Seis Estados nordestinos lideram os maiores percentuais de baixa renda no Brasil, por Paulo Galvão Júnior

Por Paulo Galvão Júnior (*)

O Brasil é um país sul-americano, emergente, continental, populoso e com os percentuais da população com renda mensal de até R$ 5.000,00, evidenciando profundas disparidades regionais na distribuição de renda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O presente artigo pretende analisar os estados do Nordeste, organizados tanto em ranking regional (entre os nove estados nordestinos) quanto em ranking nacional (entre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal), a partir dos dados estatísticos produzidos pelo IBGE no segundo trimestre de 2025, conforme apresentado no Quadro 1 abaixo:

Quadro 1. Participação na população por estado do Nordeste com renda mensal de até R$ 5 mil (2˚T de 2025)

Estado Participação na população com renda mensal de até R$ 5.000,00 Ranking Regional Ranking Nacional
MA 94,8%
PI 93,2%
CE 93,1%
AL 92,5%
PB 92,3%
BA 92,2%
PE 89,1%
RN 87,4% 10º
SE 86,8% 12º
Fonte: IBGE.

Observa-se claramente no Quadro 1 o predomínio nordestino nos maiores percentuais de baixa renda no Brasil. Os dados do IBGE mostram que a região Nordeste, com 91,4%, concentra os maiores percentuais da população brasileira ocupada recebendo até R$ 5.000,00 por mês, um valor equivalente a cerca de 3,5 salários mínimos (SMs) mensais.

O Brasil tem péssima distribuição de renda e o Nordeste tem uma alta concentração de renda. Claramente, a economia brasileira não consegue promover um elevado crescimento da renda da maioria da população do país.

Os seis maiores índices do Brasil estão no Nordeste (MA, PI, CE, AL, PB e BA). Essa prevalência reforça a persistência de desigualdades estruturais historicamente analisadas pelo paraibano Celso Furtado (1920-2004), um dos maiores economistas brasileiros de todos os tempos. Furtado apontava que as regiões mais pobres não sofrem apenas de escassez de renda, mas de um padrão de desenvolvimento incapaz de romper a dependência histórico-estrutural.

A partir de 1930, com o início da industrialização do Brasil, operou-se o agravamento das disparidades regionais, e o Sudeste e o Sul consolidaram como centro dinâmico da economia brasileira. A discussão sobre a distribuição de renda é algo que remete tanto às economias emergentes quanto às economias avançadas.

A criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), idealizada pelo economista Celso Furtado e instituída em 1959, representou um marco fundamental para a melhoria das condições socioeconômicas do Nordeste. No entanto, apesar de sua relevância estratégica e dos avanços iniciais na formulação de políticas regionais, a instituição enfrentou limitações políticas, disputas federativas, descontinuidades administrativas e restrições orçamentárias que dificultaram a plena execução do projeto de desenvolvimento integrado na região concebido por Furtado.

Em 1974, no Brasil, os 10% mais ricos apropriavam-se de 54% da renda nacional. Passados 50 anos, em 2024, estima-se que esse mesmo grupo econômico concentre 51%, conforme o IBGE.

Maranhão: líder regional e nacional

É interessante notar que, com 94,8% da população recebendo até R$ 5.000 mensais, o Maranhão apresenta a maior proporção de renda baixa do Nordeste e do Brasil. Tal dado reflete não apenas a vulnerabilidade econômica, mas também limitações estruturais que remontam à formação histórica desigual da economia nordestina, dinâmica descrita por Celso Furtado em suas obras, palestras, entrevistas e artigos.

No Maranhão são mais de um milhão de beneficiários do Programa Bolsa Família, que garante um benefício médio de R$ 706,46 por mês, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

Piauí e Ceará: segundo e terceiro lugares no Nordeste e no Brasil

Verifica-se que, os estados do Piauí (93,2%) e Ceará (93,1%) mantêm índices próximos, consolidando o Nordeste como região de predomínio de rendas baixas. Apesar dos avanços recentes em educação, agronegócio e serviços, sobretudo, em turismo, a estrutura produtiva ainda não é capaz de gerar renda suficiente para romper o padrão histórico de desigualdade.

