Por Luciana Leão
O Banco Mundial apresentou, no dia 11 de dezembro, na sede da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), no Recife, um dos diagnósticos mais completos já elaborados sobre a região Nordeste. O relatório Rotas para o Nordeste: Produtividade, Empregos e Inclusão reúne análises estruturais, evidências de longo prazo e uma agenda de ação que pode reposicionar a região diante de uma nova geografia econômica, marcada pela transição energética, pela reindustrialização verde e por um mercado de trabalho em transformação acelerada.
Na abertura da reunião, autoridades do Banco Mundial destacaram o peso estratégico da região. A diretora do Banco Mundial no Brasil, Cécile Fruman, observou que o estudo inaugura um ciclo de coordenação institucional raro ao afirmar que “o Nordeste é central para o desenvolvimento de uma economia mais inclusiva, produtiva e verde no país” e que este é o início de um diálogo para estruturar políticas e investimentos capazes de transformar oportunidades em crescimento real.
As falas reforçaram a importância política da apresentação, mas o eixo central do documento vai além da conjuntura imediata: o Banco Mundial identifica uma região que combina desafios históricos com um potencial transformador que pode redefinir o futuro econômico do Brasil.
Uma região que avança, mas não converge

e propõe soluções para uma região que tende a ser um motor de crescimento
sustentável do país
Nas últimas décadas, o país registrou avanços graduais na redução das desigualdades regionais, mas esse movimento perdeu força após 2010. O Nordeste expandiu sua escolaridade, reduziu o analfabetismo, modernizou a agricultura e ampliou acesso a políticas públicas, porém não conseguiu converter esses ganhos em melhoria consistente de produtividade, renda ou mobilidade social. Entre 2010 e 2022, o PIB per capita da região cresceu apenas 0,9% ao ano, ritmo insuficiente para aproximar o Nordeste das regiões mais ricas, como o Sudeste, assinala trechos do estudo.

O relatório também mostra que a região apresenta a menor mobilidade intergeracional de renda do país, evidência de que a origem familiar ainda determina de forma decisiva o futuro econômico de grande parte da população. Some-se a isso a persistência da informalidade, desigualdades urbanas acentuadas e fortes disparidades entre estados e microrregiões.
Durante a apresentação, o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, reforçou que compreender o Nordeste exige incorporar dimensões sociais e raciais, além das especificidades naturais, produtivas e demográficas de cada território. Segundo ele, essas variáveis qualificam o debate sobre instrumentos de fomento e permitem políticas mais aderentes à complexidade regional.
Pelas Rotas do Nordeste
Karen Muramatsu e
Ricardo Ashimi
Oxente! Aqui é Nordeste.
É pilar, é patamar.
Nas mil rotas nordestinas,
O Brasil vai prosperar.
E no fervor de um axé
Muitos empregos gerar.
Superando Vidas Secas,
Trajetória que esclarece.
Na formação e inovação,
O futuro resplandece.
E como Cravo e Canela,
A igualdade então floresce.
É riqueza, é história
Dos mares ao sertão.
E construindo cidades,
Erguiam-se uma nação
Neste solo nordestino,
Festejando São João.
E dos raios que esquentam
Ao vento inspirando o mar,
Fazem se energia limpa
Para brilhar e exportar,
Criando mais conexões
E o comércio respaldar.
E para complementar,
Tendo o plantio no Agreste,
Para cidades e empresas,
Em empregos mais se investe.
É partida, é destino,
Na estratégia mais Nordeste.
É memória, é cultura.
Costumes e tradição.
É Nordestino guerreiro
De fé e superação.
Que tanto orgulho é esse
Que trago no coração!
Autores do estudo Rotas para o Nordeste se inspiraram nas potencialidades do Nordeste e fizeram esse texto como uma “narrativa” de cordel.
Produtividade estagnada: o centro do problema

O estudo é taxativo ao apontar que a produtividade dos setores urbanos, como indústria e serviços, permanece praticamente estagnada, mesmo diante do avanço robusto da agricultura. É essa desconexão que impede o Nordeste de transformar seu potencial humano e educacional em desenvolvimento econômico consistente.
A “guerra fiscal”, que marcou as décadas de 1990 e 2000, perdeu eficácia em um ambiente global movido por tecnologia, inovação e cadeias complexas. Com a reforma tributária, o Banco Mundial avalia que se abre uma nova fase: o foco deixa de ser a concessão de benefícios setoriais de curto prazo e passa a ser competitividade real, previsibilidade tributária e ambiente regulatório que favoreça investimentos de longo prazo.
Nesse sentido, a instituição recomenda a modernização dos sistemas de licenciamento, a simplificação regulatória e o fortalecimento de políticas que estimulem inovação e adoção tecnológica por empresas de diferentes portes. A agenda inclui também previsibilidade para atrair investimentos de maior valor agregado, em especial os vinculados à economia verde e digital.
No campo do crédito, o relatório chama atenção para a concentração dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) a grandes empresas e sugere modernizar os critérios de risco, ampliar a presença de fintechs, adotar mecanismos de avaliação baseados em dados alternativos e diversificar o sistema financeiro regional.
O economista sênior Cornelius Fleischhaker, um dos autores do relatório, sintetizou o desafio ao destacar que reduzir a pobreza no Brasil exige acelerar o crescimento do Nordeste com ganhos de produtividade e geração de empregos de melhor qualidade.
“A transição energética já oferece oportunidades, mas é preciso que isso se transforme em vínculos produtivos que gerem empregos qualificados na indústria e nos serviços. Além disso, é preciso considerar o novo ambiente de negócios e as oportunidades que vão surgir com a reforma tributária. Os estados precisam se preparar para esta realidade”, analisou Cornelius Fleischhaker.
Capital humano: educação que não vira renda
O relatório dedica especial atenção à desconexão entre a evolução educacional e os baixos retornos sobre renda e produtividade. Embora o Nordeste tenha avançado em escolaridade, qualificação e ensino técnico, o mercado regional ainda oferece poucas ocupações de alta produtividade.
Esse quadro é agravado por uma baixa participação feminina no mercado de trabalho, inferior à média nacional e com impactos diretos sobre a renda das famílias e o dinamismo econômico. Para o Banco Mundial, ampliar creches, reduzir barreiras de acesso e combater as disparidades salariais pode ser mais determinante para o crescimento regional do que grandes obras de infraestrutura.
A instituição também destaca a necessidade de alinhar a formação técnica aos setores emergentes, como energias renováveis, tecnologia da informação, logística e serviços modernos, e de promover programas de requalificação contínua para trabalhadores informais ou para aqueles cujo emprego está ameaçado por transformações tecnológicas.
O relatório enfatiza ainda que melhorar a mobilidade urbana e regional é peça-chave para conectar trabalhadores a oportunidades reais. Cidades médias, com custos mais baixos e maior potencial de expansão produtiva, aparecem como novas plataformas de crescimento.
Infraestrutura: o velho gargalo que define o futuro
A infraestrutura regional surge novamente como um dos pontos mais críticos para o desenvolvimento. O relatório aponta lacunas persistentes em rodovias estruturantes, ferrovias, portos e hidrovias, além de uma conectividade digital aquém do potencial, especialmente problemático para uma região que concentra a entrada de cabos internacionais de fibra óptica no Brasil.

