Presidente do SEBRAE explica como o sistema mantém a superação ao tarifaço
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Por Walter Santos
A realidade brasileira afetada pelos efeitos do Tarifaço adotado pelo Governo Trump, dos EUA, traduz no contexto a inserção da microempresa resistente e construindo meios de superar o impacto imposto. É o que analisa o presidente do SEBRAE, Décio Lima, em que ele avalia a conjuntura da micro e pequena empresa em ascensão.
Revista NORDESTE – O mundo convive com os efeitos do tarifaço adotado pelos EUA aos muitos países. Na sua opinião, como o SEBRAE e outros organismos oficiais no País atuam para contribuir com a micro e pequena empresa neste processo ligado à exportação?
Presidente Décio Lima – O tarifaço dos EUA não é uma tragédia para o Brasil — é um despertar. O Brasil é gigante, tem riqueza, povo empreendedor e vocação global. Chegou a hora de agir com patriotismo e coragem. Vamos crescer com essa situação, não tenha a menor dúvida, incluindo as nossas cadeias produtivas. Tenho certeza de que vamos ainda ter a abertura de novos mercados nesta economia globalizada e vamos entrar em outros territórios nos quais nunca pisamos. O Brasil e a nossa economia são muito maiores do que isso. Essa é uma narrativa de taxação contra o Brasil e não podemos entrar numa onda perversa de pessimismo.
NORDESTE – Como o Sr avalia e define a performance / postura do Governo brasileiro nestes dias em que o Brasil convive com os efeitos do tarifaço? Quando e como retomar negociações?
Décio Lima – São várias medidas que estão sendo tomadas pelo presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Desde a abertura de 400 novos mercados às negociações em curso. Além disso, o Plano Brasil Soberano busca proteger os exportadores brasileiros, preservar empregos, incentivar investimentos em setores estratégicos e assegurar a continuidade do desenvolvimento econômico. Um dos destaques da MP é o direcionamento de R$ 30 bilhões do Fundo Garantidor de Exportações (FGE) para crédito com taxas acessíveis, além de ampliar as linhas de financiamento às exportações.
NORDESTE – Como construir novos mecanismos pro micro e pequenas empresas?
Décio Lima – As pequenas e médias empresas também poderão recorrer a fundos garantidores para acessar o crédito, com a condição de manter o número de empregos. Toda essa situação vai mostrar para nós aquilo que historicamente a gente não conseguia enxergar, que é a grandeza do nosso país. Não precisamos ser submissos e vamos mostrar para o mundo o tamanho que nós temos. Não somos mais um território de subserviência, de gente pequena, um país de terceiro mundo.
NORDESTE – Na conjuntura como superar os efeitos das taxações ?
Décio Lima – Eu não posso imaginar que essas taxações, fronteiras econômicas, podem levar qualquer um de nós a voltar ao campo da subserviência, da humilhação e da resignação, de baixar a cabeça. O Brasil é dos brasileiros. Não será uma porcentagem de taxa que querem impor ao modelo econômico brasileiro que irá nos limitar.
NORDESTE – como estão enfrentando um dos maiores desafios dos pequenos negócios, que é o acesso ao crédito?
Décio Lima – O mercado de crédito para donos de pequenos negócios vive hoje seu momento mais promissor desde 2020, pois criamos uma política de crédito robusta. O presidente Lula lançou o programa Acredita e o Sebrae se aliou a estes esforços por meio do Acredita Sebrae. Estamos atuando de forma estratégica com o nosso fundo de aval, o Fampe (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas). O Sebrae atua para enfrentar as barreiras históricas que travam o crescimento dos pequenos negócios. Acompanhamos os empreendedores desde antes da solicitação do crédito até a liquidação do empréstimo, garantindo que o recurso seja aplicado de forma estratégica na gestão da empresa. Essa abordagem proativa, que oferece garantias por meio do FAMPE e assistência especializada, confere maior segurança às operações e, consequentemente, incentiva a concessão de crédito.
NORDESTE – O que projetar nesse aspecto a projeção de futuro?
