Com emoção e lucidez, a atriz relembra o caminho de Cajazeiras ao cinema nacional, fala sobre fé, resistência e o orgulho de dar voz a personagens à margem da sociedade
Por Walter Santos
Entrevista publicada na Edição 225 da Revista NORDESTE, leia abaixou ou acesse aqui.
Ao longo de quatro décadas, Marcélia Cartaxo construiu uma trajetória marcada por escolhas corajosas e personagens que desafiam estereótipos. Natural de Cajazeiras, na Paraíba, a atriz tornou-se referência no cinema brasileiro ao dar voz a mulheres complexas, resilientes e, muitas vezes, à margem da sociedade. Em entrevista exclusiva, ela revisita sua carreira, revela como a arte foi um pilar em sua vida e compartilha reflexões sobre fé, resistência e legado.
Revista NORDESTE – De que forma você chega à nova versão do Festival de Gramado com reconhecimento do mercado cinematográfico nacional?
Marcélia Cartaxo – Chego com alegria e a certeza de que percorri 40 anos de carreira com determinação. Quando saí de Cajazeiras, sabia que a jornada seria difícil. Não tinha familiares ou contatos na cidade grande que pudessem me apoiar. Durante esse tempo, deixei de lado muitas coisas para abraçar minha carreira. Tive apoios, sim, mas me apeguei ao meu trabalho, vivenciando cada personagem com profundidade. Momentos difíceis, angústias e medos, apliquei em meus trabalhos sem pensar em resultados imediatos. Sempre encarei cada projeto com seriedade, porque o resultado de um trabalho abre portas para o próximo. Então, os meus personagens, eu encontrei, encontrava eles na rua, porque é o que a gente representa. Mas eu cheguei com meus 40 anos, assim, com muita alegria, com muita determinação, com a certeza de que fiz um trabalho muito profundo sobre esses personagens. Essa vivência e esse reconhecimento é muito importante para mim, é muito importante esse registro da minha filmografia.
NORDESTE – Certamente, diante dos últimos prêmios nacionais e internacionais você se apresenta como estrela de um cenário onde a origem de sua performance atrai outra realidade. Como se sente ao superar tantas adversidades e conquistar prêmios nacionais e internacionais?
Marcélia Cartaxo – Hoje me sinto fortalecida e segura, e isso me dá força para novos projetos. Comecei a fazer personagens de apoio, muitas vezes empregadas, mas sempre entreguei tudo que podia. Vivenciar outro ser exige abrir mão de vaidade, família e dores pessoais. Eu pegava esses personagens, que são personagens de apoio e dava o meu maior, tudo que eu tinha, de sentimentos, de trabalhos psicológicos deles, porque para mim eu tenho que trabalhar também a minha psicologia, porque para você vivenciar o outro, outra pessoa, tem que abrir mão de muitas coisas suas também, da sua vaidade, da sua família, das coisas que você passa, das suas próprias dores, para poder vivenciar as dores do outro, os sentimentos, os medos, os anseios altos e baixos da vida. Os conflitos da outra pessoa são muito terapêuticos para mim também. Quando eu vivencio um outro personagem, eu me coloco no lugar dele também, procurando tirar partido disso. Procuro vivenciar os meus projetos, as personalidades dos outros, é tudo muito complexo, e a gente também tem que aprender com eles. E é o que eu faço. Quando trabalhava no grupo Terra, no teatro, a gente via as nossas criações. E para isso a gente tinha que ir para a rua ver, perguntar, pesquisar, experienciar, e isso engrandece demais a gente como ator, enquanto pessoa, enquanto humanidade e é tão bom, é fortalecedor, apesar da dor, apesar das angústias. E assim, geralmente os meus personagens, eles são personagens mesmo da sociedade, onde todas as necessidades, de carência mesmo, de existir, de deixar de ser invisível para a sociedade.
NORDESTE – Pelo que consta em sua trajetória de vida real, a partir de Cajazeiras, você como pessoa tímida, de que forma se permitiu superar adversidades conceituais para chegar onde chegou?
