Setores internacionais da moda aderem à aquisição de um produto sempre diferenciado
Por Walter Santos
Há alguns dias o município de Ingá, localizado no lugar da Pedra de Itacoatiaras, reuniu importantes revistas nacionais brasileiras para a Colheita da nova safra do Algodão Colorido com direito a desfiles de moda em nível internacional. Quem liderou toda a estratégia foi a empreendedora internacional Francisca Vieira, que concedeu uma entrevista para nova edição da revista NORDESTE.
Leia a seguir ou se preferir acesse pelo APP da revista NORDESTE
Revista NORDESTE – Qual sua análise sobre a influência da produção do algodão colorido como experimento da economia criativa a partir do universo rural e semiárido nordestino?
Francisca Vieira – O algodão colorido veio como uma ferramenta de alinhamento às mudanças climáticas para o homem do campo, uma vez que ele pode ser produzido com apenas 130 mm de chuva (experiencia feita pela Embrapa no assentamento Margarida Alves), em relação ao meio ambiente.
NORDESTE – objetivamente que efeitos promovem?
Francisca Vieira – Já vem com cor, por isto economiza 87,5% de água no processo produtivo e com relação as indústria têxtil, ele é a única fibra têxtil inovadora cultivada em escala industrial que é 100% brasileira, sem falar que hoje se paga ao agricultor, acima de 100% do valor de um quilo de pluma de algodão convencional e isto é o ponto mais importante em relação a economia criativa para nosso semiárido.
NORDESTE – recentemente, no município de Ingá, houve lançamento / colheita mais desfile sobre a nova fase do produto. Como a Sra. encara os efeitos dessa atividade?
Francisca Vieira – Esse evento “O dia da colheita” teve a função de valorizar o agricultor para que ele conheça seu lugar e sua importância na cadeia têxtil brasileira. Em segundo lugar, é para que as instituições locais, regionais e nacionais tomem conhecimento desta cadeia de valor para a economia local e para a imagem do nosso estado no cenário têxtil e de moda e por último, para dar transparência a esta cadeia produtiva, onde ela começa, onde termina, quem são seus atores, quem está fazendo o que, a imprensa local e nacional e muitas vezes até internacional pode conhecer este projeto e divulgar os resultados através do olhar destes agricultores, artesãos, empresários e todos os atores deste projeto.
NORDESTE – na condição de empreendedora vanguardista, o significa hoje a produção e exportação do algodão colorido?
Francisca Vieira – Como diz o Jessé Sousa, o brasileiro tem o complexo de vira lata e por causa disto o que é nosso conduta não tem valor. entretanto, porém, eu fiz uma pesquisa de mercado e ficou claro que este algodão para crescer teria que ser no mercado internacional. Então fui buscar parcerias com a Apex, através do programa Texbrasil da Abit e localmente, tivemos e temos apoio do Sebrae, Senai, Embrapa e conseguimos exportar o algodão, primeiro em forma de moda, hoje em forma de moda, fios e tecidos.
NORDESTE – E mercado no exterior?
Francisca Vieira – Isto não quer dizer que não nos importamos com o mercado nacional. Queremos este marcado sim, porém o mercado nacional tem que valorizar este produto e ter consciência do que ele está comprando para entender o valor do que está pagando, mas não é fácil e custa muito caro abrir mercado no Brasil, é mais barato ir para o exterior.
NORDESTE – Objetivamente, o que houve de realidade a mexer com as diversas camadas de produção do algodão?
Francisca Vieira – O que fizemos foi construir a casa pelo alicerce, isto quer dizer começar a resolver o problema no campo e este problema era pagar o preço justo ao agricultor, então as instituições envolvidas como Emater, Embrapa, calcularam e ainda fazem estes custos para nós, pois somos empresários têxteis e de moda, feito isto, a próxima etapa foi fazer os contratos de compra garantida, para tirar o agricultor da mão do atravessador.
NORDESTE – Como assim?
Francisca Vieira – Hoje, o valor é pago diretamente na conta do agricultor que se organizaram em forma de associações e cooperativas apagando de vez o atravessador que sempre foi quem lucrou com o trabalho no campo.
NORDESTE – Que desdobramentos?
Francisca Vieira – Daí pra frente foi formar o grupo de compradores certos, os primeiros compradores foram a rede Santa Luxia, a Natural Cotton Color e depois a unitextil, hoje o grupo Texpare – estes da Paraíba e atualmente chegaram mais duas empresas do sul e sudeste, acCataguases e Dalila têxtil. Assim, formamos uma APL fechada e tudo começou com a Natural cotton color que precisava garantir matéria prima para atender a demanda internacional.
NORDESTE – De forma mercadológica, qual o tamanho e papel dos produtos da NATURAL COTTON COLOR na Europa e Estados Unidos?
Francisca Vieira – Nosso maior mercado é na Europa, pois não temos braços para abraçar os dois maiores mercados internacionais. Somos uma marca de produtos premium e por causa disso, a maior dificuldade que enfrentamos é mão de obra, uma vez que nosso país ainda não investiu em qualificar mão de obra para o segmento de alfaiataria de luxo, que é o nosso caso e isto é um problema estrutural no nosso país.
NORDESTE – qual a realidade do setor?
