Paulo Dantas projeta novo ciclo de industrialização e diz que “o Nordeste não pode parar”

Governador de Alagoas e presidente eleito do Consórcio Nordeste para 2026 detalha, em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, como pretende conduzir a agenda de desenvolvimento regional em pleno ano eleitoral — enquanto seu Estado assume protagonismo fiscal, social e econômico no país

Por Luciana Leão

Em um momento estratégico para a região, o governador de Alagoas, Paulo Dantas, assume a presidência do Consórcio Nordeste em 2026 determinado a manter o ritmo dos projetos estruturantes, mesmo tendo pela frente um ano eleitoral que costuma impor freios à gestão pública. 

Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, ele reafirma que “a agenda técnica do desenvolvimento não pode ser interrompida pelo calendário político”, e projeta uma fase de industrialização baseada em energia limpa, bioeconomia e integração produtiva entre os estados.

Ao mesmo tempo, sua gestão em Alagoas acumula resultados que colocam o Estado entre os principais destaques do país: liderança nordestina em responsabilidade fiscal, prêmio nacional pela redução da fome, o maior pacote de investimentos já anunciado para a Região Metropolitana de Maceió e um desempenho econômico que supera a média brasileira, com crescimento robusto do PIB, expansão industrial e avanço do PIB per capita entre os mais acelerados do Brasil.

Essa combinação de rigor fiscal, ambição industrial e políticas sociais consistentes forma o pano de fundo da nova etapa que ele promete imprimir ao Consórcio Nordeste. A seguir, a entrevista completa 

CONSÓRCIO NORDESTE 

Revista NORDESTE – Governador, o senhor assume o Consórcio Nordeste em 2026, um ano eleitoral. Qual será a primeira diretriz estratégica da sua presidência?

Governador Paulo Dantas – A primeira diretriz será manter e acelerar a execução dos projetos já aprovados no PTE-NE (Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica), assegurando que a agenda técnica do desenvolvimento regional não seja interrompida pelo ciclo eleitoral. O Nordeste não pode parar.

NORDESTE – Como equilibrar a condução política do Consórcio com as demandas eleitorais em cada estado da região?

Paulo Dantas – O Consórcio é uma instância técnica de governança interfederativa. Minha liderança será focada em gestão por resultados e consenso, com reuniões periódicas dos governadores e equipes técnicas para garantir continuidade. A política partidária fica fora da sala de decisões do Consórcio. 

PTE-NE e transformação produtiva

NORDESTE – O senhor afirmou que o foco será transformar projetos aprovados em “plantas industriais ativas e competitivas”. Quais setores industriais devem ser priorizados?

Paulo Dantas – Priorizaremos energia renovável (eólica, solar, hidrogênio verde), a fim de ampliar a capacidade produtiva da região, também contemplando fontes alternativas complementares, como o gás natural, que possui grande potencial no Nordeste. Os setores químico e petroquímico, agroindústria com valor agregado e fármacos e biotecnologia também serão prioridades estratégicas. São setores em que o Nordeste já tem vantagens comparativas e que atraem investimentos de impacto.

NORDESTE – Como o Consórcio pretende garantir sincronização e escala para que essas plantas realmente saiam do papel?

Paulo Dantas – Criaremos câmaras setoriais por cadeia produtiva e vamos retomar e ampliar a estratégia de compras compartilhadas. O Consórcio provou seu valor na pandemia, comprando insumos de saúde. Vamos levar essa lógica para a segurança pública e tecnologia, ganhando escala e economizando. Além disso, a integração interestadual garantirá que um hub de hidrogênio no Ceará, por exemplo, impulsione cadeias de fornecimento na Bahia e Pernambuco.

NORDESTE – Há previsão de novos incentivos ou parcerias com o governo federal para acelerar a industrialização regional?

Paulo Dantas – Sim. Trabalharemos em total sintonia com o Novo PAC para garantir que as obras estruturantes cheguem à ponta e para ampliar o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), com contrapartidas do BNDES. Também buscaremos um regime especial de incentivos fiscais coordenados entre os estados, com aval da Receita Federal.

Governança e cooperação entre estados

NORDESTE – Como pretende aprimorar a governança interna do Consórcio, especialmente em um ano de forte movimentação político-partidária?

Paulo Dantas – Adotarei o modelo já empregado na minha gestão, estruturado em planos estratégicos e em um arcabouço de governança que segue as diretrizes e boas práticas em governança corporativa, assegurando processos mais transparentes, previsíveis e orientados a resultados. Vamos institucionalizar metas bianuais com monitoramento público e integrá-las ao conselho técnico permanente com representantes das secretarias estaduais de planejamento (Consad).

NORDESTE – O atual presidente, governador Rafael Fonteles (PI), ampliou a presença do Consórcio em agendas internacionais. O senhor pretende manter e expandir essa frente?

