Flávio Moura Travassos avança em estudos a partir da USP sem ignorar vínculos com Paraíba
Por Walter Santos
Os dados vigentes na medicina de uma forma geral apontam que a oftalmologia apresenta resultados especiais positivamente. É o que afirma o médico oftalmologista, atualmente fazendo Doutorado na USP, de nome Flávio Moura Travassos que, nesta entrevista, explica como casos graves da visão têm sido resolvidos.
Revista NORDESTE – A evolução dos tempos produziu estágio fundamental na Medicina brasileira de uma forma geral se nivelando aos grandes centros mundiais. Particularmente, no âmbito da Oftalmologia, o que o Sr Identifica como avanço comprovado no tratamento dos graves problemas da visão?
Dr. Flávio Moura Travassos – A oftalmologia avançou muito ao transformar doenças antes devastadoras em condições controláveis. Hoje temos terapias mais efetivas para retina, opções mais seguras para glaucoma e cirurgias cada vez mais refinadas. O resultado prático é maior preservação da visão, com tratamentos baseados em evidência e acesso a tecnologia comparável a de grandes centros. Na USP, onde me formei e concluo o doutorado, participamos, inclusive, de pesquisas internacionais que ajudam a consolidar essas melhorias.
NORDESTE – Embora vivamos num século de importantes novidades a partir da IA, ainda dispomos de dados basilares advindos de problemas da Diabetes em muitos casos ameaçando a cegueira. Como o Sr. essa situação e como prevenir e/ou curar?
Flávio Moura Travassos – O maior desafio continua sendo chegar antes do dano definitivo se estabelecer. Muitas doenças ligadas a saúde geral, como alterações dos vasos sanguíneos e do metabolismo, podem atingir os olhos sem dar aviso no começo. A melhor estratégia é o acompanhamento regular, exames dirigidos ao risco de cada pessoa e controle clínico bem feito. Quando identificado cedo, o tratamento costuma impedir progressão e manter a visão.
NORDESTE – Por tratar de antigos problemas oculares da sociedade em geral, a Catarata ainda é registrada como condição preocupante. Na condição de especialista, esse é um drama advindo do DNA e/ou como se precaver na atualidade?
Flávio Moura Travassos – Catarata é o “embaçamento” do cristalino, a lente natural do olho, que vai perdendo transparência com o tempo. Em geral, é parte do envelhecimento e não há como evitar totalmente, embora algumas condições possam, inclusive, acelerar o processo, como diabetes, uso de corticoide e trauma. A solução é cirúrgica e hoje é muito segura, com rápida recuperação e possibilidade, inclusive, de reduzir a dependência de óculos conforme o tipo de lente implantada, a depender de cada caso.
NORDESTE – Os compêndios apontam que outro grave problema ocular se deriva do Glaucoma, em muitos casos apontando perda de visão periférica e a dificuldade para enxergar à noite como sintomas. E, agora, o que fazer e tratar?
Flávio Moura Travassos – De fato o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo. Mesmo em 2026. Trata-se de uma doença em que ocorre lesão do nervo óptico, que é como o “cabo de energia elétrica” que leva as imagens do olho até o cérebro. Quando esse cabo vai sendo danificado aos poucos, muitas vezes por pressão do olho elevada (mas nem sempre) a visão começa a “apagar pelas bordas”, como se a pessoa estivesse olhando por um túnel.
NORDESTE – O que fazer?
Flávio Moura Travassos – O mais importante é que, na maioria dos casos, o glaucoma é silencioso no início, por isso a conduta é fazer exames periódicos para diagnosticar cedo, especialmente se já houver fatores de risco, como história familiar. O tratamento busca frear a progressão: colírios para reduzir a pressão ocular, laser e, quando necessário, cirurgia. Glaucoma não tem “cura” no sentido de recuperar o nervo já lesionado, mas tem controle, e quanto mais cedo tratar, maior a chance de preservar a visão.
NORDESTE – A oftalmologia de vanguarda há anos convive com instrumentos tecnológicos, a exemplo da imagem em 3D como auxiliar importante em diagnósticos. Como podemos definir nosso padrão de recursos tecnológicos em favor da medicina e dos pacientes?