Alagoas, Paraíba e Bahia: próximos ao topo regional e nacional

Ressalta-se que, Alagoas (92,5%), Paraíba (92,3%) e Bahia (92,2%) também revelam mais de nove em cada dez pessoas com renda inferior a R$ 5.000 por mês. Esse valor corresponde às pessoas integrantes da classe E (com renda mensal até 2 SMs) até a classe D (com renda até 4 SMs por mês), de acordo com o IBGE. É preciso destacar que famílias com renda mensal domiciliar de R$ 3.500 a R$ 8.300 são consideradas classe média baixa.

Já segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o critério de classificação socioeconômica é distinto. A classe E apresenta limite inferior de R$ 0 e limite superior de R$ 1.254. A classe D possui limite inferior de R$ 1.255 e limite superior de R$ 2.004. Por sua vez, a classe C abrange indivíduos com renda entre R$ 2.055 e R$ 8.640.

Mesmo diante de economias diversificadas, com polos industriais, persiste o que Furtado denominou heterogeneidade estrutural, onde setores modernos convivem com amplas áreas de baixa produtividade e informalidade.

Pernambuco e Rio Grande do Norte: ligeiramente menores na região

Constatou-se ainda que, Pernambuco (89,1%) e Rio Grande do Norte (87,4%) apresentam percentuais ligeiramente menores na região, mas ainda superiores aos observados nas regiões Sul e Sudeste. Ambos os estados enfrentam desigualdades sociais relevantes, espelhando o diagnóstico de Furtado sobre o descompasso entre industrialização e inclusão social.

Sergipe: menor concentração regional, mas ainda elevada

Verifica-se também, por sua vez, que Sergipe, com 86,8%, é o estado nordestino com menor proporção de pessoas com renda mensal de até R$ 5.000, mas ainda muito acima das regiões mais ricas, como Sul (70,8%) e Sudeste (72,3%), com os percentuais que variam entre 67,5% em São Paulo (SP) e 81,9% em Minas Gerais (MG).

Segundo dados do IBGE, a região com a menor proporção de pessoas com renda mensal de até R$ 5 mil é o Centro-Oeste, com 58,6%. Na região, o Distrito Federal se destaca ao registrar apenas 48,1%, reflexo de uma estrutura ocupacional fortemente marcada pela presença de servidores públicos e cargos de alta qualificação. Com esse resultado, o DF lidera o ranking tanto do Centro-Oeste quanto do Brasil nesse indicador socioeconômico, evidenciando seu perfil de renda mais elevada em comparação às demais unidades federativas.

A questão regional como obstáculo ao desenvolvimento nacional

A região Nordeste participou com 13,8% do PIB brasileiro no ano de 2023, sendo a terceira região mais rica do Brasil. Ela concentrou 26% da população brasileira, sendo a segunda região mais populosa do país, abrigando em nove estados 46,4% das pessoas consideradas pobres no Brasil, com US$ 6,85 por dia, de acordo com o IBGE.

É preciso destacar que o setor de serviços, que controla a maior parcela da economia brasileira em termos de participação no PIB nominal e no emprego formal, caracteriza-se por apresentar salários relativamente baixos e sinais de saturação em diversas atividades econômicas.

Já o agronegócio, embora seja altamente produtivo e responsável por parcela significativa das exportações brasileiras, distribui pouco renda internamente, pois emprega um número reduzido de trabalhadores. Isso ocorre porque grande parte das atividades agropecuárias é realizada por máquinas, equipamentos e tecnologias de alta eficiência, reduzindo a necessidade de muita mão de obra.

Celso Furtado demonstrou que a desigualdade regional era um problema social, como também, um entrave ao desenvolvimento nacional. Um país tão desigual seria incapaz de gerar um mercado interno robusto.

De acordo com Furtado, para reduzir as disparidades regionais é necessário ampliar a demanda interna, incorporar a região ao processo produtivo moderno, elevar os níveis de educação, investir em infraestrutura e criar pólos de dinamismo econômico nos estados.

