Obra inédita reúne 48 composições, bilíngue e gratuita, e conecta passado, presente e futuro do ritmo símbolo de Pernambuco
Por Luciana Leão
O frevo, ritmo símbolo de Pernambuco, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, ganha agora uma obra inédita que promete marcar época: o FrevoBook. Idealizado por Climério de Oliveira Santos, Marcos Ferreira Mendes (Marcos FM) e Inaldo Cavalcante de Albuquerque (maestro Spok), o livro reúne 48 composições em suas três modalidades — frevo de rua, frevo-canção e frevo de bloco — em formato bilíngue, com distribuição gratuita.
Mais do que um registro técnico, o FrevoBook nasce como um esforço de sistematização, salvaguarda e difusão do frevo. Partituras elaboradas a partir de gravações originais ou fontes dos próprios compositores garantem fidelidade histórica e, ao mesmo tempo, praticidade para quem deseja cantar, tocar ou estudar o gênero.
“Nós nos juntamos por dois motivos: a paixão pelo frevo e a paixão pelos livros. Queríamos criar algo que unisse passado e presente, mas apontasse também para o futuro. O FrevoBook é exatamente isso: uma obra de frevo com identidade própria, pensada para ser a primeira de uma série de livros”, explica Climério de Oliveira,compositor de música popular, violonista e pesquisador no campo da etnomusicologia e da educação musical.
Um processo coletivo
A ideia inicial surgiu de Climério e Marcos FM, que logo convidaram Spok para compor o trio. Todos já tinham experiência como autores e pesquisadores ligados ao frevo. O desafio era dar forma a um material inédito, que reunisse rigor técnico, diversidade de compositores e acessibilidade.
“Desde o início, pensamos em contemplar clássicos e também músicas contemporâneas, para que o livro não fosse apenas memória, mas também atualidade e futuro. Essa convivência é importante porque mostra o frevo como algo vivo”, diz Climério.
Ele lembra ainda do cuidado com as fontes:
“Sempre que possível, buscamos partituras originais ou gravações originais dos compositores. É um rigor necessário para que o registro seja fiel. Muitas músicas ficaram conhecidas em versões diferentes das originais, como Voltei Recife. É linda a interpretação de Alceu e Elba, mas é fundamental termos o registro da forma como foi composta. Isso é história.”
Surpresas e inovações
Entre os diferenciais da obra está a oferta de dois padrões de partitura para os músicos: Melodias cifradas nas três modalidades, incluindo as letras (“lead sheet”) para o frevo-canção e frevo de bloco.
E para o frevo de rua, grades reduzidas, com três ou com quatro partes (pentagramas), mostrando as partes principais( palhetas e metais), servindo como matéria-prima para novos arranjos, um formato já consagrado em outros songbooks e real books, facilitando a execução por músicos que utilizam cifras.
“Muitos músicos que querem cantar ou solar um frevo de rua se deparam com arranjos complexos, cheios de contrapontos. O FrevoBook facilita isso, oferecendo a linha melódica já cifrada. É um jeito de tornar o frevo mais acessível, sem perder a essência”, reforça.
Outro aspecto é o bilinguismo.“O livro é bilíngue porque queremos dar continuidade à internacionalização do frevo. É também uma forma de dialogar com músicos do mundo inteiro”, afirma.
Legado e futuro
Para Climério, o FrevoBook é um marco que cumpre duas funções: valorizar a memória e projetar o gênero para novas gerações. O projeto une clássicos do frevo com músicas contemporâneas, buscando conectar o passado, o presente e projetar o frevo para o futuro.
A capa do livro, com um pentagrama que também é uma estrada, simboliza essa união de presente, passado e futuro.“É um livro que organiza, registra e torna acessível. Mas também é um convite para tocar, cantar e se apaixonar pelo frevo. Essa é a maior contribuição: oferecer um legado vivo, que dialoga com o passado e inspira o futuro.”
Segundo ele, a grande “sacada” do livro foi também seguir as tendências contemporâneas da salvaguarda que é fomentar as práticas atuais, fomentar o fazer em si, o fazer a música.
“No Frevobook não nos prendemos apenas na documentação do passado, mas também primamos por levar em conta as práticas atuais e fomentar essas práticas para que as pessoas se estimulem a fazer frevo hoje, contemplar os de agora também, é isso”.
Climério acrescenta que a tarefa possibilitou a cada descoberta, conhecer cada vez mais os frevos. Quando a gente se debruça e vai transcrever e vai escolher aquelas partituras originais, as mais antigas, as gravações mais antigas, tudo isso vai leva a gente a conhecer mais, os do passado, assim, os consagrados, os clássicos do passado como Nelson Ferreira, Maestro Nunes, o Capiba, o Edgar Moraes, Raul Moraes”.
O lançamento do livro
O lançamento do FrevoBook aconteceu no dia 17 de outubro de 2025, no Conservatório Pernambucano de Música. A programação incluiu conversa com o público, show liderado por Spok (com participação de Climério e Marcos FM) e a presença de compositores que integram o livro, seguida de sessão de autógrafos.
“Foi uma grande celebração. Mais que um lançamento, um encontro de gerações do frevo reunidas em torno dessa obra”, resume Climério.
O projeto foi incentivado pelo Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), da Prefeitura do Recife, e será distribuído gratuitamente.
Bate papo com Climério de Oliveira

Revista NORDESTE – Como foi o processo de elaboração do 1° FrevoBook?
Climério de Oliveira – Primeiro tivemos a ideia eu e o Marcos FM, e logo convidamos o Spok. Todos já éramos escritores ligados ao frevo e queríamos criar algo que unisse passado, presente e futuro. O FrevoBook é, acima de tudo, uma obra de paixão pelo ritmo e pelos livros.
NORDESTE – O que os leitores podem aguardar de surpresas na obra?
Climério de Oliveira – O livro oferece partituras bilíngues, audiolivro em Libras e transcrições a partir das gravações originais, garantindo fidelidade histórica. Também é um material que facilita a execução de frevos de rua por músicos solistas.
NORDESTE – Como foi a parceria de ideias entre os três ícones do frevo?
Climério de Oliveira – Nos juntamos por amor ao frevo e à escrita. Cada um trouxe sua experiência: Marcos FM com seus arranjos, Spok com sua orquestra mundialmente conhecida e eu com pesquisa e violão. Essa convivência de ideias fortaleceu o projeto.
NORDESTE – Como se sente após finalizar o FrevoBook?
Climério de Oliveira –É uma grande realização. Sentimos que transformamos um sonho em obra concreta, capaz de dialogar com músicos, pesquisadores e novos fãs do frevo.”
NORDESTE – Que legado essa obra deixa às futuras gerações?
Climério de Oliveira – O FrevoBook organiza, registra e torna o frevo acessível. É uma obra viva que preserva a memória e inspira quem vai tocar, cantar ou estudar o frevo no futuro.”


