Com participação ainda tímida no comércio exterior, o Nordeste acompanha com atenção os efeitos das políticas tarifárias propostas por Donald Trump. Economista Jorge Jatobá, analisa riscos e caminhos possíveis diante de um cenário de guerra comercial. Leia abaixo ou acesse pelo APP da revista NORDESTE
Por Luciana Leão
A guerra tarifária imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acirrou os ânimos no comércio internacional. Em meio a uma possível guerra comercial, economistas e exportadores brasileiros observam com cautela os desdobramentos, especialmente no Nordeste, cuja participação no comércio exterior tem crescido nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios estruturais.
Na análise do economista e Doutor em Economia Jorge Jatobá, sócio da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, além de professor titular da UFPE, em entrevista exclusiva à NORDESTE, as medidas tarifárias propostas por Trump representam uma ruptura com a ordem econômica internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Ele classifica essa política como “incompreensível” e alinhada a uma versão contemporânea do neomercantilismo, com impactos similares aos da década de 1930, quando políticas protecionistas agravaram a Grande Depressão.
“Essa postura desorganiza o comércio mundial, interfere nas cadeias produtivas globais e gera instabilidade. É uma estratégia que Trump usa para barganhar, mas cria ruído econômico significativo”, explica Jatobá. “É desprovida de uma lógica econômica com uma conotação egocêntrica e um nacionalismo exacerbado” completa o economista.
Nordeste: pequena participação, grandes riscos

Dados de 2024 mostram que a região Nordeste respondeu por apenas 7,58% das exportações brasileiras, com US$ 25,18 bilhões. Já nas importações, a região ocupou a terceira posição nacional, com 10,92%, totalizando US$ 28,71 bilhões.
Embora esses números indicam uma participação relativamente modesta no panorama nacional, os efeitos locais podem ser expressivos.

Os Estados Unidos e a China são os dois principais parceiros comerciais da região. Em relação aos EUA, o Nordeste mantém déficit comercial, ou seja, importa mais do que exporta. Já com a China, há quase um equilíbrio entre exportações e importações.
A imposição de tarifas sobre qualquer um desses produtos — direta ou indiretamente, via acordos comerciais com países asiáticos ou europeus — pode afetar a competitividade dos exportadores locais.
Efeitos de uma guerra comercial
Segundo Jatobá, guerras comerciais não têm vencedores. “Todos perdem. O custo de vida sobe, os mercados se retraem, e os países tendem a se fechar, reduzindo oportunidades de negócios internacionais.”
Ele alerta ainda para a possibilidade de desova de produtos chineses no Brasil como resposta às barreiras dos EUA, o que poderia pressionar a indústria nacional, sobretudo setores mais vulneráveis do Nordeste.
“A baixa participação do Nordeste na balança comercial brasileira reduz o impacto imediato das tarifas propostas pelos EUA. Ainda assim, é preciso atenção ao risco de desova de produtos chineses e à vulnerabilidade da indústria regional.”
Caminhos possíveis para o Brasil e o Nordeste
Jatobá acredita que o Brasil pode sair menos prejudicado neste cenário por ainda manter uma economia relativamente fechada — algo que, paradoxalmente, hoje se mostra um “amortecedor”, um escudo parcial.
“Isso não é mérito, mas acaba servindo de contenção em um cenário conturbado”, observa o doutor em Economia e professor titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“Nossa produção industrial é consumida em grande parte no mercado interno, exceto, as commodities. Então, diria que, neste momento, é um fator favorável”, explica. Contudo, ele defende que é hora de ampliar parcerias comerciais, diversificar a pauta e revisar políticas externas.
“O Brasil precisa aprofundar acordos com outros blocos como o Mercosul, Ásia e África e se posicionar estrategicamente. O Nordeste, por sua vez, deve apostar em infraestrutura portuária e logística, inovação tecnológica e ampliação da pauta exportadora com outros países a partir de alianças.”

