Trump reacende a guerra comercial com tarifa adicional de 100% sobre produtos chineses

Por Paulo Galvão Júnior (*)

 

A guerra comercial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China volta a escalar após o anúncio do presidente americano Donald Trump de uma nova tarifa adicional de 100% sobre as importações chinesas, com início previsto para 1º de novembro de 2025.

O fato novo é que, com a nova decisão de Trump, amplia-se as tensões geopolíticas e econômicas, reacendendo uma guerra comercial entre EUA e China, que já vem provocando sérias distorções no comércio mundial, e, consequentemente, na economia global.

A China é a maior reserva e a maior produtora de terras raras do mundo e, sob a liderança do presidente chinês Xi Jinping, impôs restrições às exportações desses minerais estratégicos, como o neodímio (Nd), o európio (Eu) e o ítrio (Y), para os EUA, provocando uma reação nos mercados internacionais e acirrando as tensões comerciais entre os dois países membros do Grupo dos Vinte (G20).

É importante destacar que a China exerce domínio praticamente absoluto sobre o processamento dos 17 minerais raros estratégicos, como o lantânio (La), o promécio (Pm) e o samário (Sm), controlando as etapas de refino, separação e purificação que garantem sua posição de liderança global nesse segmento econômico com muito potencial de crescimento a nível mundial.

Os minerais raros são amplamente utilizados em ímãs permanentes, baterias, lasers, satélites, catalisadores, drones, robôs, motores elétricos, além de equipamentos eletrônicos e militares, provocando forte dependência tecnológica e geopolítica das principais economias mundiais em relação à China.

 A origem da guerra comercial

De início há a considerar que a guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta começou oficialmente em 22 de março de 2018, quando os EUA, sob o primeiro mandato de Trump, impuseram tarifas protecionistas sobre produtos chineses, 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio, alegando práticas comerciais desleais, violação de propriedade intelectual e subsídios estatais distorcivos.

Assim, Pequim reagiu na mesma proporção, aplicando tarifas sobre produtos agrícolas e industriais norte-americanos. Desde então, o mundo tem acompanhado um vaivém de tarifas, tréguas, novas tarifas e novas ameaças, sempre com impactos diretos nas cadeias produtivas e nos fluxos de investimento global.

Há um importante aspecto que durante o governo Joe Biden (2021-2024), a guerra comercial perdeu intensidade, mas as tarifas herdadas não foram totalmente revogadas. Com o retorno de Trump a Casa Branca em 2025, o protecionismo voltou ao centro da agenda norte-americana e o livre comércio foi golpeado duramente à beira dos 250 anos de A Riqueza das Nações, do economista escocês Adam Smith.

Evolução da guerra comercial entre EUA e China

Verifica-se que os EUA, o país mais rico do mundo, com um Produto Interno Bruto (PIB) nominal de US$ 30,5 trilhões, no segundo trimestre de 2025, entre março de 2018 a outubro de 2025, iniciou e intensificou uma guerra comercial com a China, a segunda maior economia do planeta em termos do PIB nominal, com US$ 19,23 trilhões, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A China é a maior economia do mundo em PIB por Paridade de Poder de Compra (PPC), com US$ 40,7 trilhões, enquanto os EUA são o segundo com US$ 30,5 trilhões, de acordo com o FMI. A PPC ajusta as comparações internacionais com base no custo de vida e bens e serviços, demonstrando o volume real de produção. Em contraste, o PIB nominal dos EUA ainda é o maior, mas a China supera os EUA em termos de PPC, devido à sua economia de grande volume e custos mais baixos para bens e serviços básicos.

Impactos econômicos e geopolíticos

A guerra comercial entre os EUA e a China iniciou com a motivação principal do governo do presidente republicano Donald Trump de reduzir o déficit comercial dos EUA com a China e combater práticas que Washington considerava desleais por parte de Pequim.

Observe-se que, vários especialistas estimam que as tarifas adicionais poderão elevar os custos de produção nos EUA, afetando desde o setor automobilístico até a indústria eletrônica, que depende fortemente de insumos e componentes chineses. A China é a fábrica do mundo desde 1986, e em 2009, a República Popular da China ultrapassou a Alemanha e se tornou líder global em exportações de bens.

Por outro lado, a China pode recorrer a medidas de retaliação não tarifárias, como maior controle de exportação de minerais estratégicos, limitação de insumos industriais e pressões sobre empresas americanas operando em território chinês. Além de utilizar a lei da reciprocidade contra os EUA.

Além das consequências econômicas, a guerra comercial amplia a fragmentação das cadeias globais de valor agregado, com empresas migrando para o modelo China +1, deslocando parte da produção para países vizinhos como Vietnã e Índia.

Não se pode deixar de apontar que a cidade chinesa de Shenzhen é uma Zona Econômica Especial (ZEE), é uma metrópole ultramoderna, com arranha-céus e um dos maiores polos de inovação da Ásia. Localizada em uma nação que é a terceira maior extensão territorial do planeta e a segunda maior população do mundo, os chineses e turistas internacionais podem desfrutar de inovação e tecnologia, no qual oferece uma imersão em tecnologia de ponta, com acesso a centros de inovação, feiras de alta tecnologia e as sedes de empresas globais como a Huawei, a BYD, a Tencent, a DJI e a Mindray.

O novo risco da escalada

Parece claro, que a decisão de Donald Trump é interpretada como parte de uma estratégia de contenção do avanço chinês em setores de alta tecnologia e inteligência artificial (IA). O presidente Trump também mencionou possíveis restrições à exportação de softwares críticos dos EUA, o que ampliaria o conflito comercial para o campo tecnológico e militar.

Atualmente, a China, por sua vez, vem buscando reforçar alianças econômicas por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota, estreitando laços comerciais com o Sudeste Asiático, África e América Latina, que se tornam cada vez mais estratégicas nessa disputa por influência global.

Deste modo, a guerra comercial tem severos impactos no comércio internacional, levando a interrupções nas cadeias de suprimentos, aumento da volatilidade dos preços de commodities agrícolas, minerais e energéticas, além de incertezas econômicas globais.

 Considerações finais

Finalizando, a guerra comercial entre EUA e China, que completou sete anos e seis meses de duração, entrou em uma nova fase de tensão. As tarifas adicionais de 100% impostas por Trump, se implementadas integralmente, podem agravar o comércio global e frear o crescimento econômico mundial. Logo, as tarifas protecionistas alcançarão 130% para produtos chineses.

Para concluir, o cenário de incertezas se intensifica com a guerra tarifária, que causa instabilidade nas cadeias globais de produção e comércio internacional, e com a volatilidade no mercado financeiro internacional. O mundo observa apreensivo o novo embate entre Washington e Pequim, que deixou de ser apenas uma disputa comercial, tornou-se uma batalha pela hegemonia tecnológica e pelo poder geopolítico e econômico do século XXI.

 

 

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência e colunista da Revista Nordeste em João Pessoa, no Brasil, e do Portal North News em Toronto, no Canadá. WhatsApp para entrevistas: +55 (83) 98122-7221.
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Luciana Leão

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