Por Luciana Leão*
As mudanças climáticas seguem desafiando o setor sucroenergético brasileiro. O boletim da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado nesta terça-feira (4) projeta uma produção de 666,4 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2025/26, uma queda de 1,6% em relação à temporada anterior. O resultado reflete o clima adverso observado durante o desenvolvimento das lavouras — com restrição hídrica, chuvas irregulares e excesso de calor, sobretudo no Centro-Sul do país.
Mesmo com o aumento de 2,4% na área plantada, que chegou a 8,97 milhões de hectares, o avanço não foi suficiente para compensar a redução de 3,8% na produtividade média nacional, agora estimada em 74,2 toneladas por hectare. Segundo a Conab, “o comportamento do clima confirma a tendência de maior variabilidade e de eventos extremos, que afetam a regularidade da produção agrícola”.
Nordeste resiste e mantém estabilidade na safra
O Nordeste se destaca por apresentar resiliência diante do cenário climático adverso. A região deve colher 55,1 milhões de toneladas de cana em 2025/26, o que representa um aumento de 1,3% frente ao ciclo anterior. A produtividade média permanece praticamente estável, em 60,6 toneladas por hectare, enquanto a área plantada avança de 897,5 mil para 908,2 mil hectares.
A estabilidade é significativa diante do quadro de restrição hídrica que ainda atinge áreas importantes do Semiárido. O desempenho regional é sustentado por práticas mais adaptadas ao regime de chuvas, maior uso de irrigação localizada e, em alguns polos, pela integração entre usinas e pequenos produtores, segundo o boletim da Conab.
Sul avança; Sudeste sente efeitos da seca
O contraste vem do Sudeste, que deve colher 420,2 milhões de toneladas, uma queda de 4,4% em relação à safra anterior. O recuo é concentrado em São Paulo, maior produtor do país, com perda de 18,2 milhões de toneladas em função da seca, do calor excessivo e de incêndios em canaviais, fatores que prejudicaram a rebrota e o desenvolvimento das lavouras.
No Sul, o cenário é oposto: chuvas mais regulares favoreceram o avanço da cultura, que deve atingir 36,2 milhões de toneladas, alta de 7,7%. Já o Centro-Oeste apresenta leve ganho de produtividade e aumento de área, com 151 milhões de toneladas projetadas (+3,9%), enquanto o Norte tende a registrar pequena redução, apesar do crescimento da área cultivada.
Açúcar e etanol: produção mista e mudança na matriz
Com menor disponibilidade de cana, o crescimento da produção de açúcar é limitado, mas o país ainda deve alcançar 45 milhões de toneladas, alta de 2% — o segundo maior volume da série histórica, atrás apenas de 2023/24.
A produção total de etanol (de cana e de milho) está estimada em 36,2 bilhões de litros, uma redução de 2,8% frente à safra anterior. A queda vem do etanol de cana, com recuo de 9,5% (26,5 bilhões de litros), enquanto o etanol de milho segue em expansão, crescendo 22,6% e atingindo 9,6 bilhões de litros.
O movimento reforça a tendência de diversificação da matriz de biocombustíveis, com o milho consolidando papel estratégico, sobretudo nas regiões Centro-Oeste e Sul.
Mercado e perspectivas
Entre abril e setembro, o Brasil exportou 17,7 milhões de toneladas de açúcar, redução de 9% em relação ao mesmo período do ciclo anterior. A menor qualidade da matéria-prima, associada ao recuo no Açúcar Total Recuperável (ATR) e ao aumento dos estoques, pressiona as cotações internacionais e mantém o mercado volátil.
No mercado interno, o etanol anidro segue com vendas firmes, impulsionado pela demanda para mistura à gasolina, enquanto o hidratado mostra maior sensibilidade ao câmbio e à paridade de preços com o combustível fóssil.
A Conab avalia que, mesmo diante das oscilações climáticas e de mercado, o setor se mantém sólido. No entanto, o alerta permanece: as mudanças no regime de chuvas e as restrições hídricas podem redesenhar o mapa da produtividade nos próximos anos, especialmente em regiões tradicionalmente mais vulneráveis, como o Nordeste e o Semiárido.
Panorama regional da safra 2025/26 (Conab)
| Região | Produção (milhões t) | Variação | Produtividade (kg/ha) | Área (mil ha) |
|---|---|---|---|---|
| Sudeste | 420,2 | -4,4% | — | — |
| Centro-Oeste | 151,0 | +3,9% | 77.024 | 1.960 |
| Nordeste | 55,1 | +1,3% | 60.630 | 908 |
| Sul | 36,2 | +7,7% | — | — |
| Norte | 4,0 | leve queda | — | — |

