
O crescimento e suas transformações

Ao longo do tempo, ocorreu o crescimento das cidades do interior e o que era festa comunitária foi sendo apropriada por empresários do entretenimento e transformada em produto de consumo focado no entretenimento. Além disso, as festas juninas foram levadas para as cidades de médio e grande porte.
Transformadas em negócios milionários, as festas juninas traduzidas em megaeventos foram deixando de lado os seus aspectos historicamente construídos – músicas tradicionais, dança de casal, brincadeiras, a dialética do profano/religioso e especialmente o fazer participativo. Isso mesmo: a nossa experiência do fazer já vinha sendo esvaziada pela sociedade do espetáculo e da tecnologia da pilhagem, fenômeno que a IA está ultra acelerando agora.
Pesquisa

Entretanto, como constatamos na pesquisa Inventário do Forró Tradicional no Interior de Pernambuco, coordenada por Climério de Oliveira Santos (este que vos escreve) e mais dois colegas pesquisadores (Carlos Sandroni e Amílcar Bezerra), esse maravilhoso universo intercultural das festas Juninas está vivo.
Acontece que ele vem sendo silenciado e mascarado, em parte, devido à valorização dos mega espetáculos pop em detrimento da diversidade cultural participativa. E aqui não estou falando mal das gestões públicas atuais de Caruaru, Campina Grande, Petrolina, Salvador-BA, Jequié-BA, Mossoró-RN… não.
A discussão envolve a sociedade, não somente os gestores
Esse é um problema que começou na década de 1980, cresceu bastante e é um problema não só de gestores, mas da nossa sociedade como um todo, em âmbito local, regional, nacional e também mundial. Portanto, não podemos negar que os gestores públicos têm um papel protagônico nesse processo, uma vez que eles estão no comando da realização e, em grande parte, do orçamento empregado na festa.
Em que pese o protagonismo dos promotores da festa, uma grande parte da população está engajada como consumidora do mega espetáculo tido como “moderno” e outra grande parte, embora não concorde com esse formato, não se engaja nas lutas pela prevalência das tradições culturais.

Mas há também uma crescente parcela da população que está engajada na luta pela valorização da festa nos moldes tradicionais, a exemplo dos integrantes do Fórum Nacional Forró de Raiz, que têm representação em 14 estados brasileiros e no Distrito Federal, além de políticos, intelectuais, empresários e dos públicos que amam a cultura popular e prezam pela identidade da festa tradicional.
Contudo, apesar da crescente espetacularização e do interesse comercial, as nossas ricas tradições (os seus símbolos visuais e sonoros) ainda permanecem importantes para o Nordeste, suas comunidades, famílias e sua identidade regional. E nós estamos não só resistindo, mas reexistindo, construindo.
NORDESTE – Quais são os riscos para a tradição do forró e das manifestações culturais regionais?
Climério de Oliveira Santos – O problema crucial é que nós aprendemos a ser colonizados, a ter mentes colonizadas (colonialidade), a ter prazer usando o que nos suga e nos esvazia dos significados que construímos. Paralelamente, estamos abrindo mão e, muitas vezes, desprezando o nosso valoroso manancial cultural participativo, em prol da passividade que caracteriza o consumo de “mega seja lá o que for”, que, em grande medida, são comportamentos oriundos de “outras praças”.
É por isso que eu afirmo que não é um problema de um ou outro prefeito, de um ou outro gestor público. Eles estão envolvidos no processo de colonialidade mega espetacular, mas nós, da população em geral, também estamos. Precisamos de um debate amplo e geral sobre tudo isso. Se a população reivindicar, dialogar, reconhecer o seu próprio valor enquanto nação diversificada e não uni-nação, os dirigentes vão ter que responder, vão ter que se envolver.
E muitos já se envolvem, reconhecem os saberes e os valores das comunidades tradicionais, como os últimos prefeitos e outros gestores públicos da cidade do Recife. É óbvio que ainda têm muito a fazer, a reconhecer, mas o São João do Recife já tem servido de exemplo para comprovar que a festa pode ser grande e inclusive gerar votos.
Essa movimentação começou na gestão do prefeito João Paulo (então do PT), mas continua até hoje, na gestão do prefeito João Campos (do PSB), o que mostra que o reconhecimento da festa em seus sentidos tradicionais tem perpassado diferentes partidos e grupos políticos.
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NORDESTE – Que tipo de política pública seria necessária para garantir espaço e valorização dos artistas tradicionais?
Climério de Oliveira Santos – A política perpassa todos e tudo numa sociedade. Falo da POLÍTICA enquanto movimentação em torno do bem comum, de valores comunitários. A POLÍTICA que pode gerar políticas públicas em benefício da nossa sociedade, que deve ser reconhecida em sua diversidade.
As festas juninas são de uma sociedade plural, portanto não podem ficar sob o usufruto de poucos em detrimento de muitos. As políticas públicas devem democratizar os recursos, os espaços, a promoção, difusão e salvaguarda dos saberes e das práticas tradicionais.
Devem construir escolas e cursos de pífanos, de fole de oito baixos e de rabeca (os musicistas dessas três categorias de instrumentos musicais são discriminados nos festejos atualmente); devem reservar cotas de espaços para as pessoas que fazem as músicas tradicionais (forró, coco e outras); devem criar novos espaços (festivais, encontros, debates, oficinas) e investir na visibilidade dos detentores de saberes e práticas tradicionais; devem investir na formação de protagonistas das comunidades de saberes; financiar instrumentos musicais.
Dois elementos centrais: a FESTA e a EDUCAÇÃO

