Celso Amorim avalia os vários cenários políticos no Mundo e aponta papel do Brasil na geopolítica global

Por Walter Santos

A cena internacional convive com realidade surreal na atualidade diante de tantos fatos produzidos, a partir das medidas adotadas pelo presidente dos EUA a mexer com toda a cena global em que o Brasil se apresenta com perfil e papel diferenciado.

Quem analisa os problemas e perspectivas brasileiras é o assessor presidencial Celso Amorim com EXCLUSIVIDADE para a Revista NORDESTE.

Revista NORDESTE – O Brasil chega em 2026 com performance de quem interfere na cena Global com propostas de impacto e de resultados. Qual a essência central do Itamaraty em construir avanços globais efetivamente diante dos conflitos?

Celso Amorim – Eu não posso falar em nome do Itamaraty, pois estou falando em meu próprio nome. Sou assessor do presidente Lula e acho que a essência da nossa política externa é a multipolaridade e o multilateralismo. São duas coisas diferentes: a multipolaridade é uma realidade de fato, de haver vários poderes no mundo que se contrapõem. O multilateralismo é a observação de regras multilateralmente acordadas, que se incorporam na ONU, na OMC, etc.

NORDESTE – Qual o estágio atual dessas duas situações diferenciadas?

Celso Amorim – Está muito difícil defender essas linhas, porque a visão de uma das grandes potências do mundo hoje em dia é muito contrária a essa nossa linha.

NORDESTE – Mesmo diante da performance brasileira, o mundo vive em grave crise com as medidas adotadas pelo governo Trump na cena global na Venezuela, Groenlândia, etc. Até quando os países Ocidentais vão permitir esses abusos do governo americano?

Celso Amorim – Difícil falar em nome dos países ocidentais, até porque o conceito de ocidente hoje em dia é muito discutível, mas eu acho que nós temos que continuar insistindo.

NORDESTE – O Sr acha que o Brasil joga que possibilidade decisiva para resolver o drama grave da Venezuela? Extorquir e tirar o petróleo com medida arbitrária vai vingar até quando?

Celso Amorim – Eu acho que o que aconteceu na Venezuela é um desastre total para a Ordem Internacional, além da proximidade com o nosso país, enfim, acho que também, antes, o governo Maduro também cometeu erros que facilitaram essa ação.

NORDESTE – Mas há um fato consumado …

Celso Amorim – Vamos trabalhar, mas que não justificam de qualquer maneira a ação que foi tomada, que é absolutamente inédita na América do Sul, não na América Latina, mas na América do Sul.

NORDESTE – E então?

Celso Amorim – Então nós vamos ter que continuar a trabalhar para ver se encontramos uma solução que preserve a soberania da Venezuela e que ao mesmo tempo permita uma reconciliação nacional. Nada simples, nada fácil, mas essa é a missão do Brasil.

NORDESTE – Como o Sr analisa a postura distante, mesmo crítica, do Oriente a partir da China e Rússia às agressões de Trump?

Celso Amorim – Eu não vejo o mundo dividido entre Oriente e Ocidente. A Rússia e China são países com interesses próprios, com maneiras de encarar um mundo diferente dos Estados Unidos, mas hoje em dia eu vejo grandes diferenças entre os Estados Unidos e a Europa, e basta mencionar a questão da Groenlândia, eu podia também mencionar a questão das tarifas.

NORDESTE – Em que nível estamos?

Celso Amorim – Hoje é um mundo muito mais complexo, muito diferente e eu acho que o importante é o Brasil continuar defendendo sua posição, que eu já mencionei antes, da multipolaridade. Acho, aliás, que o acordo com a União Europeia foi muito importante do ponto de vista geopolítico.

NORDESTE – E os efeitos do acordo Mercosul – União Europeia?

Celso Amorim – Isso é uma coisa que está há anos sendo discutida. Começou a ser negociada há 26 mais ou menos e que finalmente chegou ao término no momento estratégico.

NORDESTE – A Europa está agindo com sua força estratégica frente à realidade americana?

Celso Amorim – Eu acho que a Europa é hoje, digamos, a região no fundo mais fragilizada. A América Latina também, a América do Sul também, depois desse ataque à Venezuela. Mas é, digamos, dos países desenvolvidos é a região mais fustigada pela nova política externa dos Estados Unidos. Não sei até que ponto ela vai ser capaz de resistir ou se ela cederá.

NORDESTE – E a Groenlândia?

Celso Amorim – Eu acho que a Groenlândia é, digamos assim, um caso simbólico. Mas além disso, a questão das tarifas, há muitas outras questões e sobretudo o assalto ao multilateralismo. A Europa, na parte econômica, pelo menos, ela sempre se colocou muito a favor da questão multilateral, até nas rodadas da OMC, embora com interesses específicos diferentes dos nossos, mas sempre defendendo o multilateralismo. Vamos ver se ela é capaz de continuar nessa linha. Volto a dizer, a questão da Groenlândia é crucial.

NORDESTE – Até quando o mundo vai agir ignorando os graves problemas climáticos? O que será preciso para resolver de vez o sério problema?

Celso Amorim – Essa é uma questão complexa. O Brasil liderou a ideia do mapa do caminho, ela não foi aceita, digamos assim, não foi aprovada porque havia visões divergentes, mas a presidência brasileira continuará a levar essa questão adiante. Enfim, é difícil dizer quando isso será resolvido, nós vemos que grandes potências têm ainda muito interesse no petróleo, outros países também, mas, é, e vamos trabalhar para que os combustíveis fósseis possam ser utilizados de maneira decrescente e que haja uma transição energética que ajude a preservar a vida é, aqui nas próximas décadas.

NORDESTE – O governo Trump interfere na América Latina. O que será de Cuba e do Brasil?

Celso Amorim – A intervenção na Venezuela evidentemente demonstra uma outra política muito mais agressiva. Isso também ficou claro na nova estratégia de defesa norte-americana em que a América Latina é quase que explicitamente chamada de quintal. Não usam essa palavra, mas eles falam do hemisfério ocidental como uma área de influência dos Estados Unidos. Nós queremos ter boas relações com os Estados Unidos, queremos manter os nossos intercâmbios comerciais, culturais, científicos, mas nós também buscamos uma maior diversidade de parceiros.

NORDESTE – Qual o tamanho dos negócios com os americanos?

Celso Amorim – Hoje os Estados Unidos representam 12,5% aproximadamente do nosso comércio exterior e a China, algo em torno de 30%, talvez até um pouco mais. E a Europa, com esse novo acordo, como já mencionei, com certeza vai se tornar um parceiro importante. Agora, muito importante e hoje difícil pelas de várias contingências, mas que não pode ser abandonado, é uma maior ênfase na própria América do Sul e na América Latina, uma integração independentemente dos sistemas dos sistemas políticos ou, melhor dizendo, das inclinações políticas dos governantes da região.

NORDESTE – O que significa nosso Continente?

Celso Amorim – Não podemos esquecer a América Latina em geral e, em particular, a América do Sul, dentro da qual nós temos 10 fronteiras e os outros dois países, Chile e Equador, também são muito próximos do Brasil. Então, é preciso um esforço muito grande nesse sentido. É muito diferente do início do século quando nós tivemos muita facilidade para fortalecer o Mercosul, criar o UNASUL, mas os objetivos tem que continuar sendo os mesmos.

 

*Entrevista publicada na edição 229 da revista NORDESTE, em circulação

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Luciana Leão

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