Cidades serranas, parques arqueológicos e rotas culturais ganham protagonismo no mapa turístico da região
Matéria publicada na edição 224 da revista NORDESTE. Leia abaixo ou acesse a reportagem clicando aqui
Por Luciana Leão
O turismo no Nordeste brasileiro passa por um momento de expansão para além das capitais e praias já consolidadas. O movimento de interiorização valoriza cidades históricas, destinos de natureza e experiências culturais autênticas, que atraem cada vez mais visitantes.

Essa tendência é confirmada pelo Mapa do Turismo Brasileiro 2025, atualizado pelo Ministério do Turismo, que registrou crescimento de mais de 150% no número de municípios estratégicos para a atividade. A Embratur classifica o fenômeno como estrutural, impulsionado pela busca por experiências autênticas, contato com a natureza e valorização da cultura local.
O turismo de experiência, que combina cultura, gastronomia, natureza e lazer, aparece como principal motivação dos visitantes pelo Nordeste. Pesquisa da booking.com reforça a tendência: embora o turismo de sol e praia ainda lidere (62%), cresce a procura por roteiros religiosos (18%), culturais e históricos (14%), além do esportivo e de aventura (13% cada).
O turismo internacional também acompanha essa expansão. Em 2025, o Nordeste recebeu mais visitantes estrangeiros em destinos fora dos grandes centros, como Lençóis Maranhenses (MA), Serra da Capivara e Parque Nacional de Sete Cidades (PI), além de ícones já consolidados como Maragogi (AL) e Fernando de Noronha e Porto de Galinhas (PE).
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses ganhou destaque na lista dos 10 destinos alternativos da USA Today e foi citado pela Travel + Leisure como opção fora das rotas tradicionais em 2025.
Para o Ministério do Turismo, a mudança reflete o novo perfil de viajante. “As pessoas estão em busca de autenticidade. Querem conhecer a vida local, participar de festas populares, provar a culinária regional e descobrir belezas naturais ainda pouco exploradas”, afirmou o ministro Celso Sabino.
Exemplos se multiplicam pela região: Bananeiras (PB) conquista turistas pelo clima serrano, gastronomia e vida cultural; o Vale do Catimbau (PE) se destaca pelas formações rochosas e sítios arqueológicos; e a Serra da Capivara (PI) bateu recordes de visitação em 2025, ganhando projeção internacional como patrimônio arqueológico reconhecido pela UNESCO.
Economia fortalecida
O movimento vem acompanhado de impacto econômico. O turismo representa cerca de 9,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste, segundo estudo do Ministério do Turismo e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe-USP).
Essa participação é a mais alta entre as regiões do Brasil, mostrando o peso estratégico do setor na dinâmica econômica regional.
Em 2024, o setor empregou 433,3 mil pessoas formalmente na região, de acordo com o Observatório Nacional do Turismo. Apesar disso, a remuneração média no turismo foi de R$ 1.819,87, equivalente a 1,28 salário mínimo — abaixo da média geral do Nordeste, de R$ 2.676,18, a mais baixa do País.
As informações fazem parte do Boletim Temático sobre o Turismo do Nordeste, elaborado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que destaca também a diversidade da oferta regional. A força do turismo nordestino está concentrada no sol e praia, mas outros segmentos vêm crescendo: turismo de negócios, cultural, religioso e ecoturismo. Salvador, por exemplo, figura como a 6ª cidade mais visitada por estrangeiros para lazer no Brasil, segundo a Braztoa 2025.
Programas como o Destino Futuro, iniciativa da Sudene em parceria com a Embratur e o Porto Digital, buscam impulsionar esse movimento por meio da conexão entre startups e o trade turístico, ampliando inovação e competitividade.
O avanço, contudo, depende de enfrentar gargalos estruturais. Melhorias em saneamento, transporte, mobilidade aérea (voos regionais), sazonalidade, diversificação de destinos e sustentabilidade ambiental são apontadas como essenciais para consolidar o setor como motor do desenvolvimento regional.
Com isso, abre-se espaço para investimentos em infraestrutura, qualificação de serviços turísticos e criação de roteiros integrados.
Turismo sustentável e o público 60+


