Pernambuco, Bahia e Ceará estruturam um cinturão industrial voltado à mobilidade do futuro, em meio a desafios de infraestrutura, energia e à transição do modelo de incentivos fiscais
Por Luciana Leão
O movimento de reindustrialização do Nordeste no setor automotivo passa, hoje, por três eixos estratégicos que se complementam e ajudam a preencher lacunas históricas da cadeia produtiva nacional. De um lado, o Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco, que se prepara para um novo salto com a chegada da chinesa Leapmotor; de outro, o Complexo Automotivo da também chinesa BYD, em Camaçari, na Bahia, atualmente o maior investimento do setor no país; e, em formação, o Polo Automotivo do Ceará (PACE), de perfil multimarcas, voltado à mobilidade limpa e à reutilização de ativos industriais.

Em estágio de consolidação, o Polo Automotivo do Nordeste vem sendo desenhado a partir de iniciativas industriais distintas, mas interligadas por uma lógica de longo prazo. A avaliação é do economista e consultor Armando Avena, ex-secretário de Planejamento da Bahia, que enxerga o atual movimento como uma fase de “construção estrutural”, semelhante ao que ocorreu com o polo de Camaçari, que ao longo dos anos extrapolou a indústria automotiva e passou a irradiar tecnologia, inovação e serviços especializados.

Desde que foi inaugurada, no dia 9 de outubro de 2025, a fábrica da BYD, onde funcionava a Ford, já soma uma produção próxima de 20 mil veículos dos modelos Dolphin Mini, King e Song Pro. Para este ano, a estratégia da BYD passa pela expansão da produção em Camaçari, incorporação de fornecedores locais e operação das fábricas de soldagem, estamparia e pintura.
“Em 2026, a produção de Camaçari será mais uma vez decisiva para que a BYD continue a ser competitiva em termos de preços frente à concorrência, após o fim dos incentivos tarifários às importações”, destaca Alexandre Baldy, vice-presidente Sênior e Head Comercial e Marketing da BYD Auto do Brasil.
Foco na infraestrutura
Segundo Avena, os projetos em operação e em formação, como Goiana (PE), Camaçari (BA) e o novo polo multimarcas no Ceará, precisam ser pensados dentro de uma estratégia de integração regional. Para isso, ele aponta que a prioridade dos estados e do governo federal deve ser o investimento contínuo em infraestrutura logística, especialmente rodoviária e portuária.
“O principal desafio é a infraestrutura. Quando essas obras estruturantes se consolidam, os polos deixam de ser ilhas produtivas e passam a formar um cinturão de integração estratégica”, avalia.
Na visão do economista, projetos como o Arco Metropolitano, em Pernambuco, e a melhoria de eixos rodoviários estratégicos na Bahia, como as BRs 324 e 116, são fundamentais para fortalecer a integração interestadual e ampliar a competitividade do Nordeste frente ao eixo Sul-Sudeste, onde se concentra o maior mercado consumidor do país. A lógica, segundo ele, é de complementariedade entre estados, e não de competição isolada.

Outro ponto sensível, mas que deixou de ser um gargalo estrutural, é a qualificação da mão de obra. Avena cita o caso da fábrica da Stellantis, em Goiana, que ao longo dos anos desenvolveu uma autocapacidade técnica local. Para ele, a circulação de profissionais entre estados e até países não representa um problema, mas sim um ganho. “A troca de conhecimento fortalece o ecossistema industrial. A mão de obra já não é um impeditivo”, afirma.

No Ceará, o novo polo automotivo nasce com a proposta de diversificação e adensamento da cadeia produtiva. A Plataforma Automotiva do Ceará (PACE) foi fundada pelo Grupo Comexport, considerado o maior grupo de comércio exterior e supply chain do Brasil. Por meio dela, operam no país empresas como Mercedes-Benz, Honda, BYD, GWM, Renault, Ford, entre outras.
O Chevrolet Spark EUV será o primeiro modelo produzido na PACE, conforme anúncio da General Motors (GM). A fase inicial será realizada na modalidade SKD (Semi Knocked-Down), em que o veículo chega parcialmente montado em kits, com planejamento futuro de nacionalização integral da produção. Para o futuro próximo, a GM também confirmou a produção de um novo modelo no polo cearense: a Chevrolet Captiva, um SUV 100% elétrico.
Na inauguração da planta, em 3 de dezembro de 2025, o governador do Ceará, Elmano de Freitas, destacou o compromisso com o fortalecimento da cadeia produtiva nacional. “É uma planta que nasce com 35% de seus componentes nacionais e que tem a meta de aumentar esse índice para que tenhamos uma verdadeira indústria vinculada a essa cadeia produtiva”, afirmou, ao agradecer a confiança dos acionistas no Estado.
Ambiente de negócios em transição
Apesar do otimismo com a base produtiva e com o potencial de expansão, Avena reconhece que o ambiente de negócios atravessa um período de transição sensível, especialmente com a implementação da reforma tributária.
Na sua avaliação, há um paradoxo a ser administrado pelos governos estaduais e pelo governo federal: ao mesmo tempo em que os incentivos fiscais tendem a ser gradualmente reduzidos, entra em cena o Fundo de Compensação, que ainda precisa demonstrar, na prática, sua capacidade de neutralizar perdas regionais. Ainda assim, ele não vê a reforma como um bloqueio definitivo aos investimentos, desde que a infraestrutura avance de forma consistente.
A questão energética surge como outro ativo estratégico do Nordeste. Líder nacional em geração eólica e solar, a região reúne condições naturais favoráveis para atrair montadoras voltadas à nova mobilidade, como BYD e Leapmotor. No entanto, Avena alerta para a necessidade de maior segurança jurídica no setor, lembrando episódios recentes de cortes de geração que afetaram a confiança de investidores.
“A abundância de energia limpa é uma vantagem competitiva real, mas precisa ser acompanhada de estabilidade regulatória e articulação política para fortalecer o ecossistema”, destaca.
Alerta Tributário

