Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica propõe novo ciclo econômico e ambiental, mas sua força dependerá da capacidade de execução e integração regional
Por Luciana Leão
O Nordeste dá um passo decisivo para se colocar no centro da transição ecológica brasileira. O Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE), coordenado por José Sérgio Gabrielli para o Consórcio Nordeste, pretende fazer da região o motor de um novo ciclo de desenvolvimento baseado na sustentabilidade, na inovação tecnológica e na inclusão social.
Com uma das matrizes energéticas mais limpas do país — 91% da capacidade eólica e 63% da solar nacional —, biodiversidade ímpar e vocações produtivas que vão do sertão à costa, o Nordeste reúne condições únicas para se tornar referência em economia verde. Mas o plano, embora ambicioso e bem estruturado, ainda depende de um teste essencial: sair do papel e se tornar política pública efetiva em cada estado.
Elaborado em parceria com o Ministério da Fazenda, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e a Open Society Foundations, o PTE-NE resulta de um processo participativo realizado entre março e outubro de 2025, com oficinas nos nove estados e contribuições de governos, universidades, sociedade civil e setor produtivo.

O documento segue a lógica dos seis eixos estratégicos do Plano Nacional de Transformação Ecológica, adaptados às realidades e potencialidades nordestinas: Finanças Sustentáveis, Adensamento Tecnológico, Bioeconomia e Sistemas Agroalimentares Adaptados, Transição Energética, Economia Circular e Solidária e Nova Infraestrutura Verde-Azul e Adaptação Climática.
Apresentado durante a COP30, em Belém do Pará, o plano coloca o Nordeste em evidência como território-chave para a implementação da agenda verde brasileira. Cada eixo propõe uma combinação entre inovação e justiça climática. O PTE-NE sugere a criação do Fundo Nordeste de Finanças Sustentáveis e da Plataforma Nordeste de Investimento Climático, voltados a atrair investidores nacionais e estrangeiros e padronizar critérios de financiamento verde. Também projeta o fortalecimento da bioeconomia regional, com foco na Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e peça-chave para a captura de carbono e o uso sustentável da sociobiodiversidade.

A transição energética é tratada como vetor de reindustrialização. O PTE-NE prevê transformar a vantagem natural em energia limpa em competitividade industrial, promovendo o chamado powershoring: atrair indústrias de alto valor agregado — de semicondutores ao hidrogênio verde — com base em energia de baixo custo e baixo carbono. O plano também valoriza a agricultura familiar, a reciclagem, a gestão de resíduos e a integração de comunidades locais na economia circular.
Mais do que um catálogo de propostas, o documento busca consolidar uma governança cooperativa entre os estados. O Consórcio Nordeste atuará como instância de coordenação técnica e política, articulando parcerias e monitorando resultados. A ideia é criar uma estrutura capaz de transformar a cooperação federativa em mecanismo real de financiamento e execução.
O desafio, contudo, é garantir que essa estrutura não se limite à retórica. A região ainda enfrenta escassez de recursos estáveis, fragmentação institucional e barreiras burocráticas que dificultam a implementação de projetos sustentáveis. O sucesso do PTE-NE dependerá da capacidade dos governos estaduais de alinhar políticas, ampliar a participação privada e estabelecer mecanismos de mensuração de impacto — algo que o próprio plano reconhece como essencial.
O presidente do Consórcio Nordeste e governador do Piauí, Rafael Fonteles, reforçou essa preocupação ao destacar que o próximo passo é assegurar fontes de financiamento robustas para tirar o plano do papel. Ele defende que nenhuma política brasileira pode deixar de destinar 14% de seus recursos para ações voltadas ao Nordeste, percentual que corresponde ao PIB estagnado da região, mas que, em sua avaliação, deveria chegar a 27%: “com menos que isso, teremos ampliação da desigualdade regional”.
Mesmo diante dessas incertezas, o documento é um marco: traduz a ambição de reposicionar o Nordeste como protagonista da nova economia verde. O plano afirma que o futuro da região passa por combinar justiça social, desenvolvimento econômico e equilíbrio ambiental — uma equação que, se bem conduzida, pode colocar o Nordeste à frente do Brasil no século XXI.
“O Nordeste será protagonista da transformação ecológica do país”, resume o texto, que combina otimismo e senso de urgência.
*Matéria publicada na edição 226 da Revista NORDESTE.

