O rescaldo das eleições em Portugal e no Brasil, por César Rocha

A perspectiva luso-brasileira, no rescaldo do primeiro turno da eleição presidencial em Portugal, convida à reflexão não apenas sobre lideranças e retóricas políticas, mas sobre como as escolhas políticas reverberam nas relações externas — sobretudo com o Brasil, que também vive um ano eleitoral decisivo em 2026.

Eleições em Portugal com 11 candidatos no primeiro turno

Em um contexto no qual o destino de temas como o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul se encontra no limiar de uma virada histórica, a narrativa política doméstica em Lisboa ganha contornos que podem influenciar percepções e prioridades no campo externo. O que se vê é menos um simples reflexo de política interna e mais um espelho dinâmico das expectativas econômicas e geopolíticas que unificam duas democracias que se entrelaçam cultural e economicamente.

O Mercosul-UE, acordado depois de mais de 25 anos de negociações, pretende criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com impactos profundos sobre exportações, investimentos e cadeias produtivas, caso seja ratificado pelo Parlamento Europeu. Para além das cifras — que prometem ampliar fluxos e reduzir tarifas entre blocos econômicos —, o acordo simboliza a tentativa de reconfigurar o comércio global em um momento de tensões crescentes entre grandes potências e de retrocessos no multilateralismo.

Ainda que enfrente críticas de setores europeus como o agrário e barreiras político-regulatórias, o pacto segue como foco estratégico para empresários e governos que veem nele uma alavanca para integração econômica reforçada.

Como observador brasileiro radicado em Portugal, é claro que o processo eleitoral português — com suas forças políticas debatendo identidade, soberania e globalização — influencia não apenas o clima interno, mas a forma como Lisboa poderá posicionar-se no debate europeu mais amplo.

Uma Presidência portuguesa que valorize a cooperação euro-latino-americana pode ser crucial na ratificação do acordo Mercosul-UE e um parceiro ativo na construção de uma ponte entre blocos que partilham valores, mas também desigualdades e desafios ambientais. O Brasil, por sua vez, observa tudo isso enquanto ajusta o seu próprio calendário político e econômico, ponderando como o novo capítulo do comércio global pode ser negociado de forma mais vantajosa para sua produção industrial e agrícola, sem perder de vista os imperativos sociais e ambientais.

Nesse sentido, as eleições em Portugal e no Brasil não são eventos isolados em calendários distantes, mas sim momentos convergentes num ciclo de decisões que pode reconfigurar relações econômicas, fluxos de investimento e cooperação política entre os dois países e entre seus blocos econômicos.

O desafio — e a oportunidade — reside em olhar para além das urnas e captar as tendências estruturais que emergem desses processos democráticos: a vontade de aprofundar laços comerciais e culturais, a busca por segurança jurídica para investidores, e a necessidade de liderar políticas exteriores que consolidem a presença de ambos os países em um mundo em transformação.

Mercosul-UE

Após décadas de negociação, a União Europeia e o Mercosul obtiveram uma aprovação substancial dos Estados-membros da UE para assinatura do acordo que criará uma vasta zona de comércio livre se ratificado, com mais de 700 milhões de habitantes e um PIB superior a 22 trilhões de dólares.

Porto de entrada

Especialistas destacam que Portugal está posicionado como hub estratégico para empresas brasileiras escalarem suas operações no mercado europeu, beneficiando-se de regulamentações estáveis, de uma legislação favorável e da proximidade cultural, sobretudo na língua.

Investimentos

O acordo comercial e políticas bilaterais recentes têm sido apresentados como fatores que aumentam a previsibilidade para investimentos brasileiros em Portugal, atraindo capital para setores como tecnologia, agroindústria e serviços.

Comércio bilateral

Antes do novo acordo, para além da simples migração de mão de obra, o comércio entre Brasil e Portugal já apresentava crescimento e diversificação, com sólida presença de produtos brasileiros no mercado português e aumento de interesse de empresas lusas no Brasil.

População

Segundo dados recentes, brasileiros constituem cerca de 31,4% da população estrangeira em Portugal, com aproximadamente 485 mil residentes, sendo a maior comunidade estrangeira no país.

 

 

*Coluna publicada na edição 228 da revista NORDESTE

 

 

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Luciana Leão

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