Francisca Vieira – Nossa mão – de – obra é cara e ruim. As instituições responsáveis por treinamento de mão -de -obra no Brasil, não olham para o segmento premium e de luxo . Ele foi montado para atender as grandes redes de fast fashion como as Riachuelos da vida, por isto as marcas de moda maiores correm para produzir na Ásia, para se ter mão de obra no segmento de alfaiataria de luxo.
NORDESTE – E o caso do empresariado brasileiro ?
Francisca Vieira – Nós empresários brasileiros do Nordeste temos que treinar nossa própria mão -de – obra. Exemplo: uma costureira para ser treinada no segmento de alfaiataria de luxo, leva um ano, um modelista para este segmento leva dois anos e ele precisa ter um segundo grau, tem que saber matemática. Este tipo de treinamento nem existe mais no Brasil, existia no senai setiqct no Rio de Janeiro, mas hoje está muito deficiente e não conseguem atender a demanda, também não tem mais a capacitação dentro das exigências do setor de luxo, porque priorizam quantidade e não qualidade e o gestor do Senai hoje, mesmo que ele queira, fica difícil de convencer lá em Brasília que ele quer um milhão de reais para formar 10 alunos que ao terminar o curso terão empresas brigando por estes 10, eles preferem formar 100 que não servem para absolutamente nada, que uma marca como a nossa não vai permitir nem ele sentar na máquina, porque ele sequer sabe colocar a linha na agulha, ele não sabe o que é direito e avesso de um tecido, eles são apenas operadores de máquinas e não costureiros, este é o modelo que a CNI criou, não é para marcas de luxo, porem as universidades de moda não são diferentes e o resultado está ai, qual marca de moda brasileira é conhecida internacionalmente? Não tem, quais as nossa tem a relevância de uma Dior, Prada? Não tem e nem vai ter, o problema é estrutural, a França só tem marca de luxo porque o governo decidiu, moda de é decisão de governo e moda sustentável precisa de politicas públicas e decisões de governo.
NORDESTE – qual a realidade na prática?
Francisca Vieira – Querem treinar 40 50 alunos de uma vez, quando teriam condições de treinar 4 ou 5, mas colocam 40 em sala de aula e dali sai 1 ou 2 que é possível para a indústria de luxo absorver . Infelizmente é mais fácil apresentar números do que qualidade. Ainda vem mais de cima, o governo cobra deles números, ou seja, ninguém está preocupado com qualificação de mão – de – obra no Brasil e por isso fica as duas opções: optar pela mão -de -obra asiática, ou crescer muito lentamente bancando a própria qualificação de mão de obra que é que fazemos, por isto ainda somos muito pequenos no oceano do marcado internacional, somos grandes em relação ao trabalho social e ambiental, mas em termos de produção somos muito pequenos ainda.
NORDESTE – como a Sra. consolidou fora do país a marca NATURAL COTTON COLOR no exterior? O que isso significa?
Francisca Vieira – Ainda não somos uma marca consolidada no exterior, pois isto se deve aos motivos que já citei anteriormente e o principal é a falta de mão – de – obra local. Nossa ideia é buscar parcerias para montarmos escolas de moda e costura para os jovens das comunidades, que não podem e não querem sair do município para ir para os grandes centros, isto é combater êxodo rural, mas sem políticas públicas fica impossível.

NORDESTE – Como viabilizar?
Francisca Vieira – Para isto precisamos de decisões políticas, recursos, ou seja parcerias para instrutores de fora do estado e talvez até de fora do Brasil, porque a profissão de alfaiate no brasil foi extinta, eles morrem, os alfaiates envelheceram e a técnica não foi repassada, enquanto lá fora tem escolas voltadas para a artesania da moda, que são os alfaiates, aqui eles foram extintos e o assunto não é discutido em lugar nenhum, eles acham que ensinar alguém a ligar a maquina e fazer um camiseta é dar curso de costura, isto é a realidade hoje no Brasil.
NORDESTE – De que forma vossa empresa insere estratégia de formação educativa em torno dessa produção de algodão colorido?
Francisca Vieira – A Educação é a base de tudo. Dentro do dia da colheita, criamos estações educativas, para mostrar o quão rico é este nosso algodão, como plantar, certificar e colher. Hoje este movimento cresceu, pois os municípios da região em do ingá, manda seus alunos conhecerem a cooperativa, conhecer os campos de algodão. Além do mais hoje já tem eventos de moda em vários municípios como o projeto Moda na Praça da Dra. Nicea Ribeiro, que é um projeto itinerante e faz parcerias com o IFPB e municípios que queiram mostrar que moda é antes de tudo educação e que é acessível para qualquer cidade, desde que faça parte de políticas públicas do gestor municipal, estadual, principalmente em relação a moda regional que existe mas não é levada em consideração.
NORDESTE – Como são os Problemas circunstanciais no setor?
Francisca Vieira – No Brasil, sequer sabem o que é moda e o que é roupa, infelizmente é mais confortável continuar assim e realmente estou bem cansada de explicar o óbvio para gestores e também de fazer o trabalho destes gestores, o que eu e meus colegas fizemos com o algodão colorido é exemplo disso, mas já fico feliz quando eles não me atrapalham, porque já fui muito perseguida e ameaçada no passado, então hoje as instituições são muito parceiras, como Sebrae e Senai, Embrapa, sem elas nós não conseguiríamos fazer este trabalho e estar onde estamos e isto é fato.