Paulo Dantas – O Nordeste saiu fortalecido da COP30 e agora precisamos capitalizar essa exposição. Vamos trabalhar para que as intenções de investimento sinalizadas durante a Conferência se convertam em contratos firmados, focando na atração de capital europeu, asiático e americano para nossa transição energética.

Resultados esperados

NORDESTE – Quais metas de impactos sociais e econômicos o senhor pretende estabelecer para 2026?

Paulo Dantas – Ao final de 2026, queremos aumentar a participação industrial do Nordeste no PIB nacional em pelo menos 1 ponto percentual e reduzir em 10% a taxa de desemprego regional. Além disso, buscaremos melhorar o IDH da região com foco em segurança alimentar e acesso à água.

NORDESTE – A geração de empregos é citada como objetivo central. Há já uma projeção inicial do que o Consórcio pode entregar em número de vagas ou novas cadeias estruturantes?

Paulo Dantas – Com a implantação dos polos industriais previstos no PTE-NE, estimamos criar até 100 mil empregos diretos e indiretos até 2027, especialmente nas cadeias de energias renováveis, bioeconomia e infraestrutura logística.

GOVERNO DE ALAGOAS

Responsabilidade fiscal

NORDESTE – Alagoas voltou a liderar o Nordeste na Regra de Ouro do CLP e alcançou o 3º lugar no ranking nacional. A que o senhor atribui esse desempenho?

Paulo Dantas – É resultado de um rigoroso controle de despesas e reformas administrativas que ganharam eficiência. Isso se reflete, inclusive, na nossa excelente Capacidade de Pagamento (Capag) junto ao Tesouro Nacional. Alagoas virou referência porque tratamos o dinheiro público com seriedade técnica.

NORDESTE – Como essa responsabilidade fiscal se converteu em capacidade real de investimento do Estado?

Paulo Dantas – A credibilidade nos permitiu captar recursos federais e internacionais, além de emitir títulos com juros menores. Só em 2024, o Governo de Alagoas investiu R$ 1.763.553.601,38 em infraestrutura (saneamento, transporte, urbanismo e habitação) — algo impossível sem uma gestão fiscal responsável.

Combate à fome 

NORDESTE – O Estado conquistou o prêmio “Brasil sem Fome” ao reduzir a insegurança alimentar extrema. Que política pública fez a diferença nesse processo?

Paulo Dantas – Foi a integração de políticas. O programa Alagoas Sem Fome atua na emergência, mas o Programa CRIA foi decisivo ao focar na raiz do problema: a primeira infância. Hoje, beneficiamos milhares de mães e crianças com transferência de renda, garantindo nutrição nos primeiros anos de vida. Unimos o combate à fome imediata com o cuidado estrutural do futuro.

NORDESTE – Como sustentar esse resultado nos próximos anos, considerando a complexidade social da região?

Paulo Dantas – Vamos aprofundar a institucionalização da política de segurança alimentar como prioridade orçamentária permanente e ampliar parcerias com municípios e ONGs. A erradicação da fome não é projeto de um governo, é política de Estado.

Pacote de R$ 5 bilhões para a Região Metropolitana de Maceió 

NORDESTE – Qual é o impacto estrutural esperado nos 13 municípios?

Paulo Dantas – Queremos proporcionar à Região Metropolitana um desenvolvimento regional coordenado, equilibrado e que proporcione uma dinâmica urbana alinhada às necessidades da população, com obras para educação, mobilidade, saneamento e desenvolvimento urbano, gerando emprego e melhorando a qualidade de vida para 1,3 milhão de pessoas.

As obras públicas também têm fomentado a economia, tanto pelo lado da demanda, injetando dinheiro para a realização de grandes obras de infraestrutura

NORDESTE- Qual será a prioridade imediata: mobilidade, saneamento, saúde ou educação?

Paulo Dantas – Para impulsionar um desenvolvimento coordenado na Região Metropolitana é essencial consolidar saneamento básico e mobilidade urbana como alicerces estruturantes. A expansão do acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário, combinada às obras que melhoram a mobilidade entre os municípios da região, é o que garante que as pessoas cheguem ao emprego, tenham acesso à educação e às oportunidades que movem o crescimento regional.

Educação está entre as políticas sociais prioritárias no pacote de R$ 5 bilhões anunciados para as 13 cidades que compõem a Região Metropolitana

NORDESTE – Como o novo pacote enfrenta gargalos históricos de saneamento e urbanização?

Paulo Dantas – Mais de 60% dos recursos serão para água, esgoto e drenagem, com metas ousadas: universalizar o acesso à água em 5 anos e ao esgoto em 10 anos na Região Metropolitana.

NORDESTE – O senhor pretende intensificar PPPs e concessões como modelo para acelerar essas entregas?

