Por Luciana Leão, coluna Valor Sustentável
Durante muito tempo, o saneamento básico foi tratado no Brasil como uma agenda restrita à saúde pública. Mas os dados mais recentes mostram que essa visão ficou ultrapassada. Hoje, água tratada, coleta e tratamento de esgoto são também indicadores diretos da capacidade de uma cidade gerar valor, atrair investimentos e sustentar crescimento.
O Ranking do Saneamento 2026, divulgado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, reforça essa leitura ao expor não apenas as carências estruturais do país, mas principalmente o custo econômico de ignorá-las.
A desigualdade é evidente. Entre os 20 municípios mais bem colocados, a coleta de esgoto chega a 98,08%. Nos 20 piores, despenca para 28,06%. No tratamento, a distância também é expressiva: 77,97% contra 28,36% . Não se trata apenas de infraestrutura. Trata-se de competitividade.
Cidades que operam com níveis tão baixos de saneamento convivem com maior incidência de doenças, perda de produtividade, pressão sobre o sistema de saúde e desvalorização imobiliária. Em termos econômicos, isso se traduz em menor capacidade de atrair empresas, investimentos e oportunidades.
No Nordeste, o retrato é ainda mais desafiador e, ao mesmo tempo, revelador. Recife, Paulista e Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, além de João Pessoa (PB), estão entre os piores desempenhos no atendimento de água, mostrando que nem mesmo o serviço mais básico está plenamente consolidado em grandes centros urbanos.
Esse dado é particularmente simbólico. Sem segurança hídrica, não há ambiente estável para expansão industrial, crescimento urbano ordenado ou atração de novos negócios. O básico passa a ser, na prática, um limitador estrutural.
Ao mesmo tempo, o próprio ranking mostra que esse cenário não é imutável. Teresina foi o município que mais avançou no país em 2026, com ganho de 14 posições, impulsionado pela ampliação da cobertura de esgoto e pela redução de perdas. O caso demonstra que, quando há planejamento, investimento e gestão eficiente, os resultados aparecem e relativamente rápido.
Essa relação entre investimento e desempenho é direta. Nos municípios com pior colocação, o investimento médio foi de apenas R$ 77,58 por habitante, muito abaixo dos R$ 225 considerados necessários para universalização . Ou seja, o atraso não é apenas histórico; ele continua sendo reproduzido no presente.
Por outro lado, há sinais de mudança. Capitais nordestinas começam a aparecer com desempenhos relevantes em indicadores específicos, como o tratamento de esgoto, além de volumes expressivos de investimento, caso de Fortaleza. Ainda são avanços pontuais, mas indicam uma possível inflexão.
É nesse ponto que o saneamento deixa de ser apenas uma agenda social e passa a ocupar um papel estratégico. Em um mundo cada vez mais orientado por critérios ESG, não há espaço para cidades que negligenciam condições básicas de habitabilidade. O acesso à água e ao esgoto tratado deixou de ser apenas uma questão de dignidade. É também um requisito de mercado.
Como destaca Luana Siewert Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, o maior desafio segue concentrado no esgoto, ainda distante da universalização. Ao mesmo tempo, os casos de sucesso mostram que o avanço é viável quando há continuidade de políticas públicas e priorização do tema.
Na mesma linha, Gesner Oliveira, da GO Associados chama atenção para um ponto crucial: a melhora média dos indicadores nacionais muitas vezes esconde a profunda desigualdade entre municípios. Enquanto alguns avançam de forma consistente, outros permanecem estagnados.
Essa é, talvez, a principal mensagem do ranking.
O Brasil não enfrenta apenas um déficit de saneamento. Enfrenta um déficit de visão sobre o papel do saneamento no desenvolvimento. E isso se torna ainda mais crítico em regiões como o Nordeste, onde o potencial de crescimento convive com limitações estruturais persistentes.
No fim das contas, o saneamento é um ativo invisível. Não aparece nas vitrines das cidades, mas define, de forma silenciosa, o seu valor.
E, em um cenário de crescente disputa por investimentos, cidades que não resolvem o básico dificilmente conseguirão competir pelo futuro.