Flávio Moura Travassos – Hoje, o padrão tecnológico da oftalmologia pode ser definido como uma das subespecialidades com maior precisão e mais segurança, do consultório ao centro cirúrgico, e o paciente é o maior beneficiado nisso tudo. Exames como a tomografia de coerência óptica (OCT) funcionam como se fosse uma verdadeira biópsia da retina, mas simplesmente utilizando a luz para adquirir as imagens, permitindo mostrar retina e nervo óptico em alta resolução e permitindo diagnosticar cedo e acompanhar a resposta ao tratamento. Na cirurgia, avançamos com sistemas de visualização 3D, que melhoram a visão de detalhes e a ergonomia do cirurgião, e com a OCT intraoperatória, que dá uma espécie de “imagem ao vivo” do tecido durante o procedimento (quase que uma biópsia ao vivo), ajudando a guiar decisões e aumentar a precisão.
NORDESTE – Há em curso a realidade virtual mexendo com a convivência permanente a afetar a compreensão e trato de situação com efeitos fantásticos na visão. Onde vamos chegar com esses instrumentos vanguardistas?
Flávio Moura Travassos – A tendência é usar os avanços da tecnologia associadas ao cuidado humano que se estabelece na relação médico-paciente. A tecnologia auxilia na ampliação do acesso e autonomia do paciente. Na reabilitação de visão subnormal, ferramentas digitais ajudam o paciente a ler melhor, se orientar e manter independência. Consultas remotas podem facilitar acompanhamento e triagem em locais remotos. E a IA vem como suporte para organizar informações e ajudar o médico a decidir, com maior precisão e consistência, sem substituir o julgamento clínico.

NORDESTE – Embora tratemos de temas de vanguarda, mesmo assim ainda vivemos uma realidade sócio – econômica degradante a afetar setores de classes sociais D e E enfrentando problemas de saúde. Como esses fatores agravam a situação oftalmológica com efeitos do Diabetes?
Flávio Moura Travassos – Fatores socioeconômicos pesam muito na saúde ocular porque o diabetes exige controle contínuo e acesso regular ao sistema de saúde. Nas classes D e E, infelizmente é mais comum haver dificuldade para manter dieta adequada, comprar medicamentos, monitorar glicemia e conseguir consultas e exames. Isso favorece descompensação, aumentando o risco de retinopatia diabética e outras complicações. Para se ter ideia, em 20 anos, 99% dos diabéticos tipo 1 e 60% dos diabéticos tipo 2 apresentam algum grau de retinopatia diabética. Além disso, muita gente só procura ou consegue atendimento quando já há perda visual, e aí o tratamento fica mais complexo e o prognóstico pior. Por isso, o enfrentamento passa por rastreamento ativo (exame de fundo de olho/retina mesmo sem sintomas, anualmente), integração entre atenção básica e oftalmologia e garantia de acesso rápido ao tratamento quando a lesão é detectada. Com diagnóstico precoce e acompanhamento, a maioria dos casos pode ser controlada antes de evoluir para cegueira.
NORDESTE – O Sr se apresenta a partir de um Centro avançado, como acontece na USP, referência em vários níveis. Na sua opinião, como anda o nível da Medicina, da Oftalmologia do Brasil, a partir das Universidades envolvendo as do Nordeste?
Flávio Moura Travassos – A Medicina e a Oftalmologia no Brasil evoluíram muito e hoje contam com centros de excelência em várias regiões. Polos como a USP têm vantagens em volume de casos, tecnologia e pesquisa, mas qualidade não é questão apenas de geografia: no Nordeste há universidades e serviços com formação sólida e profissionais altamente qualificados, comparáveis a centros tradicionais do Sul e Sudeste. Eu mesmo concluí minha graduação em Medicina na Universidade Federal da Paraíba e, quando fui a São Paulo para realizar a especialização, subespecialização e doutorado em Oftalmologia na USP, posso dizer que não era inferior a nenhum colega que estava dividindo o ambiente de trabalho comigo. Cada lugar tem seus pontos fortes e desafios, e a formação também depende muito do próprio médico: quem estuda, busca boa supervisão e corre atrás, torna-se um excelente profissional. E é com esse espírito que procuro trazer para o Nordeste o que há de melhor do que aprendi e construí na minha trajetória na USP, no Hospital das Clínicas, um dos maiores hospitais públicos da América Latina.
NORDESTE – Por fim, o que Sr projeta para o futuro de sua performance e atuação profissional?
Flávio Moura Travassos – Quero consolidar uma atuação centrada no paciente com escuta, clareza nas orientações e busca do melhor resultado visual possível em cada caso. Pretendo seguir unindo assistência, pesquisa e atualização contínua para trazer o que há de mais sólido e moderno para a prática. A dedicação ao ensino também é relevante, pois sigo orientando, por meio de aulas e palestras, oftalmologistas em formação no Brasil inteiro através do OFTREVIEW, ajudando a multiplicar conhecimento e qualidade de atendimento.

