Com Lula forte na disputa presidencial, estados do Nordeste entram em 2026 marcados por disputas locais, alianças pragmáticas e uma corrida ao Senado que reorganiza palanques e antecipa conflitos
Por Luciana Leão
As articulações políticas para 2026 no Nordeste ganharam forma muito antes da definição dos palanques nacionais. Governadores, ex-governadores, herdeiros políticos e novas lideranças já se movimentam em disputas locais marcadas por alianças instáveis, conflitos familiares e rearranjos partidários.
O apoio ao presidente Lula continua relevante, mas já não organiza automaticamente os palanques estaduais. Antes de definir projetos nacionais, o Nordeste discute quem controla o poder em cada território.
Um raio-x das disputas estaduais
Pernambuco vive uma polarização de longo curso entre dois campos politicamente tradicionais, mas com estratégias distintas de atualização. De um lado, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), herdeiro direto do legado de Miguel Arraes– Eduardo Campos, aposta em capital simbólico, comunicação e projeção nacional.

Do outro, a governadora Raquel Lyra (PSD), também oriunda de uma linhagem política relevante, filha do ex-vice-governador João Lyra e sobrinha de Fernando Lyra, busca consolidar uma imagem de gestora e ampliar alianças no centro político. O embate não é entre novo e velho, mas entre diferentes formas de administrar heranças políticas.

Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal

Em Alagoas, o quadro se revela mais explícito de disputa entre grupos familiares consolidados. Os Calheiros, liderados respectivamente por pai e filho, senador Renan Calheiros e o ministro dos Transportes Renan Filho, enfrentam a influência dos Lira, capitaneados pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira.
No meio do tabuleiro, o prefeito de Maceió, JHC, surge como uma incógnita eleitoral ainda indefinida: bem avaliado na gestão, mantém em aberto se disputará cargo majoritário ou se atuará como fiador de outra candidatura, o que pode reordenar alianças no estado.

O Ceará vive uma pré-disputa marcada mais pela consolidação do poder do que pela transição. O atual governador Elmano de Freitas (PT) é candidato à reeleição e busca fortalecer seu mandato em meio à reorganização das forças que comandaram o estado nas últimas décadas.
Nesse cenário, o ex-governador Ciro Gomes é apontado como pré-candidato pelo PSDB, mas sem o apoio do irmão, o senador Cid Gomes, que já declarou apoio à reeleição de Elmano e ao presidente Lula. A influência do grupo dos Gomes, portanto, aparece hoje fragmentada.
Ao mesmo tempo, o senador licenciado e atual ministro da Educação, Camilo Santana já anunciou que deixará o governo federal para coordenar a campanha de reeleição de Lula e de Elmano, reforçando o alinhamento entre o projeto nacional petista e a disputa estadual cearense.
A Bahia vive uma disputa de natureza distinta, mas igualmente estratégica. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) tenta consolidar seu primeiro mandato sob a influência do capital político acumulado pelo ex-governador e atual ministro da Casa Civil Rui Costa e do peso histórico do carlismo, hoje reorganizado em torno de ACM Neto.


Questões sensíveis, como a segurança pública, tendem a ocupar o centro do debate eleitoral, testando os limites da transferência de prestígio de Lula e a capacidade do PT de manter sua hegemonia estadual frente a uma oposição estruturada e competitiva.
Esses quatro estados ilustram uma tendência regional: o peso dos clãs permanece, mas já não garante unidade automática nem ausência de conflitos.
A leitura é reforçada pelo cientista político Hely Ferreira, que ressalta que a coesão eleitoral do Nordeste se manifesta de forma clara apenas na disputa presidencial.
“As pesquisas mostram que, hoje, Lula venceria com folga em todos os estados da região, mas isso não significa que os governadores eleitos estarão politicamente alinhados com ele”, afirma.
O Senado como epicentro da eleição
Se a disputa pelos governos estaduais tende a ser dura, a corrida eleitoral pelo Senado promete ser ainda mais intensa e, em muitos casos, mais decisiva. Com duas vagas em jogo por estado, o Nordeste concentra uma quantidade inédita de candidaturas competitivas.



