Mesmo com a melhora dos indicadores nacionais, o Nordeste continua sendo a região com maior proporção de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2024, divulgada nesta quarta-feira (3) pelo IBGE, mostram que o país reduziu o número total de pobres pelo terceiro ano consecutivo, mas a distância regional permanece acentuada.
O Brasil registrou, em 2024, 48,9 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 6,85 por dia (cerca de R$ 694). Isso representa queda expressiva frente aos 57,6 milhões de 2023. A taxa nacional recuou de 27,3% para 23,1%, o menor patamar desde 2012.
No Nordeste, porém, o percentual segue muito acima da média nacional: 39,4% dos nordestinos ainda vivem na pobreza — índice superior ao do Norte (35,9%) e muito acima do Sul (11,2%) e Sudeste (15,6%).
O mesmo ocorre na extrema pobreza. Enquanto o Brasil reduziu o contingente de pessoas vivendo com menos de US$ 2,15 por dia de 9,3 milhões para 7,4 milhões, o Nordeste segue na liderança proporcional: 6,5%, quase o dobro da média nacional (3,5%).
Avanço nacional, persistência regional
2012: 68,4 milhões
2019: 67,5 milhões (último ano antes da pandemia)
2020: 64,7 milhões
2021: 77 milhões
2022: 66,4 milhões
2023: 57,6 milhões
2024: 48,9 milhões
Os dados confirmam a tendência de melhora após os impactos da pandemia. O pesquisador do IBGE André Geraldo de Moraes Simões, responsável pelo estudo, lembra que, em 2020, a pobreza chegou a ser reduzida artificialmente por programas emergenciais.
“Em 2020, a pandemia derrubou a renda, mas os auxílios emergenciais tiveram um efeito imediato de redução da pobreza”, explica.
Com a redução dos valores e do número de beneficiários em 2021, o indicador voltou a subir. Depois disso, segundo ele, as condições reverteram com a retomada da economia e a expansão dos programas sociais. “A partir de 2022, o mercado de trabalho voltou a reagir e os benefícios foram ampliados, tanto em valores quanto no alcance. Isso ajudou a impulsionar a melhora dos indicadores”, afirma o pesquisador.
Ainda assim, Simões frisa que Norte e Nordeste continuam sendo as regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica. “São as regiões mais vulneráveis do país, e isso aparece também no mercado de trabalho — mais informal, mais instável e com menor renda média”, destaca.
Desigualdades se acumulam
O quadro regional se entrelaça com desigualdades raciais e ocupacionais que afetam de forma ainda mais intensa a população nordestina:
A pobreza entre trabalhadores informais chega a 20,4%, contra apenas 6,7% entre os empregados com carteira assinada.
Entre pessoas negras e pardas — maioria da população do Nordeste — as taxas ultrapassam as médias nacionais, atingindo 25,8% e 29,8%.
Mesmo com o menor Índice de Gini desde 2012 (0,504), o IBGE estima que a desigualdade seria bem maior sem programas como Bolsa Família e BPC.
O novo retrato do IBGE confirma que o Brasil avança na redução da pobreza, mas também evidencia que o Nordeste ainda carrega o peso histórico das vulnerabilidades estruturais. A região mais afetada pela crise sanitária e econômica é, novamente, a que mais demora a sentir plenamente os efeitos da retomada.


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