Esses dados do IBGE reforçam a interpretação de Celso Furtado, segundo a qual o Nordeste consolidou-se historicamente como uma região estruturalmente pobre no contexto do desenvolvimento brasileiro, especialmente a partir do declínio do ciclo da cana-de-açúcar. A persistência dessas disparidades regionais ilustra a continuidade dos padrões de concentração de renda e das assimetrias socioeconômicas vigentes.

Os dados do IBGE são de importância vital, na medida em que fornecem um quadro preocupante de distribuição de renda no Nordeste e no Brasil. Não há dúvida, por conseguinte, de que se trata de uma região rica em recursos naturais, mas a riqueza e a renda são mal distribuídas entre a população nordestina.

Determinados indicadores socioeconômicos do Nordeste comovem e suscitam reflexões críticas, como a renda per capita, estimulando debates entre os cientistas sociais com o propósito de aprimorar interpretações e fomentar novas idéias capazes de orientar a formulação de soluções efetivas a questão em plena Quarta Revolução Industrial.

Menor PIB per capita do Brasil em 2023

O PIB per capita do Nordeste alcançou R$ 27.681,97 em 2023, configurando-se como o menor entre as cinco regiões brasileiras, segundo dados recentes do IBGE. Entre os nove estados nordestinos, o Rio Grande do Norte apresenta a maior renda per capita, atingindo R$ 30.804,91, acima da média regional, mas ainda assim ocupa apenas a 19ª posição no ranking nacional.

Na sequência do ranking brasileiro, aparecem os estados da Bahia (20º lugar), Pernambuco (21º), Alagoas (22º), Sergipe (23º), Ceará (24º), Piauí (25º), Paraíba (26º lugar do ranking nacional, com R$ 24.395,17), e, por fim, o Maranhão, que registrou o menor PIB per capita do país em 2023, com R$ 22.020,63, ocupando a 27ª colocação.

Esses dados do IBGE reforçam a persistência das desigualdades regionais no Brasil, evidenciando a necessidade de políticas estruturantes que promovam maior dinamismo econômico e inclusão social no Nordeste.

Considerações finais

Finalizando, o levantamento do IBGE confirma que seis estados nordestinos lideram os maiores percentuais de baixa renda no Brasil. Mesmo os estados nordestinos com melhores indicadores (SE, RN e PE) superam amplamente a média nacional, com 84% da população brasileira ocupada e recebendo até R$ 5 mil mensais.

Nenhum estado nordestino apresenta índice inferior a 86%. Tal disparidade confirma as desigualdades regionais persistentes, fenômeno que Furtado considerava central para compreender o subdesenvolvimento no Brasil concentrador de renda.

A região Nordeste e o seu desenvolvimento sustentável são relevantes para promover a construção de um Brasil com menor desigualdade regional. Na visão de Celso Furtado, o desenvolvimento econômico deve ser compreendido tanto no âmbito do processo de aumento de produtividade por trabalhador, como também no comportamento dos agentes econômicos que utilizam a renda e a forma com ela se expande na economia.

Esses resultados do IBGE, à luz do pensamento de Celso Furtado, reforçam a necessidade de políticas estruturais voltadas para educação de qualidade, inovação tecnológica, diversificação produtiva e redução das desigualdades sociais.

A brutal concentração de renda apresenta-se como um dos elementos centrais do subdesenvolvimento econômico no Nordeste, revelando a pobreza, a miséria e um enorme contingente de desempregados, de subempregados, de trabalhadores informais, de inadimplentes e de analfabetos.

Por fim, vale afirmar que Furtado sempre propagou que não haverá desenvolvimento nacional pleno, enquanto persistir a profunda assimetria entre as cinco regiões brasileiras. Infelizmente, a pobreza é elevada no Nordeste, conforme aponta o IBGE.

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência e colunista do site da Revista NORDESTE. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.
(**) Os conteúdos publicados pelos colunistas da revista NORDESTE são de inteira responsabilidade de seus autores.

 

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Redacao RNE

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