Calouste Gulbenkian (1869–1955) foi um armênio, nascido na Turquia, que se tornou um dos principais homens de negócios do setor petrolífero de sua época, destacando-se como construtor de parcerias internacionais, especialmente para a exploração do petróleo na região do atual Iraque.
Tornou-se um dos homens mais ricos de seu tempo e era conhecido por muitos como o “Senhor 5%”, por receber essa comissão em alguns negócios. Além disso, desde cedo demonstrou grande interesse por cultura e arte e, ao longo da vida, reuniu uma das mais importantes e abrangentes coleções do mundo. Costumava dizer que só queria ter as melhores peças.
Gulbenkian, embora tenha nascido em berço de ouro, passou por várias vicissitudes ao longo da vida. Teve de fugir da Turquia para escapar às perseguições aos armênios, viveu durante duas guerras mundiais (tendo sido declarado inimigo do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial), mas conseguiu superar todos esses desafios.
Tornou-se cidadão britânico e teve um palácio em Paris, mas refugiou-se em Lisboa por causa da Segunda Guerra Mundial. Como foi muito bem acolhido, ali permaneceu, vivendo os últimos 13 anos de sua vida.
Determinou em seu testamento que deveria ser criada uma fundação com seu nome, sediada em Lisboa, à qual deixou a maior parte de sua fortuna e sua coleção de arte.
Os governos da França e do Reino Unido tentaram ficar com a coleção, mas, graças à habilidade diplomática do advogado José de Azeredo Perdigão, que passou a dirigir a Fundação, o acervo acabou permanecendo em Lisboa.
A Fundação Calouste Gulbenkian procura promover o desenvolvimento de pessoas e organizações por meio da arte, da ciência, da educação e da filantropia, tendo como objetivo contribuir para uma sociedade mais equitativa e sustentável.
A Fundação possui um museu com a coleção de Calouste Gulbenkian, um centro de arte moderna com sua respectiva coleção, uma orquestra e um coro, um grande auditório, várias salas para exposições e conferências, uma biblioteca de arte e arquivo, além de um magnífico jardim no centro de Lisboa. Desenvolve programas e projetos inovadores e apoia, por meio de bolsas e subsídios, artistas, instituições e organizações sociais e científicas em Portugal, no Reino Unido e na França, bem como nos países africanos de língua oficial portuguesa e nas comunidades armênias.
Muitos dos mais importantes artistas portugueses foram apoiados pela Fundação, o que nos permite afirmar que ela tem desempenhado um papel de enorme relevância na promoção da arte e dos artistas em Portugal.
Foi a Fundação Gulbenkian que tomou a iniciativa de convidar os curadores brasileiros José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik para criarem a exposição “Complexo Brasil”, em cartaz na sede da Fundação, em Lisboa, até 17 de fevereiro de 2026. E todos estão de parabéns!
A exposição é complementada por um programa de atividades paralelas e pela publicação de um livro com o mesmo nome. O livro se inicia com frases de diversos autores que refletem as múltiplas e contraditórias facetas do Brasil e inclui ensaios dos curadores, além de textos de Eliane Brum, Rafael Xucuru-Kariri e Suzane Lima Costa.
Recomendamos a visita a todos os que estejam em Lisboa ou que possam vir à cidade, e esperamos que a exposição também possa circular pelo Brasil.
A exposição tem o objetivo, extraordinariamente ambicioso, de buscar apresentar, explicar e discutir a identidade do Brasil – dos Brasis – valendo-se de obras de arte, textos e vídeos. E, como todos concordamos, é muito difícil, se não impossível, encontrar um país mais complexo do que o Brasil. Um país-continente, multirracial e multicultural, em que todas as raças se misturaram para criar um povo novo. O país do futuro, até hoje adiado. Um país riquíssimo, cheio de pobres. Um país maravilhoso e extremamente violento.
A palavra “complexo” tem vários significados (ela própria é complexa), razão pela qual foi muito bem escolhida como título da exposição. Entre outros sentidos, pode significar complexidade (algo difícil, complicado), mas também pode designar um quadro psicológico persistente que pode levar a sérios problemas de saúde mental, como o complexo de inferioridade. Além disso, especificamente no Brasil, pode se referir a uma favela (como o Complexo do Alemão, por exemplo).
Naturalmente, os curadores procuram abordar a identidade do país por meio de sua história – já que a geografia e a história são elementos constitutivos das nações – com foco na colonização e na chegada de mais de quatro milhões de escravizados africanos entre os séculos XVI e XIX, cujos efeitos não poderiam deixar de ter um forte impacto até os dias de hoje.
Gostamos particularmente dos diversos vídeos, um meio naturalmente mais impactante. Destaca-se a maravilhosa cena de Gilberto Gil (quando Ministro da Cultura do Brasil) tocando “Toda Menina Baiana” na sede das Nações Unidas, com o secretário-geral Kofi Annan tocando congas… que saudade daqueles tempos…
Nesta exposição, o Brasil se deita no divã do psicanalista e fala sobre tudo o que o atormenta. Desabafa, chora, grita de dor e se queixa, com toda razão, de seus pais, pelos traumas criados em sua tenebrosa infância. Esperemos que, para o bem do Brasil, ao fim dessa experiência catártica, o país entenda que já é hora de assumir o próprio destino e construir o futuro glorioso que seu povo e o mundo esperam e merecem.

