Economista Valdeci Monteiro avalia por que a região pode viver um ciclo de consolidação econômica em meio às incertezas eleitorais e geopolíticas para 2026
Por Luciana Leão
O ano de 2026 chega com um peso especial para o Nordeste. Uma série de projetos estruturantes iniciados nos últimos anos, como a Transnordestina à expansão dos polos industriais e digitais, entra finalmente em fase de maturação. A expectativa regional é de que esse conjunto de investimentos reposicione o Nordeste em logística, energia, tecnologia e indústria.
Ao mesmo tempo, o calendário eleitoral e a instabilidade global criam dúvidas sobre ritmo, continuidade e capacidade de atração de capital.
Para avaliar esse cenário, a Revista NORDESTE conversou com o economista Valdeci Monteiro dos Santos, doutor pela Unicamp e sócio da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento e Professor de Economia e Assessor de Planejamento da UNICAP
Cenário geral para 2026
REVISTA NORDESTE – Como o senhor enxerga 2026 no ciclo econômico do Nordeste? É de fato um ano chave para a consolidação dos projetos anunciados nos últimos anos?
Valdeci Monteiro – 2026 tende a dar continuidade ao ciclo econômico favorável que se instalou no Nordeste, especialmente porque vários projetos estruturantes iniciados entre 2020 e 2024 entram agora em fase de maturação. A combinação de investimentos em infraestrutura logística, expansão da matriz energética renovável e instalação de novas plantas industriais cria um ambiente favorável para um crescimento que vem se mantendo acima da média nacional. Além disso, setores como agroindústria, energias renováveis, tecnologia da informação e economia do mar devem ganhar tração. Estados como Ceará, Bahia e Pernambuco já apresentam pipelines de investimentos robustos, com destaque para hidrogênio verde, parques eólicos offshore e hubs de inovação. Se o ritmo atual for mantido, o PIB do Nordeste pode crescer entre 3,5% e 4%, impulsionado por: integração logística (ferrovias, portos e rodovias); expansão da fronteira agrícola no MATOPIBA; digitalização de serviços e chegada de data centers; e indústria de transformação em polos como Suape, Camaçari e Pecém.

NORDESTE – Quais fatores indicam que 2026 pode representar um ponto de virada para a infraestrutura e a atração de negócios na região?
Valdeci Monteiro – Três fatores principais sustentam essa virada:
- a) Conclusão de obras estruturantes: a Transnordestina, novos terminais portuários e ampliações em Suape, Pecém e Aratu tendem a reduzir custos logísticos e aumentar a competitividade exportadora.
- b) Expansão de setores estratégicos: energia renovável (eólica, solar e hidrogênio verde); tecnologia (data centers, parques tecnológicos, startups); indústria 4.0 (automação, semicondutores, biotecnologia).
- c) Ambiente institucional mais coordenado: o Consórcio Nordeste tem atuado na concentração de políticas fiscais e na promoção internacional da região, o que melhora a previsibilidade para investidores.
Também se verifica a retomada, embora ainda gradual, da Sudene no planejamento regional e no papel de articulador de iniciativas interinstitucionais, a exemplo da Rede de Instituições de Ciência e Tecnologia do Nordeste (REDICT-NE). Assim como, vale lembrar o papel do BNB como agente fomentador do desenvolvimento regional e também articulador de ações interinstitucional.
Grandes obras e entregas esperadas
NORDESTE – A definição e provável início do trecho pernambucano da Transnordestina pode alterar de forma estrutural a dinâmica logística e competitiva da região? De que maneira?
Valdeci Monteiro – Sem dúvida. A Transnordestina tem potencial para transformar profundamente a logística regional. A ferrovia pode: reduzir custos de transporte em até 30% para grãos, minérios e produtos industrializados; potencializar a integração interior e litoral, conectando polos produtivos do Piauí, Ceará e Pernambuco aos portos; aumentar a competitividade do agronegócio, especialmente no MATOPIBA; e favorecer a ampliação das exportações do Nordeste, ao criar corredores logísticos mais eficientes para mercados europeu, americano e asiático.

NORDESTE – A chegada de data centers, indústrias e novas plantas fabris cria condições para transformar o perfil produtivo do Nordeste? Em que ritmo isso pode ocorrer?
Valdeci Monteiro – Sim. A instalação de data centers por si só é insuficiente para internalizar novas atividades, onde é preciso estimulá-las. Por sua vez, novas indústrias podem representar uma mudança estrutural no perfil produtivo da região. Esses investimentos: aceleram a digitalização de serviços públicos e privados; criam empregos qualificados em TI, engenharia e gestão; atraem empresas de tecnologia, que buscam infraestrutura de nuvem e conectividade; e ajudam a impulsionar cadeias industriais, como eletroeletrônicos, alimentos processados e energias renováveis.O ritmo inicial tende a ser mais forte em capitais como Recife, Salvador e Fortaleza, mas deve se expandir para cidades médias com boa infraestrutura, como Petrolina, Feira de Santana e Caruaru.
NORDESTE – O que ainda é um gargalo crítico para acelerar ou garantir essas entregas?
Valdeci Monteiro – Entre os principais gargalos podemos citar: lentidão no licenciamento ambiental; dependência de recursos federais, que pode gerar atrasos em anos eleitorais; insuficiência da infraestrutura de transmissão elétrica para escoar toda a energia renovável produzida; e baixa qualificação técnica em algumas áreas, o que limita a atração de indústrias mais complexas.

