Relações reconfiguradas entre Brasil e Portugal, por César Rocha

A sucessão presidencial em Portugal — marcada por instabilidade política e pelo crescimento da influência dos partidos não tradicionais — abre um novo capítulo para as relações com o Brasil. Embora o pleito presidencial propriamente dito ainda esteja previsto para janeiro de 2026 e conte com múltiplos cenários em aberto, o contexto já se tornou relevante para a diplomacia luso-brasileira.  O desgaste dos partidos tradicionais em Portugal, aliado à urgência de estabilidade político-institucional, é um sinal de alerta para Brasil e Portugal.

No centro da questão está o papel do Presidente em Portugal: embora com competências limitadas – essencialmente moderar e representar –, o titular do cargo simboliza os valores que Lisboa quer projetar no mundo e, portanto, serve como referência para a Lusofonia e para o interlocutor brasileiro. Para o Brasil, que tem com Portugal relações estratégicas — culturais, históricas, econômicas e diplomáticas —, o resultado da eleição portuguesa pode afetar desde fluxos de investimento até cooperação técnica em áreas como energia, migração e mercados financeiros.

Se emergir uma presidência mais alinhada com temas tradicionais de cooperação, as agendas conjuntas Brasil-Portugal podem ganhar impulso; se, por outro lado, o eleito adotar posturas mais nacionalistas ou distantes da agenda lusófona, haverá necessidade de reequilibrar prioridades. Ainda que resultados decisivos só venham no próximo ano, o Brasil, especialmente em contextos como o fortalecimento dos vínculos de mercado ou dos laços da diáspora brasileira em Portugal, já deveria acompanhar com atenção esse processo eleitoral e preparar-se para reagir a diferentes cenários.

Cúpula Luso-Brasileira

No início de 2025, Brasil e Portugal realizaram a XIV Cimeira Luso-Brasileira, reforçando a comunicação entre os dois países em temas como comércio, cultura e investimento.  A eleição portuguesa pode redefinir a energia política de futuros encontros bilaterais.

Fluxo comercial

Em 2024, o comércio entre Brasil e Portugal alcançou cerca de US$ 4,7 bilhões, com superávit brasileiro de aproximadamente US$ 2,1 bilhões.  Situação que torna a estabilidade política portuguesa relevante para exportadores e investidores brasileiros.

Insegurança

André Ventura, candidato a presidente pela extrema direita, tem se posicionado a favor de maior autonomia econômica para Portugal, inclusive defendendo reforço da indústria nacional de defesa.  No entanto, sua agenda nacionalista e contra fluxos migratórios pode gerar insegurança para investidores brasileiros que hoje veem em Portugal uma ponte para a Europa e para o mercado lusófono.

André Ventura candidato a presidente pela extrema direita

Cooperação lusófona e migração

Ventura já manifestou propostas para alterar ou revogar o regime especial de residência de cidadãos de países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o que afeta diretamente brasileiros em Portugal.

Conflito

Por outro lado, Ventura tem adotado um tom crítico em relação ao governo brasileiro liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, acusando-o de “poder corrupto” e criticando atuação de autoridades brasileiras como Alexandre de Moraes como “braço judicial da ditadura”.

Diplomacia

Caso Ventura ou o CHEGA tenham protagonismo na presidência portuguesa ou em políticas externas, esse tipo de discurso pode gerar atrito diplomático ou tornar mais complexas certas agendas bilaterais Brasil-Portugal.

 

*Coluna O Brasil visto de Portugal, escrito pelo jornalista César Rocha, para a revista NORDESTE 226

 

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Luciana Leão

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