Marcélia Cartaxo – Cresci observando minha família e protegendo minha mãe. Esse aprendizado precoce me fez amadurecer cedo. Quando recebi o convite de Suzana Amaral para A Hora da Estrela, fui sozinha, sem grupo, enfrentando medos e desafios de comunicação da época. A experiência foi intensa e transformadora. Foi muito incrível, porque quando eu cheguei lá para filmar, fazer a hora da estrela, a diretora ficava tão impressionada comigo que ela não deixava ninguém chegar perto de mim na época das filmagens da ‘Hora da Estrela’, que foi o meu primeiro filme. Ela me botava sentada na parede, de frente à parede para ninguém ficar imaculando ali aquele personagem, a Macabéa, o personagem que ela queria. Porque, de certa forma, ela já tinha me encontrado pronta, e não queria que eu me deslumbrasse e fosse para shopping, passear nas ruas em São Paulo e para restaurantes, comer pizza, essas coisas. Então eu fiz a ‘Hora da Estrela’, de toda essa experiência que eu tive.Eu fiz como se fosse a última coisa assim que eu podia me apegar, e claro que foi dolorido. Eu queria ver minha mãe, queria voltar para casa, queria ver meus colegas de grupo. Mas aí as coisas, aos poucos foram clareando e eu estava vivenciando uma experiência única de aprendizado, e Susana Amaral me conduziu muito bem para esse fortalecimento depois de ‘A Hora da Estrela’.

NORDESTE – Como é conviver com sociedade rural de dificuldades até convivendo com os efeitos de Cabaré no sentido real da palavra e chegar onde você chegou?
Marcélia Cartaxo – Meus personagens são, em sua maioria, invisíveis, de classe baixa, à margem da sociedade. Muitos precisam de assistência em educação, saúde e cidadania. Eu mesma vim de uma família com dificuldades e aprendi a lutar para sobreviver. Para vivenciar esses personagens, precisamos nos despir de privilégios e experiências próprias, igualando-nos em sentimentos, angústias e esperanças. A arte me permitiu dar voz a essas pessoas e mostrar sua importância.
Mas eu acho que eu também faço parte dessa sociedade rural. Porque na minha família eu senti todas as dificuldades necessárias, por exemplo, até mesmo no meu próprio ofício, quando eu ia para estreia de algum personagem, quando eu ia procurar um trabalho, eu não tinha roupa adequada, era uma calça jeans e uma camiseta hering, eu não tinha essa vaidade, porque os meus personagens eles são muito muito populares, são pessoas que precisam de tudo, de uma assistência na saúde, de assistência na educação, até mesmo para sobreviver. Então, eu aprendi também que eu estava nesse lugar, que eu precisava lutar muito muito e ter muita determinação para poder vivenciar esse meu ofício, eu não julgo nenhum dos meus personagens, eu vivo eles, na essência deles, no que eles são, eu procuro viver a essência de cada ser humano, porque eu acho que cada um de nós, apesar de não ter esse lugar, que a sociedade aceita, porque a sociedade que a gente fala é a classe média, é a própria classe média que julga a gente, que não aceita, que se acha melhor.
NORDESTE – O fato é que no decorrer dos tempos você superou tantos perrengues mas precisou enfrentar a dura realidade do Rio de Janeiro. O que significou ter sido inserida no elenco da Rede Globo?