expandir projetos em hubs de hidrogênio verde
Ano eleitoral e impacto na economia
NORDESTE – Em um ambiente eleitoral, quais riscos o senhor enxerga para a continuidade dos projetos estruturantes?
Valdeci Monteiro – O principal risco é a mudança de prioridades políticas. Porém, muitos projetos estruturantes são usados como vitrine eleitoral, o que tende a garantir sua continuidade. Além disso, obras com financiamento internacional ou contratos de longo prazo têm menor risco de interrupção.
NORDESTE – Há risco de paralisação de obras estratégicas ou mudança de prioridades em decorrência do processo eleitoral?
Valdeci Monteiro – Existe, sim, risco de paralisação, especialmente em obras que dependem de emendas parlamentares. Contingenciamentos podem afetar cronogramas, como já ocorreu em anos anteriores com obras rodoviárias e portuárias.
NORDESTE – A instabilidade típica de um ano de eleição pode alterar o apetite de investidores privados na região?
Valdeci Monteiro – Investidores tendem a adotar postura mais cautelosa até a definição do cenário político. Porém, projetos com PPPs bem estruturadas devem continuar, assim como investimentos em energia renovável, que têm horizonte de longo prazo e são menos sensíveis ao ciclo eleitoral. Empresas estrangeiras tendem a ser mais afetadas por questões regulatórias que pela disputa eleitoral em si.
Geopolítica e incertezas globais
NORDESTE – Quais movimentos internacionais têm maior potencial de afetar o Nordeste em 2026?
Valdeci Monteiro – Três movimentos se destacam:
- a) volatilidade do mercado de commodities, que pode afetar exportações como soja e frutas;
- b) conflitos e tensões geopolíticas, que elevam custos logísticos e pressionam o câmbio, afetando importação de insumos industriais;
- c) reconfiguração das cadeias produtivas em escala global, que pode levar empresas a diversificar a produção fora da Ásia — oportunidade para o Nordeste.
NORDESTE – O reposicionamento global em energia limpa e tecnologia pode favorecer a região?
Valdeci Monteiro – Sim. O Nordeste tem potencial para se integrar ao contexto global de energia limpa: lidera em eólico onshore, avança em eólica offshore e desenvolve hubs de hidrogênio verde em Pecém, Suape e Açu. Esses diferenciais já atraem empresas europeias e asiáticas.

NORDESTE – Há vulnerabilidades diante das tensões geopolíticas atuais?
Valdeci Monteiro – Sim. Entre elas: dependência de insumos importados nas indústrias química, metal mecânica e farmacêutica; exposição a choques cambiais, que afetam custos de energia, fertilizantes e equipamentos; e riscos logísticos em rotas marítimas internacionais.
Desenvolvimento regional
NORDESTE – Qual é o maior diferencial competitivo do Nordeste hoje?
Valdeci Monteiro – Dois diferenciais se destacam: o potencial energético renovável, capaz de atrair indústrias eletrointensivas; e a logística integrada, com portos estratégicos próximos à Europa e à África, além da futura integração ferroviária.
NORDESTE – A região está preparada institucionalmente para absorver os investimentos anunciados?
Valdeci Monteiro – Houve avanços, como a melhoria do ambiente de negócios — especialmente no Ceará, Bahia e Piauí —, a atuação coordenada do Consórcio Nordeste e a modernização de agências de fomento. Mas ainda há desafios como burocracia, segurança jurídica e capacidade técnica municipal.
NORDESTE Como avalia a coordenação entre estados para garantir previsibilidade e alinhamento de projetos estruturantes?
Valdeci Monteiro – O Consórcio Nordeste tem sido importante, especialmente na negociação conjunta com investidores estrangeiros e na padronização de políticas públicas. Mas é necessário ampliar a participação do setor privado e construir um planejamento regional de longo prazo, com diretrizes claras — especialmente diante da Reforma Fiscal.
Perspectivas e recomendações
NORDESTE – Qual seria o “alerta” para 2026?
Valdeci Monteiro – Instabilidade política e gargalos regulatórios, sobretudo em licenciamento e transmissão de energia.

NORDESTE – Qual é a “janela de oportunidade” mais promissora para o NE?
Valdeci Monteiro – A transição energética e a digitalização. O Nordeste pode se tornar exportador de hidrogênio verde, polo de serviços digitais e hub de indústrias de baixo carbono.
NORDESTE – Três prioridades econômicas para o ano?
Valdeci Monteiro – Concluir obras estruturantes (Transnordestina, portos, linhas de transmissão); ampliar a atração de investimentos em tecnologia e energia limpa; e expandir a qualificação profissional em logística, TI e indústria 4.0.
*Conteúdo publicado na edição 227 da revista NORDESTE.

