Redução de tarifas, acesso a um mercado de alto poder de compra e atração de investimentos colocam agroindústria, indústria leve e energia limpa da região no radar europeu
Por Luciana Leão
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia desponta como uma das iniciativas mais relevantes para redefinir a inserção internacional do Brasil, com impactos particularmente expressivos para os nove estados do Nordeste.
O Acordo foi assinado no último dia 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, com a presença da presidente da Comissão da União Europeia, Ursula von der Leyen, do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e demais presidentes dos países que compõem o bloco, com exceção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representado pelo embaixador Mauro Vieira.
Mais do que ampliar exportações, o tratado cria condições para reposicionar o Nordeste e o Brasil nas cadeias globais de valor, estimular investimentos produtivos e acelerar a transição para uma economia de maior valor agregado.

O bloco europeu reúne cerca de 450 milhões de consumidores, com renda per capita até quatro vezes superior à média do Mercosul. Do outro lado, o mercado sul-americano soma aproximadamente 250 milhões de habitantes e forte capacidade produtiva, especialmente em alimentos, energia e minerais estratégicos. Essa complementaridade, segundo especialistas ouvidos pela reportagem da revista NORDESTE, abre uma janela concreta de oportunidades para o Nordeste.
Agroindústria ganha escala, valor e identidade
Um dos setores mais diretamente beneficiados é a agroindústria exportadora. Frutas frescas e processadas, como manga, melão, uva, acerola, limão e derivados do caju, tendem a ganhar competitividade com a redução gradual das tarifas e maior previsibilidade regulatória.
De acordo com o economista Valdeci Monteiro dos Santos, doutor em Economia pela Unicamp, sócio da Ceplan Consultoria Econômica e professor e assessor de Planejamento da Universidade Católica de Pernambuco, o acordo pode impulsionar investimentos em beneficiamento, certificação e logística. “Produtos típicos da região, como caju, coco, melado de cana e sucos, podem obter certificações e proteção no mercado europeu, agregando valor e fortalecendo identidades territoriais”, avalia.

Um caso emblemático é o das uvas produzidas no Vale do São Francisco, entre a Bahia e Pernambuco. Segundo Aloisio Sotero, conselheiro estratégico, membro do Conselho Editorial da Revista do Comércio Exterior (Funcex) e CFO sob demanda, esse será o único produto a iniciar o acordo com tarifa zero na União Europeia, substituindo as alíquotas que hoje variam entre 8% e 14%. “Não por acaso, cerca de 70% da produção da região já tem a Europa como destino”, destaca.
Além das frutas, produtos como mel in natura, castanhas, café em grãos e torrado, açúcar, etanol e derivados de cacau, especialmente da Bahia, terão redução gradual das tarifas de importação em prazos que variam de quatro a dez anos.
Indústria regional encontra novos mercados
O acordo também cria oportunidades para a indústria de transformação nordestina. Setores como têxteis e confecções, calçados e couros, móveis, máquinas e equipamentos leves, além do complexo químico e petroquímico da Bahia, tendem a se beneficiar do acesso ampliado ao mercado europeu.
Para Valdeci Monteiro, a possível redução de barreiras tecnológicas facilita a entrada de insumos avançados europeus, fortalecendo cadeias produtivas locais. “Com incentivos regionais e mão de obra disponível, o Nordeste pode avançar em segmentos industriais com maior conteúdo tecnológico”, afirma.
A sustentabilidade, cada vez mais central nas decisões de consumo da União Europeia, surge como diferencial competitivo. Cadeias mais curtas, menor pegada de carbono e produção associada a padrões ambientais rigorosos ampliam a atratividade da indústria regional.