Marcélia Cartaxo – Tive a oportunidade de interpretar protagonistas que representam mulheres do Norte, rurais, benzedeiras e carpinteiras. Essas mulheres estão ficando à margem, porque a velocidade do tempo é grande. As pessoas não estão dando muito valor às questões humanitárias, às necessidades dos outros. E essa vivência nesse personagem assim é incrível, porque são pessoas assim simples, com sua vida rural. Porque a gente na cidade grande dificilmente a gente encontra uma benzedeira, uma parteira. E vivenciar essa mulher espirituosa, essa mulher que acredita na esperança, na fé, a determinação da parteira. A primeira palavra que elas falam é a esperança. A esperança de ficar boa, a esperança da transformação. A esperança é de viver com saúde, de ter coragem. Porque tudo parte dessa existência psicológica que o sistema faz com a gente. É que quando a gente está velho, não querem mais a gente e temos que ir para o asilo. Quando a gente tem algum problema, todos esses problemas ficam à margem. Quando a pessoa é cega, nasce com algum defeito, com algum problema, a sociedade quer eliminar. E na zona rural não tem muito essa assistência. Então, a gente pode ver que é uma luta assim de muita resistência mesmo. A nossa sociedade de classe baixa é muito forte. É muito resistente e esses trabalhadores rurais. Nossa, a gente vê muita humanidade, a gente vê muita troca. Eles recebem a gente assim com tanto amor, com tanto orgulho. E assim ajudando uns aos outros. E tem outros convites. Sérgio Machado, que é um diretor que junto com Walter Salles, fizeram a Central do Brasil e prepararam um elenco de peso. Ele está me convidando para fazer um personagem e eu estou muito feliz por esse convite. Tenho a minha biografia a minha cinebiografia que o diretor Alan Deberton também, está debruçado para poder contar a minha história, um pedaço da minha história, uma parte da minha história. E enquanto eu tiver vida, enquanto tiver projeto, enquanto tiver convite, eu vou me dedicar, vou fazer, vou me envolver, e vou criando mais experiências, para os personagens futuros.

NORDESTE – O que representou o filme “Ainda estamos aqui” como efeito do cinema brasileiro no circuito internacional?
Marcélia Cartaxo – O filme de Walter Salles, Ainda Estou Aqui, representa essa resistência do audiovisual, dos altos e baixos que a gente vive aqui no nosso país. A gente ainda não é mercado, a gente ainda está nessa superfície, a qualquer hora pode desabar de novo. Então, a luta atual, a luta cultural, a resistência cultural deve permanecer, a gente é um mercado, e temos muitos trabalhadores culturais que saem por aí registrando os acontecimentos do nosso país e isso é muito provocante, assim como o professor, como os jornalistas, como os artistas, a gente precisa manter essa voz, manter essa resistência, para que a gente não fique à margem do mercado, que é assim que o Brasil trata a gente, trata os professores. Não agora, com essa força, que é essa garra que o nosso presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, tem. Eu acho que para administrar o nosso país, tem que ter um outro Lula, que veio da terra, que veio do chão. Que veio da necessidade, que veio da resistência. Porque empresários já ricos, que já tem de tudo, eles não vão enxergar isso. Os empresários querem, cada vez mais, que suas empresas, que seus negócios, se ampliem, passam por cima de tudo, que o povo fique invisibilizado, fique escravo de novo, volte para senzala, volte para dentro do armário, volte para onde eles não querem ver, eles não querem enxergar isso, eles não querem enxergar a sociedade. Esses políticos não querem enxergar o nosso Brasil como crescimento, humanizar as pessoas, ter um tratamento, de respeito, a partir da educação, da cidadania, que as pessoas tenham os seus direitos preservados, seus direitos trabalhistas. E seus trabalhadores sejam bem tratados psicologicamente, tenham suas férias, tenham seu direito de fazer o que quiser nas suas férias, com o seu dinheiro. Então é a nossa resistência mesmo, a resistência do professor, a resistência, da própria classe trabalhadora.
NORDESTE – Quais seus novos planos para o futuro à frente sabendo que estais em Tocantins com novos trabalhos especiais?
Marcélia Cartaxo – Sou pé no chão, sem vaidade. Minha vaidade é a arte e os personagens. Recentemente fiz A Praia do Fim do Mundo, dirigido por Pepa, onde precisei transformar minha aparência para viver o personagem. Meu desejo é continuar vivendo mulheres complexas, com força e representatividade. Cajazeiras me homenageou com um equipamento de cinema com meu nome, e isso me emociona profundamente. A arte me alimenta e fortalece minha vida e minha existência, dando sentido a todo esforço dos últimos 40 anos.