Eu quero começar pela festa comunitária (o São João da Fazenda São Miguel, em Serra Talhada-PE, é um bom exemplo), pois ela envolve diversos fazeres fundamentais no seu entorno e na sua realização. As festas comunitárias existem e devem ser apoiadas com editais que contemplem: oficinas de realização de festas tradicionais; apoio, financiamento/patrocínio para a realização de festas, mas de um modo que elas possam continuar autossustentáveis.
Além disso, as grandes festas públicas devem ser transformadas: a) devem engajar a população para que a festa se torne comunitária; investir em estruturas de médio porte, mas com equipamentos de alta qualidade, adequando-os às necessidades dos forrós tradicionais; substituir os mega shows de grupos pop por shows de grupos/artistas das músicas tradicionais; descentralizar mais a festa, evitando a ideia de “palco principal” (mais prestigiado) e palcos secundários (muitos deles desprestigiados, mal servidos, mal divulgados); e eliminar as desigualdades exorbitantes no tocante aos cachês, pois há grupos que recebem alguns mil reais e outros que chegam a receber por volta de um milhão de reais – um absurdo!
Os poderes Legislativo e Judiciário devem ser mobilizados pela população para entrarem em campo e engajarem-se nessa transformação.
Educação
O outro elemento estratégico é a EDUCAÇÃO. As políticas públicas devem organizar e promover escolas, cursos e oficinas voltadas para as diversas práticas ligadas às festas. As políticas públicas devem financiar pesquisas, sobretudo aquelas que propõem a participação de musicistas e outros detentores dos saberes que possam integrar as equipes de pesquisadores; a pesquisa deve estar ao alcance de todos; uma criança pesquisadora se transforma em protagonista.
Os meus alunos são pesquisadores e, não raro, eles acabam buscando, aprendendo e me ensinando; eles assim deixam de ser passivos diante do empreendimento que tenta lhes esvaziar dos próprios valores. As políticas devem fomentar encontros e debates acerca da equidade de gênero, dos laços de união nas famílias, do cuidado com as mulheres, as crianças, os idosos; a inclusão de minorias raciais; devem também educar as pessoas (das diversas faixas etárias) para terem uma visão analítica, isto é, capacitar a sociedade para analisar e avaliar as informações que lhes alcançam, os fatos e atos ao redor e para a busca de novos horizontes.
Tudo isso gravita em torno das festas juninas e da educação, do Forró tradicional e de outras tradições irmãs. Vamos chamar os gestores públicos, os empresários, as mães, os pais, os filhos(as) e, principalmente, os/as professores(as) para o diálogo. Vai dar certo! É isso que estamos propondo no Relatório do Inventário do Forró Tradicional no Interior de Pernambuco, uma pesquisa sobre as matrizes tradicionais, que contou com uma equipe de dezoito pessoas, percorreu doze municípios, foi patrocinada pelo Funcultura (Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco) e teve parceria com o IPHAN (Superintendência Regional de Pernambuco).
O povo do Forró há muito deixou para trás a esperança passiva e aprendeu a “esperançar”, como traduziu Paulo Freire, ou seja, aprendeu a cantar-dançar a sua esperança ativa, a agir para concretizar os sonhos e lutas.