Ministros do governo Lula como, Rui Costa, Camilo Santana e Silvio Costa Filho, avaliam deixar cargos estratégicos para disputar mandato no Congresso ou mesmo assumir outros desafios na eleição de 2026.

Ao mesmo tempo, governadores bem posicionados, como Carlos Brandão, do Maranhão, consideram o Senado como alternativa política. Essa sobreposição antecipa crises de sucessão, pressiona vices e transforma a eleição para o Senado Federal no principal motor de tensão dentro da base governista.
Na prática, a campanha para o Senado já reorganiza palanques e pode se tornar mais tensa e conflituosa do que a própria disputa pelos governos estaduais.
Para Hely Ferreira, esse movimento não se restringe ao Nordeste. “A eleição para o Senado vai ser palco central no Brasil como um todo”, avalia.
Ele destaca que, em um ambiente de forte polarização política, tanto governo quanto oposição veem a composição do Senado como decisiva. Hoje, o governo encontra mais facilidade para aprovar projetos no Senado do que na Câmara, o que amplia o interesse em fortalecer sua base ali.
“São duas vagas em disputa, com mandato de oito anos, em um cenário de forte polarização. Há uma preocupação clara tanto do governo quanto da oposição em fortalecer o Senado”, analisa.
Segundo ele, o interesse é também institucional: “É no Senado que avançam projetos estratégicos do Executivo e onde podem tramitar processos sensíveis, como pedidos de impeachment de ministros do STF”.
A eleição presidencial e os apoios cruzados
No plano nacional, Lula segue liderando as intenções de voto no Nordeste, segundo pesquisas recentes, mas o cenário é mais fragmentado do que em 2022.
Embora o presidente mantenha forte capital eleitoral na região, sua capacidade de organizar palanques estaduais encontra limites.
“A força de Lula é dele, não necessariamente dos candidatos que ele apoia”, observa Hely Ferreira, lembrando que, em disputas recentes, nomes apoiados diretamente pelo presidente não conseguiram traduzir esse respaldo em vitória local. O apoio ao presidente continua elevado, porém cada vez mais dissociado da obrigação de alinhamento integral nos estados.
Para Hely, as alianças cruzadas quer sejam, explícitas ou veladas, fazem parte da lógica política brasileira e tendem a se intensificar em 2026, especialmente diante da proibição de coligações proporcionais.
“Lula é importante no Nordeste, mas não é decisivo. Os palanques são montados a partir de interesses locais”, reforça o cientista político.
Governadores e candidatos locais buscam preservar a imagem de proximidade com Lula, ao mesmo tempo em que constroem alianças com partidos de centro e até com setores que orbitam a oposição nacional.
O resultado é um quadro de apoios ambíguos, em que o apoio a Lula funciona como ativo eleitoral relevante, mas não como eixo exclusivo de organização dos palanques.
Do lado da oposição, os principais nomes colocados – Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – aparecem com desempenhos distintos nas pesquisas e estratégias adaptadas ao Nordeste. A direita, mais cautelosa, evita o confronto direto com Lula e aposta na regionalização do debate, explorando temas como segurança pública, gestão e fadiga administrativa.
Um jogo de acomodação, não de ruptura
O desenho eleitoral de 2026 no Nordeste aponta menos para uma disputa ideológica clássica e mais para um processo de acomodação de forças. O presidente Lula entra forte na região, lidera as pesquisas e segue como referência central, mas enfrenta limites claros na capacidade de ordenar alianças estaduais.
Mais do que um bloco homogêneo, o Nordeste se apresenta como um conjunto de disputas locais interligadas, onde o poder é negociado estado a estado.
Em 2026, vencerá menos quem tiver o discurso mais alinhado nacionalmente e mais quem souber ler, com precisão, os interesses e os conflitos que moldam a política regional.
O cientista político Hely Ferreira acrescenta ainda que o Nordeste segue apresentando um comportamento eleitoral relativamente homogêneo apenas na disputa presidencial.
Isso, no entanto, não se traduz automaticamente em alinhamento nos governos estaduais. “Essa homogeneidade aparece em relação ao presidente Lula, e não em relação aos governadores. Os candidatos que serão eleitos nos estados não necessariamente estarão politicamente alinhados com ele”, conclui.
*Matéria publicada na edição 229 da revista NORDESTE

