Movimentação bilionária impulsiona turismo e trabalho informal no Nordeste, mas ausência de políticas permanentes mantém trabalhadores vulneráveis no pós-folia
Por Ana Júlia Silva (Especial para a RNE)
Mesmo com a movimentação econômica, turística e cultural que envolve o período do Carnaval, no Brasil , especialmente no Nordeste, a ausência de políticas públicas permanentes voltadas ao setor informal faz com que o impacto positivo da festa na geração de renda seja, em grande parte, temporário.
Para o economista paraibano, Vitor Nayron, ouvido pela Revista NORDESTE, os números expressivos movimentados no período não significam necessariamente inclusão financeira.
“Inclusão financeira envolve mercado de trabalho, acesso a serviços financeiros e integração ao sistema financeiro nacional. O Carnaval pode ser um impulsionador, mas ele sozinho não consegue promover essa inclusão”, avalia.
Os limites do impacto econômico
Nayron ressalta que a falta de perenidade da renda do mercado informal é um dos principais pontos que merecem atenção.
“Para muita gente, Carnaval e São João são os principais períodos para levantar dinheiro no ano. O problema é o pós. Não existe garantia de renda nos meses seguintes, o que deixa esses trabalhadores em situação de vulnerabilidade”, explica.
Apesar dos benefícios no curto prazo, Vitor Nayron alerta para os riscos de uma economia extremamente dependente de eventos pontuais. “O perigo é não ter previsibilidade nem continuidade, nenhuma base sólida ou diversificação econômica”, afirma.
Segundo ele, o impacto dos eventos também varia conforme o contexto macroeconômico de cada área, como nível de desemprego e custos do turismo. Ainda assim, Nayron defende que, por se tratar de uma tradição cultural, é possível gerar efeitos positivos.“Já que é algo cultural e faz parte da identidade da região, o desafio é aproveitar da melhor forma possível, economicamente falando, mesmo que seja por um período mais curto”, pontua.
Carnaval significa movimento na economia
Mais do que uma celebração popular, o Carnaval se consolidou como um dos principais motores da economia brasileira, com o Nordeste ocupando posição de destaque. Salvador, São Luís, Olinda e Recife, por exemplo, atraem milhões de foliões e turistas durante o período, impulsionando cadeias que vão do turismo formal à economia informal.

Dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), indicam que, em 2026, o Carnaval deva movimentar R$ 18,6 bilhões, crescimento de 10% em relação ao mesmo período no ano anterior.
Durante o período, segundo a Fecomércio-SP, foram criadas cerca de 39,2 mil vagas de emprego temporário, abrindo espaço para a inserção financeira de trabalhadores informais, autônomos e pequenos empreendedores que encontram na festa uma das principais fontes de renda do ano, especialmente no Nordeste.
“A gente espera o ano inteiro por datas como o Carnaval. Para quem vive só de festa e evento, é um período muito significativo, porque é quando conseguimos atingir o objetivo de um ano inteiro de espera”, relata a presidente da Associação de Ambulantes de João Pessoa, Márcia Medeiros.
Impacto regional
Nos principais eixos urbanos do calendário carnavalesco nordestino , os números também foram expressivos. No Recife, a capital pernambucana movimentou cerca de R$ 2,7 bilhões durante o período carnavalesco, com fluxo de aproximadamente 310,5 mil passageiros no Aeroporto Internacional dos Guararapes e geração estimada de 60.030 empregos, diretos e indiretos. Olinda, por sua vez, recebeu mais de 4 milhões de foliões ao longo da festa.

Em Salvador, maior Carnaval de rua do país, mais de 1,2 milhão de turistas participaram dos dias oficiais da folia, com taxa de ocupação hoteleira superior a 90%. A movimentação econômica do turismo alcançou cerca de R$ 2,6 bilhões, impulsionando setores como hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços.
Na capital cearense, Fortaleza, o Carnaval atraiu aproximadamente 1,6 milhão de pessoas, gerando mais de 6 mil empregos diretos e indiretos e fortalecendo a economia criativa e o turismo urbano, com impactos diretos na renda de trabalhadores informais e pequenos empreendedores.

Nordeste se destaca pela diversidade cultural e turística

Embora a projeção sobre o impacto econômico do Carnaval tenha abrangência nacional, seus efeitos tendem a se concentrar de forma desigual entre as regiões do país. Para Vitor Nayron, a leitura dos dados precisa considerar o peso cultural e territorial da festa.
“Essa projeção precisa ser analisada do ponto de vista cultural. É importante observar onde estão concentradas as grandes festas e quais são os destinos mais procurados, tanto por quem gosta do Carnaval, quanto por quem utiliza esse período para descansar”, afirma.
Segundo ele, o Nordeste reúne fatores que ampliam o fluxo de visitantes e potencializam a circulação de renda. “A gente junta as belezas naturais, o litoral, o clima, o verão e também uma oferta de festas que atinge diferentes públicos, desde eventos privados e mais caros até festas populares, com grandes blocos”, explica.
Mercado informal cresce com a demanda
Por ser uma festa popular marcada por atividades de rua, o Carnaval amplia as oportunidades para trabalhadores informais e autônomos, especialmente ambulantes. “É um período em que essas pessoas visualizam a chance de ganhar dinheiro, porque não é todo momento que existe uma celebração dessa magnitude, com um público consumidor tão alto”, observa Nayron.
Segundo ele, o aumento do trabalho informal acompanha a lógica de oferta e demanda. “Se a demanda aumenta porque o fluxo de pessoas é maior, a oferta também cresce. É nesse momento que se expressa com mais força o trabalho informal e autônomo”, afirma.

Para quem depende desse tipo de atividade, a lógica é direta. “Nosso maior objetivo é sustentar a casa e os filhos. A gente espera o ano inteiro por datas como o Carnaval. Para quem vive exclusivamente de festas e eventos, é quando conseguimos alcançar o objetivo de um ano inteiro de trabalho”, afirma Márcia Medeiros.
O desafio do pós-folia
No longo prazo, Nayron ressalta que o desenvolvimento regional exige estratégias mais estruturadas. “Eventos culturais podem contribuir, mas não podem ser o único fator de desenvolvimento. A economia precisa crescer de forma sólida, robusta e contínua”, afirma.
Nesse contexto, o Carnaval funciona como um importante indutor temporário de renda, especialmente para o mercado informal, mas não resolve problemas estruturais de emprego e inclusão econômica. Sem políticas públicas permanentes, os efeitos positivos da festa tendem a se concentrar em poucas semanas do ano, com impacto limitado sobre a segurança de renda nos meses seguintes.