O turismo sustentável vem se consolidando como uma alternativa de experiência no Nordeste, especialmente em cidades do interior que aliam cultura, natureza e hospitalidade.
Um dado que chama atenção é o perfil dos viajantes: pessoas acima dos 60 anos têm buscado cada vez mais esse tipo de vivência, interessadas em roteiros que combinam tranquilidade, contato com comunidades locais e práticas de menor impacto ambiental.
Guardiões da história e da biodiversidade, guias turísticos locais têm adaptado seus serviços para atender esse público, oferecendo passeios acessíveis, gastronomia regional e iniciativas que estimulam a economia comunitária. O movimento favorece não apenas o bem-estar dos visitantes, mas também a preservação dos territórios e a geração de renda em áreas antes pouco exploradas.
A bióloga e mestra em Educação Ambiental, Ana Lúcia Carneiro Leão, abraça essa nova experiência profissional e também pessoal. Ela organiza grupos de amigos e amigas viajantes com mais de 60 anos para explorar os inúmeros achados turísticos pelos estados. Confira a entrevista:
NORDESTE – O que mais tem atraído os viajantes acima dos 60 anos para os roteiros sustentáveis no interior do Nordeste?
ANA LÚCIA CARNEIRO LEÃO– “Eu e minha sócia Fafinha Mariano, parceira da FafisLú – Viagens Divertidas pelo Nordeste, construímos nossos roteiros baseados em cinco eixos: 1° Natureza, 2° História, 3° Comunidade Local, 4° Gastronomia e 5° Artes. Estes atributos atraem nossos viajantes.”
NORDESTE – Como vocês adaptam as experiências para garantir conforto, acessibilidade e autenticidade para esse público?
“A escolha dos destinos é feita de maneira participativa e colaborativa. Para cada local a ser escolhido, fazemos uma enquete de interesse e de adesão, tanto com nossos clientes quanto com a rede de parceiros do turismo local. Os roteiros são preparados em conformidade com o perfil do grupo.”
NORDESTE – De que forma o turismo sustentável tem impactado as comunidades locais e ajudado a preservar tradições e o meio ambiente?
“O Turismo de Base Comunitária, o turismo responsável e sustentável tem como premissas a preservação ambiental, a valorização das tradições e costumes locais, a proteção das riquezas arqueológicas, biodiversidade e cultura local. É um turismo inclusivo, que dinamiza a vida socioeconômica, ecológica e cultural.”
Rios, cachoeiras, história e cultura
A NORDESTE organizou um mini guia com sugestões em cada um dos nove estados nordestinos. Confira a seguir:
Maranhão: interiorização em prática
O Governo do Maranhão em resposta à reportagem da revista NORDESTE destaca que o estado já investe fortemente na diversificação de rotas.
O turismo maranhense hoje é estruturado em 10 polos turísticos, que combinam identidade cultural, patrimônio histórico e beleza natural:
Polo São Luís: patrimônio colonial, cultura quilombola e artesanato.
Polo Lençóis e Delta: Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e Delta do Parnaíba.
Polo Chapada das Mesas: ecoturismo, cachoeiras e turismo de aventura.
Outros destaques são Floresta dos Guarás, Cocais, Munim, Lagos e Campos Floridos, Serras Guajajaras Timbira e Kanela, Amazônia Maranhense e Sertão Maranhense, cada um com características únicas em cultura, natureza e eventos locais.
O estado investe em promoção, qualificação e roteiros integrados, como a Trilha dos Saberes e o projeto Expedições de Turismo, fortalecendo o turismo comunitário e produtos regionais. O fluxo turístico cresce, com destaque para os Lençóis Maranhenses e o turismo náutico em Raposa, que dobrou embarques no 2º trimestre de 2025, segundo o Observatório do Turismo do Maranhão.
Para o governo estadual, o maior desafio está na diversificação da oferta de serviços turísticos com qualidade e na atração de investidores locais e regionais, via parcerias público-privadas.
Piauí: Do Parnaíba ao Sertão

O Piauí abriga diversas belezas esculpidas pela natureza, e um deles é o Parque Nacional de Sete Cidades. Localizado nos municípios de Brasileira e Piracuruca, no Norte do Estado, o local é um dos atrativos turísticos piauienses mais espetaculares, possuindo formações rochosas únicas e repletas de simbolismo e história, pinturas rupestres, trilhas, piscinas naturais e uma cachoeira.
Com 6.222 hectares e um perímetro de 36 quilômetros, a Unidade de Conservação foi criada em 1961, pelo Decreto Federal Nº 50.744, e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). e outros polos arqueológicos e naturais.
Outro grande movimento natural é a Serra da Capivara que abriga a maior concentração de sítios pré-históricos do país. São principalmente pinturas rupestres realizadas pelos povos que viveram na região há 100 mil anos. O parque possui 1.220 sítios arqueológicos e foi declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) Patrimônio Cultural da Humanidade.
Bahia: ecoturismo e interior cultural


Além das praias consagradas de Salvador e Porto Seguro, a Bahia aposta na interiorização do turismo, com forte crescimento do ecoturismo e de experiências culturais.
A Chapada Diamantina e a cidade de Lençóis oferecem trilhas, cachoeiras, grutas e paisagens que atraem visitantes nacionais e internacionais.
“O turismo aqui é uma oportunidade de mostrar nossa cultura e natureza, além de gerar renda para os moradores”, afirma João Santos, guia turístico na Chapada Diamantina.
Pernambuco: ecoturismo, arqueologia e turismo religioso
Além dos destinos já consolidados como a praia de Porto de Galinhas e o arquipélago de Fernando de Noronha, o estado reserva destinos religiosos, arqueológicos, culturais, gastronômicos e de ecoturismo.
O Vale do Catimbau se destaca pelo ecoturismo e sítios arqueológicos. À reportagem da revista Nordeste, Luciano Bezerra Cavalcanti, 34 anos, guia de turismo no Vale do Catimbau e membro da Associação dos Condutores Turismo do Catimbau (ACONTURC), disse que desde criança, acompanhava visitantes que passavam nas terras de seu tio e, dessa forma, se apaixonou pela natureza até hoje.