Se, do ponto de vista estrutural, os desafios passam por infraestrutura, energia e integração regional, no campo tributário o alerta é mais técnico e imediato.
Para Pedro Vilella, sócio-diretor da Alfredo Vilella Consultoria Empresarial, especializada na concessão de incentivos fiscais em toda a área da Sudene, a reforma tributária introduz um novo grau de cautela nas decisões de investimento da indústria automotiva, setor intensivo em capital e de planejamento de longo prazo.
Segundo ele, os incentivos fiscais sempre tiveram papel central na decisão de localização dos investimentos industriais no Nordeste. “É verdade que a região avançou em infraestrutura, qualificação de mão de obra e oferta energética, mas, no setor automotivo, intensivo em capital e com cadeias produtivas longas, o diferencial tributário ainda exerce forte influência”, afirma.
Vilella destaca que nem todos os incentivos deixam de existir com a reforma, como a redução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), mas chama atenção para um impacto recente e relevante: “Os empreendimentos que passam a usufruir desses incentivos a partir de 2026 já estarão submetidos às novas regras da Lei Complementar nº 224/2025, que reduziu em 10% o montante dos benefícios fiscais”.
Apesar da previsão de mecanismos compensatórios no novo modelo tributário, o consultor ressalta que ainda não está plenamente claro se essas medidas serão suficientes para equilibrar o aumento da carga tributária efetiva. Esse cenário de transição, combinado com a redução recente dos incentivos, tende a tornar os investidores mais cautelosos no curto e médio prazo.
Na sua avaliação, projetos já anunciados ou em fase avançada de implantação não devem ser diretamente comprometidos, pois já internalizam o novo ambiente tributário. O impacto maior recai sobre projetos futuros, especialmente aqueles cujo horizonte de implantação ultrapasse a fase de transição da reforma.
Mesmo reconhecendo os avanços do Nordeste, Vilella pondera que ainda existe um distanciamento estrutural em relação às regiões Sul e Sudeste. Ativos como o Complexo Industrial Portuário de Suape, o Porto do Pecém, a expansão das energias renováveis e o avanço da Transnordestina fortalecem a região, mas, isoladamente, não compensam todas as diferenças competitivas.
“Os incentivos fiscais continuam entre os principais fatores para a manutenção e ampliação das operações industriais no Nordeste”, observa.
No contexto da transição para veículos elétricos e híbridos, ele avalia que o peso dos incentivos muda parcialmente. Acesso à energia limpa, inovação e previsibilidade regulatória ganham relevância, favorecendo o Nordeste, mas os incentivos seguem sendo fundamentais, sobretudo na fase inicial de atração das montadoras e de seus fornecedores estratégicos.
O pano de fundo desse movimento é um cenário nacional ainda desafiador. Em 2025, a indústria brasileira cresceu apenas 0,6%, pressionada pelos juros elevados, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE.
O segmento automotivo, inclusive, registrou retração relevante no fim do ano. Ainda assim, mesmo diante desse ambiente adverso, o Polo Automotivo do Nordeste projeta expectativas positivas para 2026, ancoradas em novos investimentos, na transição energética e no adensamento da cadeia produtiva regional.
Para Vilella, a reforma tributária pode representar uma oportunidade de estimular maior conteúdo nacional e integração industrial, desde que a regulamentação seja bem calibrada e acompanhada de políticas complementares.
“Para um setor que trabalha com planejamento de longo prazo, previsibilidade e segurança jurídica são tão relevantes quanto qualquer incentivo financeiro”, conclui.
*Matéria publicada na edição 229 da revista NORDESTE