Décio Lima – Os números confirmam essa virada. Quase metade (48%) dos empreendedores que buscaram crédito novo em 2025 tiveram seus pedidos aprovados — um salto expressivo frente aos 26% registrados em 2022 e aos 33% em 2023. O acesso também está mais fácil: quase 4 em cada 10 empreendedores afirmam não ter encontrado dificuldades para obter o empréstimo, o melhor resultado desde 2015. Para se ter ideia, em 2022, 84% relatavam obstáculos. Em 2024, realizamos um aporte de R$ 2 bilhões no FAMPE, que vai possibilitar a concessão de R$ 30 bilhões em crédito para os pequenos negócios nos próximos anos. Reforçamos ainda nossa rede de atendimento com agentes de crédito e finanças, rede própria e de parceiros, garantindo uma jornada de crédito consciente.
NORDESTE – Qual a realidade de investimentos e garantias de crédito?
Décio Lima – Desde o início do Programa já viabilizamos R$ 6 bi de crédito assistido com o fundo de aval do Sebrae. Este ano, devemos chegar a R$ 12 bi. É preciso abrir caminho para esses empreendedores e empreendedoras que não tem acesso ao crédito, um sistema financeiro que não foi feito para eles. E são os que mais geram emprego e renda no país.
NORDESTE – A diversidade brasileira expõe cenários socioeconômicos diferentes nas várias regiões do país. Efetivamente, qual o papel e que ações/políticas o SEBRAE se presta a consolidar nesses ambientes, a partir das micro e pequenas empresas?
Décio Lima – O povo brasileiro é um povo empreendedor. Sessenta por cento dos brasileiros e das brasileiras sonham em ter o próprio negócio. Desta forma, o papel do Sebrae é estratégico. Somente em 2024, realizamos 60 milhões de atendimentos e já no acumulado de 2025, já chegamos a 31 milhões. O atual momento da economia, com a criação de mais de 4,1 milhões de novos pequenos negócios e com a geração de mais de 1,3 milhão de empregos pelo setor, em 2024, reflete o espírito empreendedor do país. Agora, neste ano de 2025, devemos alcançar mais de seis milhões de novas micro e pequenas empresas. Isso representa uma descentralização da economia brasileira. São resultados que representam o espírito empreendedor brasileiro e que materializa na retirada do Brasil do Mapa da Fome.
NORDESTE – Cá pra nós, o que representa simbolicamente a marca SEBRAE?
Décio Lima – A Marca Sebrae é uma das mais valiosas do Brasil. Nos últimos dois anos, o valor da Marca Sebrae cresceu 346%, passou de R$ 7,6 bilhões para R$ 33,9 bilhões em 2025 (Fonte: Instituto Ipsos). Isso significa, que o Sebrae está presente na vida daqueles que sonham, que acordam de manhã e sabem se virar, buscam o próprio sustento. Se o Sebrae atuasse no mercado de capitais, a marca teria passado da 13ª para a 4ª mais valiosa do país no mesmo período. Esse resultado reforça o relacionamento próximo e sólido que construímos com os empreendedores, visando a entrega de valor e o sucesso dos pequenos negócios, permitindo a geração de emprego e renda.
NORDESTE- Presidente, como a estrutura tecnológica do Sistema SEBRAE tem contribuído na aplicação de meios, estratégias e atualizações, via plataformas e IA, para resolver os novos desafios das micro e pequenas empresas?
Décio Lima – Há dez anos, os grandes detentores de riqueza tinham um perfil completamente diferente. Hoje, os “donos do mundo” são aqueles que dominam a inteligência artificial, as plataformas digitais e os novos modelos de geração de valor. Nesse contexto, cabe ao Sebrae atuar como um verdadeiro escudo de proteção para a pequena economia, ajudando-a a se inserir de forma ágil nesse processo e contribuindo para o desenvolvimento desta matriz, na geração de oportunidades. Atualmente, o Sebrae é reconhecido como a maior plataforma de apoio a startups do país. Até abril de 2025, 18.575 startups buscaram participação em programas da instituição. Esse movimento já alcança mais de 465 municípios brasileiros.

NORDESTE – Como anda o ecossistema digital nesse contexto?