“Como eu já tomava conta de uma trilha do terreno de meu tio, gostava de ir com os turistas e deixar ela (trilha) bem organizada. A partir daí, estudei e me capacitei como guia de turismo local, em 2003, e comecei a conhecer as trilhas do parque e a sua história.
Nos passeios oferecidos por Luciano e sua equipe o visitante se depara com belezas naturais da Caatinga, sítios arqueológicos que mostram a presença dos homens pré-históricos estimada em até seis mil anos de idade na área do parque, com vestígios rupestres inscritos nas pedras.
Pesquisadores apontam que o Parque Nacional do Catimbau tem aproximadamente duas mil cavernas e 28 cavernas-cemitério dos primeiros habitantes da região, ainda no período do Holoceno, que moravam em cavernas.
Também no Agreste pernambucano, a Vila de Cimbres, no distrito de Pesqueira, se consolida como turismo religioso atraindo peregrinos com o culto ao templo de Nossa Senhora das Graças.
O personagem dessa peregrinação é a Irmã Adélia Carvalho, nascida Maria da Luz Teixeira de Carvalho que junto com Maria da Conceição Silva, foram testemunhas das mensagens marianas em época de confrontos na região com o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião. O acontecimento deu início a um processo de beatificação de Irmã Adélia na Santa Sé, similar às aparições em Lourdes (França-1858) e Fátima (Portugal-1917).
Pernambuco também reserva surpresas como Bonito, Brejo da Madre de Deus, Gravatá, Garanhuns, no Agreste, além de Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do São Francisco, ao oferecerem, respectivamente, roteiros culturais, de aventura, e de enogastronomia.
Ceará: turismo religioso, arqueológico e de aventura

Além dos tradicionais destinos litorâneos, como Jericoacoara e Canoa Quebrada, o interior do Ceará vem ganhando protagonismo.
Juazeiro do Norte se destaca pelo turismo religioso, atraindo peregrinos ao longo do ano, especialmente durante a romaria de Padre Cícero.
No Cariri, sítios arqueológicos e formações rochosas oferecem roteiros de ecoturismo e aventura, incluindo trilhas, observação da fauna e patrimônio histórico preservado.
Festivais culturais e roteiros integrados conectam cidades do interior com Fortaleza e com destinos costeiros, fortalecendo o turismo regional e ampliando experiências autênticas de cultura, gastronomia e natureza.
Paraíba: festivais culturais e turismo serrano
O interior paraibano se destaca pelo turismo de experiência, combinando natureza, cultura e festivais tradicionais.
As Rotas Culturais Caminhos do Frio e Raízes do Brejo recebem a cada ano mais visitantes. Dados do Sebrae apontam que o turismo doméstico cresceu 56% entre 2021 e 2025, gerando cerca de R$ 625 milhões para a economia.
Bananeiras, na região do Brejo paraibano, atrai pelo clima serrano, gastronomia e atividades culturais locais. Já Campina Grande acresce sua relevância para além do ciclo junino, ao manter por 30 anos o Festival de Inverno.
“A Rota Cultural Raízes do Brejo já é uma referência para o turismo de base cultural no Estado, atraindo visitantes, movimentando a cadeia produtiva e reforçando a identidade do nosso povo”, disse a secretária de Estado do Turismo e Desenvolvimento Econômico, Rosália Lucas, ao anunciar mais um aporte para R$ 400 mil para a realização das Rotas Culturais do interior do estado.
Rio Grande do Norte: interior de ecoturismo e cavernas
O interior do Rio Grande do Norte vem ganhando protagonismo com roteiros voltados à natureza e à aventura.
A Rota das Cavernas, nos municípios do Oeste, oferece rapel, trekking e exploração de formações geológicas únicas, enquanto áreas como o Parque das Dunas em Natal complementam a oferta com trilhas ecológicas e biodiversidade local.
O turismo comunitário e de vivência cultural valoriza festas e tradições locais, mostrando que o RN não se resume ao litoral de Pipa e Genipabu.
Alagoas: ecoturismo, turismo rural e experiências autênticas
Além das praias famosas de Maragogi e São Miguel dos Milagres, Alagoas amplia o ecoturismo com os Cânions do São Francisco e o Santuário Ecológico Santa Tereza, oferecendo trilhas, passeios de catamarã e contato direto com a natureza.
O turismo rural cresce em fazendas históricas e empreendimentos locais que combinam gastronomia, hospedagem e vivência cultural, atraindo visitantes que buscam autenticidade.
Sergipe: arqueologia e turismo cultural
Sergipe se destaca pelo turismo arqueológico e cultural. Em Canindé de São Francisco, o Sítio Arqueológico Novo Mundo e o Museu Arqueológico de Xingó apresentam gravuras rupestres e acervos históricos.
Eventos culturais e festivais locais conectam visitantes à história e à natureza do interior, consolidando o turismo como ferramenta de valorização patrimonial.


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