da Ceplan Consultoria Econômica e
Planejamento
Mineração e transição energética no radar europeu
A transição energética em curso na Europa amplia a demanda por minerais estratégicos, como lítio, nióbio, cobre, níquel, ferro, grafite e rochas ornamentais, itens presentes na pauta nordestina. O acordo cria condições para estimular maior processamento local, alongando cadeias produtivas e retendo valor na região, fortalecendo a extração e a agregação de valor via produção de baterias e componentes de energia limpa.
No campo energético, o Nordeste se consolida como plataforma estratégica para projetos de hidrogênio verde, amônia e e-combustíveis, apoiados por capital e tecnologia europeus. “Há potencial tanto para fornecimento de energia renovável quanto para novos investimentos europeus em parques solares, eólicos, data centers e hubs industriais verdes”, observa Monteiro.
Importações elevam a competitividade
O tratado também traz ganhos do lado das importações. A redução tarifária deve baratear máquinas, equipamentos industriais e tecnologias agrícolas, fundamentais para elevar a produtividade regional.
Equipamentos para energia solar e eólica, sistemas de irrigação, gestão hídrica, eficiência energética, além de insumos químicos, farmacêuticos e hospitalares, fortalecem cadeias produtivas locais e reduzem gargalos históricos.
Uma via de mão dupla e novos desafios
Para Aloisio Sotero, o acordo representa uma via de mão dupla, uma abertura relevante do mercado sul-americano para os europeus. “O Mercosul oferece um mercado de cerca de 250 milhões de consumidores, especialmente das classes A e B, com forte potencial de consumo para vinhos, massas, queijos e laticínios produzidos na União Europeia”, destaca.
Ao mesmo tempo, ele faz um alerta sobre os desafios. “Mais do que volume, o mercado europeu exige qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade. As barreiras não tarifárias, especialmente sanitárias, tendem a se intensificar e podem funcionar como mecanismos de proteção disfarçada”, afirma, citando resistências internas em países como França, Itália, Polônia, Áustria, Irlanda e Bélgica. Novas exigências, inclusive em embalagens, já começam a ser discutidas.
Sotero acredita que Portugal será a “porta natural” de entrada estratégica nesse momento, “por razões logísticas e culturais com a Região Nordeste”. Ele aponta países favoráveis e aliados-chave, como a Alemanha, com forte interesse industrial; a Espanha, com apoio político e comercial; a Itália, em uma posição mais pragmática; e, por fim, Portugal, pelo alinhamento histórico com o Mercosul.
Da oportunidade ao protagonismo regional
Na avaliação dos especialistas, o acordo Mercosul–União Europeia abre uma oportunidade rara para que o Nordeste conecte suas vocações como a agroindústria, indústria leve, mineração e energia limpa, a um dos mercados mais sofisticados do mundo. O desafio, agora, é transformar acesso em protagonismo, avançando em infraestrutura, certificação, governança e agregação de valor.

Segundo o economista Valdeci Monteiro, a região já reúne vantagens competitivas relevantes para aproveitar o acordo, como o forte potencial em energias renováveis, a diversidade agroindustrial e a posição logística estratégica, com portos como Suape (PE) e Itaqui (MA), além da proximidade geográfica com a Europa, que reduz custos e amplia a competitividade das exportações.
Esses ativos, no entanto, convivem com entraves estruturais persistentes. Déficits em infraestrutura logística, saneamento básico e conectividade digital ainda limitam ganhos de produtividade e a atração de investimentos em setores de maior valor agregado, como data centers e indústrias tecnológicas.
“Além disso, processos regulatórios ambiental e industrial seguem lentos e pouco coordenados, inclusive em áreas estratégicas como a energia offshore, o que afasta investimentos estrangeiros”, observa Monteiro.
Para o economista, a baixa presença do Nordeste nas etapas mais avançadas das cadeias globais e a insuficiência de investimentos estruturantes agravam as desigualdades regionais. “Em síntese, a combinação entre vantagens naturais e produtivas e uma agenda consistente de modernização institucional e infraestrutura pode transformar o acesso ao mercado europeu em um vetor efetivo de desenvolvimento regional”, concluiu Monteiro.
O que cada estado pode ganhar
Alagoas- Açúcar, etanol, química e alimentos; possibilidade de agregar valor à bioenergia e ampliar exportações para nichos europeus sustentáveis.
Bahia– Agroindústria de cacau, frutas, açúcar e etanol; polo químico e petroquímico; mineração e liderança em projetos de hidrogênio verde e energia renovável.
Ceará– Indústria de calçados, têxteis, frutas frescas, pesca e aquicultura; destaque para o hub de hidrogênio verde e para o Porto do Pecém como plataforma exportadora.
Maranhão– Indústria de mineração, grãos, celulose e logística; posição estratégica do Porto do Itaqui para escoamento ao mercado europeu.
Paraíba- Indústria calçadista e têxtil, confecções e alimentos; ganhos com acesso a máquinas e tecnologia europeia para elevar competitividade industrial.
Pernambuco– Fruticultura irrigada, alimentos processados, indústria têxtil e confecções; papel logístico estratégico com o Porto de Suape nas rotas Europa–Atlântico Sul.
Piauí – Grãos, frutas, mel e mineração; forte sinergia com a agenda europeia de transição energética e agricultura sustentável.
Rio Grande do Norte– Fruticultura (melão), sal, pesca e energia eólica; potencial de atração de investimentos europeus em renováveis e economia do mar.
Sergipe– Gás natural, fertilizantes, indústria química e alimentos; acesso facilitado a insumos e tecnologia pode destravar novos investimentos.
*Matéria publicada na edição 228, da Revista NORDESTE


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