Décio Lima – No ambiente de negócios, as startups também estão promovendo mudanças estruturais. O Catalisa Gov é uma estratégia do Sebrae para impulsionar a inovação aberta no setor público brasileiro. Ao facilitar as compras públicas de inovação, o programa contribui diretamente para a melhoria do ambiente de negócios, da inovação e da qualidade de vida da população. O Sebrae lançou também um curso de Inteligência Artificial para gestores públicos (https://encurtador.com.br/5zZZI) e há na nossa plataforma de cursos online (todos gratuitos) sobre como aplicar inteligência artificial na gestão dos pequenos negócios. O curso apresenta fundamentos necessários para a implementação da IA nos negócios (https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline/ia-na-pratica-para-pequenos-negocios,bbdd9278376b4910VgnVCM1000001b00320aRCRD ). Os conceitos da inovação, da sustentabilidade e da inovação (incluindo a IA) não tem mais volta.
NORDESTE – conforme as pesquisas existentes, como o Sr define a participação percentual das mulheres nos micro e pequenos negócios no país?
Décio Lima – O empreendedorismo feminino já está consolidado como uma força transformadora no cenário econômico brasileiro. Com sua atividade, as mulheres empreendedoras não só garantem o sustento de suas famílias, mas também atuam como impulsionadoras de desenvolvimento. Ao criarem e expandirem seus negócios, elas geram emprego, renda e estimulam o crescimento local, contribuindo de forma relevante para a redução das desigualdades. Além do impacto econômico, o empreendedorismo representa também uma alternativa de emancipação para muitas mulheres, sobretudo àquelas que já sofreram ou ainda enfrentam situações de violência. Ao assumir o comando de seus próprios negócios, elas encontram na atividade empreendedora uma alternativa para romper ciclos de dependência, conquistar autonomia e reafirmar sua dignidade.

NORDESTE – qual o impacto do universo feminino na conjuntura?
Décio Lima – As mulheres já são um pilar essencial para o desenvolvimento econômico e social. E, pelo empreendedorismo, podem conquistar ainda mais! Por isso vamos continuar trabalhando para contribuir com a consolidação das políticas públicas necessárias para incluir mais mulheres nesse universo e para que elas possam ter condições de igualdade no mercado, construindo um futuro mais inclusivo, diverso e justo.
NORDESTE – qual o tamanho do MEI nos negócios brasileiros?
Décio Lima – Os empreendedores são viradores profissionais. E, na linha de frente, estão os microempreendedores individuais (MEI) — aqueles que nunca desistem, que acordam de manhã e sabem correr atrás do próprio sustento. O empreendedor é entregador, boleira, costureira, cabeleireira, é influenciador digital. São profissionais que fazem do talento o próprio sustento de vida. Essa tendência se intensificou nos últimos anos. São pessoas que não renunciam à própria autonomia, à liberdade de fazer o próprio horário. E, o mais importante: acreditam no que fazem e buscam, no trabalho, o propósito de vida, indo atrás da própria felicidade. Esses são os brasileiros e brasileiras que sabem se virar. Esse perfil é a rotina dos microempreendedores individuais.
NORDESTE – qual o perfil em construção no Brasil na atualidade?
Décio Lima – São eles, em especial, que vêm construindo o novo trabalhador brasileiro — com mais autonomia e dono do próprio negócio. Já nos três primeiros meses deste ano, o número surpreende: foram quase um milhão e meio de CNPJs abertos até março, com destaque para os microempreendedores individuais, que responderam por 78% desse total. O volume de MEI registrados no país cresceu 35% em comparação com o mesmo período de 2024. A implementação da figura do Microempreendedor Individual permitiu que milhões de pessoas que faziam do empreendedorismo uma alternativa para complementar a renda, ou mesmo como sua principal ocupação, pudessem se beneficiar de uma série de direitos que antes lhes eram vedados: registro de um CNPJ, possibilidade de emitir nota fiscal, vender para o poder público, ter acesso a produtos e serviços bancários, além de direitos e benefícios previdenciários.
NORDESTE – por fim, qual o papel do MEI?
Décio Lima – Em síntese, o MEI representou, para esse público, a conquista da cidadania como empreendedor — um passaporte para milhões de donos de pequenos negócios informais saírem do mundo da precariedade, do risco, da constante ameaça de verem seus sonhos transformados em pesadelo.
*Entrevista publicada na Edição 224, da Revista Nordeste