Paulo Dantas – Sim. Já temos experiência positiva com PPPs na saúde, segurança e saneamento. Para mobilidade, esse modelo será fundamental. O Estado faz a regulação e a iniciativa privada traz eficiência e investimento.

PIB e dinamismo econômico

NORDESTE – Alagoas teve o maior crescimento do PIB per capita do Nordeste e terceiro maior do Brasil. O que explica esse avanço?

Paulo Dantas – Atração de investimentos industriais, crescimento do agronegócio canavieiro e fruticultura irrigada e um turismo em expansão acelerada. É a combinação entre políticas de incentivo e confiança dos investidores.

NORDESTE – Em 2023, a economia cresceu 3,54%, superando o Brasil. A que setores o senhor atribui esse salto?

Paulo Dantas –Destaque para a indústria (química e alimentos), os serviços (turismo e tecnologia) e a agropecuária de alto valor agregado, como a produção de coco e abacaxi para exportação. De forma complementar, as obras públicas também têm fomentado a economia, tanto pelo lado da demanda, injetando dinheiro para a realização de grandes obras de infraestrutura, quanto pelo lado da oferta, aumentando no longo prazo a capacidade produtiva do nosso estado.

NORDESTE – O setor industrial alcançou o 2º melhor resultado da região e o 4º do país. Como esse novo ciclo industrial está sendo construído?

Paulo Dantas – A combinação de segurança jurídica e segurança energética. Alagoas possui uma vantagem competitiva crucial: temos gás natural abundante e competitivo para a indústria, ao mesmo tempo em que avançamos nas renováveis. Zonas industriais estruturadas e incentivos fiscais atrativos completam esse ecossistema.

Turismo e economia criativa

Governo de Alagoas pretende ampliar a divulgação do potencial turístico do Estado e aumentar novas rotas

NORDESTE – Há novos projetos de infraestrutura ou qualificação?

Paulo Dantas –Sim. Estamos requalificando orlas, criando rotas turísticas temáticas (como a Rota das Piscinas Naturais) e investindo em eventos internacionais. Também lançamos o Programa Alagoas Criativa, para fomentar música, artesanato e audiovisual.

NORDESTE – Como ampliar o turismo internacional?

Paulo Dantas – Com voos charter para Europa, promoção em feiras internacionais e parcerias com operadoras. Alagoas já tem potencial – agora precisa de divulgação estratégica.

Investimentos em rodovias interligando o litoral
ao interior será ampliado em 2026

Energia, transição e sustentabilidade

NORDESTE – Qual é o papel de Alagoas no tabuleiro regional de energias renováveis?

Paulo Dantas – Alagoas será um produtor relevante de energia solar distribuída e pretende atrair fábricas de componentes para parques eólicos e solares. Também estudamos o hidrogênio verde a partir da energia solar do Sertão.

NORDESTE – Há iniciativas para atrair novas plantas de energia solar, eólica ou de hidrogênio verde?

Paulo Dantas – Temos um programa de incentivos fiscais verdes e estamos mapeando áreas com potencial. Já negociamos com empresas para instalação de duas novas usinas solares até 2026.

Convergência entre gestão estadual e Consórcio

NORDESTE – Como o aprendizado da gestão em Alagoas será transferido para sua atuação como presidente do Consórcio Nordeste?

Paulo Dantas – Levo a cultura de gestão por resultados, o rigor fiscal e a capacidade de articular diferentes atores. O modelo de governança que deu certo em Alagoas – transparente, ágil e focado em dados — será minha contribuição ao Consórcio.

NORDESTE- O senhor vê espaço para que os resultados obtidos em Alagoas se transformem em modelos regionais?

Paulo Dantas – Com certeza. O combate à fome, a gestão fiscal responsável e os incentivos à industrialização verde são experiências que podem ser adaptadas para outros estados. Recentemente, o Governo Federal implantou o programa Pé-de-Meia, com o objetivo de combater a evasão escolar. A iniciativa tomou como base o programa Cartão Escola 10, uma experiência de muito sucesso implantada nas escolas da rede estadual alagoana, que tem ajudado nossos alunos a permanecerem em sala de aula e a concluírem seus estudos, e que pode, sim, ser replicada nos demais estados da região. O Nordeste avança mais quando compartilha soluções.

 

 

*Matéria Publicada na Edição 227 da revista NORDESTE. Leia a edição completa aqui

 

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Redacao RNE

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One thought on “Paulo Dantas projeta novo ciclo de industrialização e diz que “o Nordeste não pode parar”

  1. Governador Paulo Dantas assume presidência do Consórcio Nordeste no próximo dia 5 - Revista Nordeste 2 de fevereiro, 2026 at 6:54

    […] Leia aqui entrevista exclusiva do governador Paulo Dantas para a revista NORDESTE […]

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