Por Ana Júlia Silva
Em 2025, o baiano Jean Marcos Sousa Santos decidiu transformar a experiência adquirida na gestão pública em um negócio de impacto social. Depois de quase três anos à frente de uma unidade básica de saúde em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, percebeu que a tecnologia poderia mudar o cotidiano de quem depende do Sistema Único de Saúde — e também dos profissionais que atuam nele. Dessa vivência surgiu a Doctor Smart, uma healthtech nordestina que aposta na inovação para tornar o acesso à saúde mais simples e humano.
A empresa iniciou suas operações em outubro e projeta faturamento superior a R$ 10 milhões em menos de dois anos. O número impressiona, mas para Jean a motivação sempre foi outra. “A Doctor Smart nasceu da vontade de ajudar as pessoas e melhorar a vida de quem depende de um sistema muitas vezes sobrecarregado”, afirma o fundador e CEO.
Do serviço público à inovação
Foi dentro do SUS que Jean começou a testar ferramentas simples de gestão. Ele implementou sistemas que agilizaram o agendamento de consultas, organizaram dados e reduziram o tempo de atendimento. Os resultados apareceram rápido, mas as limitações do serviço público o fizeram enxergar que seria possível ir além.
“Eu via o potencial de otimizar o tempo e facilitar o atendimento, mas havia um limite até onde o serviço público podia ir”, lembra. A ideia amadureceu até que apresentou ao desenvolvedor Matias Berrueta, hoje seu sócio. Juntos, decidiram tirar o projeto do papel, apostando em pesquisas de mercado e investimento próprio.
“Começamos com uma convicção: queríamos uma plataforma que unisse tecnologia, empatia e eficiência”, conta Jean. Assim nasceu a Doctor Smart — com a proposta de conectar médicos e pacientes de forma integrada, oferecendo um ambiente completo de cuidados, e não apenas um aplicativo de consultas.
Um ecossistema de cuidado

A Doctor Smart foi concebida para simplificar a vida do paciente e dar suporte ao trabalho médico. Por meio de uma carteira de saúde digital, o usuário pode registrar exames, acompanhar dados como glicemia, pressão arterial e todo o histórico clínico. Essas informações, com autorização, podem ser compartilhadas com os profissionais de saúde, permitindo acompanhamento contínuo e comunicação direta.
Gilnei Araújo, moradora de Nova Redenção (BA), conta que enfrentava dificuldades para manejar o tratamento da mãe idosa antes de conhecer a plataforma Doctor Smart.
“Minha mãe mora no interior e realiza consultas com médicos de Salvador, a locomoção de uma cidade para outra era complicada e cansativa, depois que conhecemos a plataforma podemos consultar o médico no conforto de casa”, revela.
Segundo o CEO da plataforma, o paciente não paga nada para acessar o serviço, apenas pelas consultas. Mas tem acesso a ferramentas que realmente fazem diferença na rotina de acompanhamento.
“Queremos criar um ecossistema completo de cuidado, em que o paciente se sinta acolhido e o profissional tenha dados que o ajudem a oferecer um atendimento mais eficiente”, acrescenta Jean.
Crescimento e próximos passos
Mesmo em fase inicial, a Doctor Smart já demonstra potencial de expansão. Os testes realizados por dois meses foram exitosos, e em pouco mais de uma semana desde o lançamento oficial, mais de 100 pacientes se cadastraram na plataforma e passaram a utilizar as funcionalidades disponíveis. A equipe, hoje formada por quatro colaboradores, deve crescer para 12 até o final do ano.
Os planos para os próximos dois anos são ambiciosos: alcançar 2 mil profissionais em Salvador, o equivalente a cerca de 10% do mercado local.
Em médio e longo prazo, a empresa mira outros estados brasileiros e até países da América Latina, com a meta de chegar a 12 mil profissionais e 30 milhões de pacientes cadastrados. “Nosso objetivo é que o acesso básico à saúde seja gratuito para todos”, resume o CEO.
Saúde acessível também no interior
Com operação concentrada em Salvador e região metropolitana, a Doctor Smart já traça um plano de expansão para o interior baiano. Cidades como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Ilhéus e Itabuna estão no radar para os próximos meses. Jean também pretende criar mecanismos de integração com o setor público.
“O serviço público precisa de mais tecnologia para otimizar o atendimento. Muitas vezes o paciente se desloca só para marcar uma consulta. Se investíssemos mais em prevenção e monitoramento digital, reduziríamos o número de emergências”, avalia.
Para ele, parcerias público-privadas podem ser uma alternativa viável. “O empreendedor local tem capacidade de oferecer soluções tecnológicas que o Estado nem sempre consegue desenvolver. Essa colaboração pode gerar resultados reais para a população.”
Um legado de empatia e educação
Mais do que uma startup de saúde, a Doctor Smart quer construir um projeto de transformação social. A empresa está montando um estúdio de podcast, que entra no ar em novembro, com a proposta de levar à população informações sobre prevenção, saúde mental e qualidade de vida.
“Queremos falar sobre temas que façam diferença no dia a dia das pessoas, em linguagem acessível e educativa. Nosso propósito é deixar um legado de empatia, cuidado e respeito”, afirma Jean Marcos, convicto de que a tecnologia, quando aliada à sensibilidade humana, pode tornar o acesso à saúde não apenas mais eficiente, mas também mais justo.
*Conteúdo publicado na edição 225 da Revista NORDESTE