O Banco Mundial sugere priorizar a modernização da BR-101 e da BR-116, expandir conexões ferroviárias e integrar portos às cadeias exportadoras, além de incentivar hidrovias onde houver viabilidade econômica. A instituição também defende ampliar parcerias público-privadas, fortalecer unidades estaduais de PPP e profissionalizar a gestão dos investimentos públicos, garantindo que projetos tenham maturidade técnica suficiente para avançar.
O diagnóstico também é claro: o entrave não é apenas a falta de recursos financeiros, mas de capacidade de gestão, de planejamento e de execução eficiente. Sem enfrentar esses pontos, os investimentos tendem a se fragmentar e a perder impacto, pontuam os especialistas responsáveis pelo estudo.
Transição energética: oportunidade histórica
A energia renovável coloca o Nordeste numa posição singular. A região concentra 91% da energia eólica e 42% da energia solar do país, além de condições ideais para projetos de hidrogênio verde.
Porém, o relatório faz um alerta: se não houver integração entre energia limpa e industrialização, o Nordeste corre o risco de repetir ciclos anteriores, exportando recursos sem agregar valor. O estudo destaca que a energia renovável pode atrair indústrias eletrointensivas como aço verde, fertilizantes e data centers, o que já ocorre, e permitir a formação de clusters tecnológicos conectados a universidades, centros de pesquisa e cadeias produtivas locais.
Nesse cenário, os portos de Pecém (CE) e Suape (PE) aparecem como hubs naturais para projetos de hidrogênio verde e novas rotas de exportação. Segundo o Banco Mundial, esse conjunto de fatores pode se tornar o motor industrial mais relevante das próximas décadas, desde que acompanhado de políticas de inovação, integração produtiva e desenvolvimento regional.
Uma década decisiva
Por fim, o Banco Mundial coloca o Nordeste diante de uma década decisiva. A região reúne energia limpa abundante, população jovem, posição geopolítica estratégica e uma economia em plena transição.
O desafio, segundo a análise, é transformar essas vantagens em políticas públicas consistentes, integração regional e capacidade institucional capaz de garantir execução e continuidade. Para a instituição, o futuro do Brasil passa necessariamente pelo Nordeste, e o momento exige decisões que definam se a região apenas acompanhará mudanças globais ou assumirá protagonismo na nova economia verde e digital.
Recomendações Temáticas do Banco Mundial
Os eixos que podem redefinir a trajetória econômica do Nordeste
Produtividade e ambiente de negócios
O Banco Mundial recomenda uma virada estrutural: superar a guerra fiscal, simplificar regulações, modernizar o licenciamento e estimular inovação como base da competitividade. Para o crédito, a instituição sugere revisar critérios do FNE, diversificar o sistema financeiro e ampliar o uso de dados alternativos para financiamentos, criando ambiente mais favorável às MPEs e a novos setores.
Trabalho, inclusão e capital humano
A região precisa transformar a educação em renda, com formação técnica alinhada à economia verde, à tecnologia e à logística. O relatório destaca a baixa participação feminina e propõe ampliar creches, combater disparidades e facilitar o ingresso das mulheres no mercado de trabalho. A melhoria da mobilidade urbana e o fortalecimento de cidades médias aparecem como estratégias para conectar trabalhadores às oportunidades.
Infraestrutura e conectividade
Rodovias estruturantes, ferrovias, portos integrados e hidrovias com viabilidade formam o núcleo da agenda logística. O banco recomenda ampliar PPPs, qualificar a gestão do investimento público e aproveitar melhor a conectividade digital, especialmente o potencial dos cabos internacionais que chegam à região.
Energia verde e indústria do futuro
Com a maior base de energia renovável do país, o Nordeste pode liderar projetos de hidrogênio verde, atrair indústrias limpas e desenvolver clusters de inovação conectados a Suape, Pecém e outros polos. O relatório reforça que energia limpa só se traduzirá em desenvolvimento se gerar cadeias produtivas locais e empregos de maior valor agregado.
*Conteúdo publicado na Edição 227 da Revista NORDESTE. Leia a edição completa aqui

